CUIDAR DE QUEM CUIDA - QUANDO A EXAUSTÃO DOS PROFISSIONAIS
SE TORNA UM PROBLEMA DOS CIDADÃOS
Há uma pergunta que o país continua a evitar: quem cuida dos profissionais que diariamente cuidam de todos nós?
Durante anos, a discussão sobre a saúde mental dos profissionais de saúde foi remetida para a esfera individual. Falou-se de resiliência, de adaptação, de capacidade de lidar com a pressão. Como se a exaustão fosse apenas uma fragilidade pessoal e não a consequência previsível de sistemas organizacionais submetidos a uma pressão permanente.
Mas a realidade é mais dura e mais incómoda. Os profissionais de saúde, particularmente os Enfermeiros, trabalham diariamente na fronteira entre a vida e a morte, entre a esperança e o sofrimento, entre a recuperação e a perda. São confrontados com a dor humana numa intensidade que poucos contextos profissionais conhecem.
Todavia, a exigência emocional inerente ao cuidar deixou de ser o único desafio. Hoje, muitos profissionais enfrentam equipas insuficientes, horários desajustados, sobrecarga assistencial, exigências burocráticas crescentes e uma escassez persistente de recursos humanos. Em muitos serviços, o esforço extraordinário transformou-se numa normalidade organizacional. Quando isto acontece, a exaustão deixa de ser uma possibilidade e transforma-se numa inevitabilidade. Importa dizê-lo com frontalidade, profissionais exaustos não constituem apenas um problema laboral, constituem um problema de saúde pública. E a escassez de recursos humanos não é apenas um problema de gestão, mas também um problema de justiça social. Quando um profissional dispõe de menos tempo para cuidar, o cidadão recebe menos atenção, menos relação terapêutica e, muitas vezes, menos dignidade no processo de cuidar.
A fadiga física e emocional diminui a capacidade de concentração, compromete a tomada de decisão, fragiliza a comunicação entre equipas e aumenta a probabilidade de falhas. Não porque os profissionais sejam menos competentes, mas porque nenhum ser humano consegue manter indefinidamente elevados níveis de desempenho sob condições de desgaste permanente. E quando falamos de falhas em saúde, falamos de pessoas. Falamos do cidadão que espera uma resposta atempada. Falamos do doente que necessita de vigilância permanente. Falamos da família que deposita confiança nos profissionais e nas instituições.
A qualidade dos cuidados não depende apenas da competência técnica. Depende também do tempo disponível para cuidar, da atenção dedicada ao doente, da capacidade de escutar, de observar, de comunicar e de decidir. Quando os recursos humanos são insuficientes, o primeiro impacto nem sempre é visível nas estatísticas. Surge silenciosamente na redução do tempo disponível para cada pessoa, na deterioração da relação terapêutica, no aumento da tensão das equipas e no desgaste emocional dos profissionais.
Mais cedo ou mais tarde, porém, o sistema acaba por “pagar essa factura”. Por isso, o burnout não pode continuar a ser interpretado como uma falha individual, trata-se de um indicador organizacional e político. É frequentemente o sintoma de estruturas incapazes de assegurar condições adequadas para o exercício profissional.
Da mesma forma que uma ponte degradada denuncia uma falha estrutural e falta de investimento público, uma equipa sistematicamente exausta denuncia insuficiências de planeamento, gestão e decisão política. Esta é uma matéria que exige coragem. Exige coragem das lideranças para reconhecer que a sustentabilidade das organizações depende das pessoas. Exige coragem dos gestores para colocar o capital humano no centro das decisões. E exige coragem dos decisores políticos para compreender que investir em profissionais não é uma despesa, é uma condição de segurança, qualidade e sustentabilidade do próprio sistema de saúde.
A evidência científica é clara, organizações com lideranças humanizadas, dotações seguras, ambientes psicologicamente protegidos e culturas de reconhecimento apresentam melhores resultados clínicos, maior segurança dos cuidados, menor rotatividade e maior satisfação dos cidadãos. Humanizar as organizações não é diminuir a exigência, é criar condições para que a excelência seja possível.
Talvez tenha chegado o momento de compreendermos que a saúde mental dos profissionais não é uma reivindicação corporativa. É uma questão ética, social e política, porque quando um profissional adoece, todos perdemos. Mas quando um sistema normaliza a exaustão daqueles que cuidam, coloca em risco algo ainda mais valioso que é a confiança dos cidadãos na capacidade de serem cuidados com segurança, dignidade e qualidade.
Cuidar de quem cuida não é um acto de benevolência institucional. É uma responsabilidade estratégica! É uma exigência moral! E é, acima de tudo, uma escolha civilizacional.
Humberto Domingues
Enf. Espec. Saúde Comunitária
Mestre em Sociologia da Saúde
Autor de reflexão crítica sobre políticas públicas, Saúde e Sociedade
2026.06.16
O Autor escreve de acordo com o antigo acordo ortográfico.

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