sábado, 28 de fevereiro de 2026

MOÇÃO APRESENTADA NA ASSEMBLEIA REGIONAL DA SECÇÃO DO NORTE DA ORDEM DOS ENFERMEIROS

MOÇÃO APRESENTADA NA ASSEMBLEIA REGIONAL 

DA SECÇÃO DO NORTE DA ORDEM DOS ENFERMEIROS

MOÇÃO DE CONGRATULAÇÃO



 

"Reconhecimento e Valorização do Trabalho da Secção Regional do Norte

Um Ano de Excelência, Liderança e Compromisso

 

Senhor Presidente da Mesa da Assembleia Regional do Norte, Enf. Vítor Machado

Senhor Vice-Presidente da Ordem dos Enfermeiros, Enf. João Paulo

Sr. Presidente da Secção Regional do Norte, Enf. Miguel Vasconcelos

Caros Colegas!

É com genuína emoção e profundo reconhecimento que me dirijo a Vós nesta Assembleia Regional, em Braga, momento próprio para nos dirigirmos aos Colegas Enfermeiros do Norte. E faço-o numa Moção, para memória futura, porque para além dos “Relatórios de Actividades e Orçamentos” votados nesta Assembleia, solicito que este documento fique apenso à acta desta Assembleia.

 


Encerrou-se mais um ano repleto de realizações significativas e é com muita satisfação e reconhecimento que me dirijo à Ordem dos Enfermeiros, em particular à sua Secção Regional do Norte, para expressar e registar o trabalho notável desenvolvido em prol da valorização, da coesão e do fortalecimento da profissão de Enfermagem.

 Passou já meio mandato!

Ao longo deste período, (dois anos de Dedicação e Empenho Exemplar) a Nossa Ordem demonstrou, uma vez mais, o seu papel insubstituível como guardiã dos valores éticos e, essencialmente deontológicos, e profissionais que definem a Enfermagem Portuguesa. A Secção Regional do Norte, em particular, revelou-se com uma dinâmica de excelência, canalizando esforços contínuos para a defesa dos direitos dos Enfermeiros, a proximidade, a promoção da qualidade dos cuidados e o reconhecimento merecido da profissão na Sociedade a Norte.

Este compromisso com a missão institucional não seria possível sem a liderança exemplar, o empenho e a dedicação notável que caracterizam a atuação do seu Presidente, Enf. Miguel Vasconcelos e todo o Conselho Directivo. A Vossa visão estratégica, a capacidade de mobilização e o espírito de serviço demonstraram-se fundamentais na representação digna e eficaz da região, elevando o perfil institucional e reforçando a voz dos Enfermeiros do Norte em todos os fóruns relevantes. Aprendemos muito nos webinares e nos contributos de todos os Dirigentes dos Orgãos Regionais. A nossa Secção demonstrou uma vez mais, ser muito mais do que uma instituição: é um farol que orienta, um escudo que protege, e uma voz que fala por todos nós.

Este ano que terminou foi marcado por um trabalho notável, por um empenho incontestável e por uma dedicação que honra, verdadeiramente, a profissão que todos aqui representamos. Poderia falar-vos de inúmeros eventos, desde o “Encontro Científico de Investigação”, “Pelo Norte da Enfermagem” ou “Enfermagem às Quintas”, mas vou deter-me apenas em dois grandes eventos.

A Convenção de Enfermeiros em Fátima: Um Encontro de Significado Profundo

Na Convenção Internacional de Enfermeiros em Fátima, a participação da Secção Regional do Norte constituiu um momento de grande relevância simbólica e estratégica. Afirmou-se como protagonista activa, contribuindo de forma substancial para o diálogo profissional, a partilha de boas práticas e o reforço da identidade coletiva da Enfermagem Portuguesa. O contributo institucional e profissional apresentado nesta Convenção não apenas reflectiu o trabalho desenvolvido ao longo do ano, mas também projectou uma visão inspiradora para o futuro da profissão. Foi um testemunho vivo do compromisso com a excelência, a inovação e a responsabilidade social que caracterizam os Enfermeiros da região. Apresentaram trabalho, partilharam visões, e reafirmaram, perante toda a Comunidade de Enfermagem Portuguesa, que o Norte não acompanha apenas, mas lidera! Fátima tornou-se, assim, um testemunho vivo do nosso compromisso com a excelência e com a inovação.

"Norte Reconhece, Norte Valoriza": Uma Cerimónia de Impacto Transformador

A cerimónia "Norte Reconhece, Norte Valoriza" emergiu como uma iniciativa de importância simbólica e estratégica incontestável. Mais do que um evento protocolar, constitui um momento de profunda reafirmação dos valores que sustentam a profissão: o reconhecimento do mérito, a valorização do trabalho árduo e dedicado, e a celebração coletiva da excelência em Enfermagem, não esquecendo os seus protagonistas de hoje, mas essencialmente, os de ontem.

Esta cerimónia representa um passo significativo na mudança de narrativa sobre a profissão, contribuindo para elevar o prestígio social dos Enfermeiros e para reforçar a coesão institucional. O impacto positivo desta iniciativa estende-se muito além do momento da celebração: estabeleceu um precedente de valorização que inspira e motiva, reafirmando que o trabalho dos Enfermeiros é visto, reconhecido e verdadeiramente apreciado. É uma vocação, é um compromisso com a vida, é um ato de amor ao próximo.

Olhar para o Futuro com Esperança e Determinação

Ao reconhecer o trabalho notável realizado, não podemos deixar de reafirmar a nossa convicção “positiva” de que o melhor ainda está para vir. A Ordem dos Enfermeiros, sob a liderança dedicada que os caracteriza, do nosso Digníssimo Bastonário e do Presidente da Secção Regional, continua a ser um farol de esperança e um instrumento de transformação positiva para a profissão.

A Secção Regional do Norte, em particular, demonstrou estar à altura dos desafios contemporâneos, respondendo com criatividade, determinação e um profundo sentido de responsabilidade. O caminho traçado é claro: continuar a defender, a valorizar e a elevar a Enfermagem portuguesa.

Valores que Nos Unem, Força que Nos Impulsiona

Ao olhar para o ano encerrado, olhamos para o futuro com esperança e determinação. Os desafios que nos aguardam são significativos — sabemos disso. Mas também sabemos que temos uma instituição forte, uma liderança dedicada, e, acima de tudo, temo-nos uns aos outros.

O trabalho desenvolvido pela Secção Regional do Norte ao longo deste ano e, meio mandato já decorrido, reafirma valores fundamentais que transcendem o âmbito meramente profissional: 

  • O Reconhecimento;
  • A Coesão Institucional;
  • O Orgulho na Enfermagem;
  • A Responsabilidade Social.

Na Liderança, Rigor e Compromisso Democrático - O Coração da Instituição

A moderação das mesas de trabalho e, particularmente, a Presidência da Mesa da Assembleia Regional foram desempenhadas com uma competência e um rigor exemplares. A capacidade de conduzir debates complexos com equilíbrio, de garantir que todas as vozes sejam ouvidas e respeitadas, e de manter o foco nos objetivos coletivos revelou um profundo espírito democrático e um compromisso inabalável com o fortalecimento institucional. E isto importa porque a nossa força reside na nossa coesão, na nossa capacidade de debater com respeito, de discordar com dignidade, e de caminhar juntos em direção aos mesmos objetivos.

As lideranças dos diferentes Órgãos Regionais não se limitaram a questões de procedimentos, traduziram-se numa verdadeira mobilização em torno de causas que importam: a defesa da dignidade profissional, a promoção de condições de trabalho dignas, a valorização da formação contínua e o reconhecimento do papel central dos Enfermeiros no Sistema de Saúde através das Instituições onde trabalham.

Para terminar Sr. Presidente da Mesa,

Fica-nos um Testemunho de Gratidão e Inspiração

Traduzido nas cerimónias da entrega de Medalhas dos 25 anos, que tem acontecido com muita elevação e dignidade. À Secção Regional do Norte e ao senhor Presidente da Mesa Regional, e em Vª. Exª., Todos os Órgãos, expressamos a nossa mais sincera gratidão. O trabalho desenvolvido neste ano de 2025, não apenas honra a profissão, mas também inspira gerações futuras de Enfermeiros a abraçarem a sua vocação com o mesmo empenho, dedicação e excelência, com que nós o fizemos.

Que este reconhecimento sirva como combustível para continuar a jornada, reafirmando o compromisso com uma Enfermagem cada vez mais valorizada, respeitada e central na vida das comunidades que servimos, trilhando o caminho da lealdade com a O.E., não sendo unanimistas, nem calados em silêncios demolidores.

A Enfermagem do Norte é, verdadeiramente, motivo de orgulho nacional. Que este reconhecimento nos motive a continuar. Que nos inspire a sonhar ainda mais alto. E que nos una na convicção do que a Enfermagem representa.

Muito obrigado.

Disse

Braga, 27 de Fevereiro de 2026

 Humberto José Pereira Domingues

Membro 10167

Enf. Espec. Enfermagem Comunitária"

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

COMUNICAÇÃO ASSERTIVA EM MOMENTOS DE CATÁSTROFE

 COMUNICAÇÃO ASSERTIVA EM MOMENTOS DE CATÁSTROFE

A Comunicação é uma ferramenta importantíssima nas diferentes dimensões e relações da Sociedade. Desde os tempos ancestrais que o Homem tem necessidade de Comunicar, seja através do fumo ou do rufar dos tambores, à era dos faxes ou do correio electrónico e SMS.
Em momentos de catástrofe e calamidade, quando o imprevisível se impõe e o tempo deixa de ser um recurso abundante, a comunicação deixa de ser um simples instrumento de gestão para se tornar numa ferramenta de sobrevivência coletiva. Uma comunicação eficaz precisa de ser rápida, coerente e inteligível para todos os “públicos alvo”, desde os decisores políticos até às equipas operacionais e à população em geral. A assertividade não se resume a falar com firmeza. Trata-se de comunicar com clareza, objetividade, empatia e responsabilidade. Em crises, palavras ambíguas geram pânico, silêncios prolongados alimentam rumores e mensagens contraditórias desorganizam operações. É nesses cenários de incerteza, medo e urgência que a comunicação assertiva revela o seu valor mais crítico e útil: salvar vidas, reduzir danos e preservar a confiança social.

No plano político, a comunicação assume uma função estratégica de liderança. Os responsáveis políticos tornam-se a “voz de comando” simbólica e institucional. A população procura neles orientação, serenidade e segurança. Um discurso claro e transparente ajuda a conter a ansiedade coletiva, legitima decisões difíceis e reforça a perceção de controlo sobre a situação. Pelo contrário, hesitações públicas, informações desencontradas ou tentativas de minimizar a gravidade dos factos corroem rapidamente a credibilidade das instituições.

É precisamente aqui que emerge uma dimensão incontornável, a responsabilidade política. Em contextos de crise, comunicar não é apenas um acto técnico, é um acto de governação. A forma como os líderes informam, esclarecem e orientam a sociedade tem impacto direto na eficácia das medidas adoptadas e na protecção dos cidadãos. Uma comunicação falhada não é apenas um erro operacional, pode constituir uma falha política com consequências humanas, sociais e económicas profundas.

Quando autoridades transmitem mensagens contraditórias, subestimam riscos, atrasam alertas ou adotam discursos vagos, o efeito é devastador. A população perde referências, instala-se a desconfiança e multiplicam-se comportamentos descoordenados. A ausência de clareza pode levar ao incumprimento de recomendações de segurança, à resistência às medidas de emergência ou à disseminação de pânico coletivo. Nestes casos, a falha comunicacional transforma-se numa falha de liderança.

Mas a liderança comunicacional não se esgota no plano discursivo. Ela precisa de estar alinhada com a operacionalização das intervenções. Equipas de emergência, forças de segurança, profissionais de saúde e estruturas logísticas dependem de fluxos de informação precisos e contínuos. Ordens mal transmitidas, protocolos pouco claros ou falhas na circulação de dados podem comprometer resgates, atrasar evacuações e gerar riscos adicionais. Sistemas de informação eficientes, canais bem definidos e mensagens sem ruído são essenciais para evitar desperdícios, duplicações ou lacunas críticas. A fluidez comunicacional é, aqui, sinónimo de eficiência e eficácia. Em crises, comunicar mal é agir mal.

Contudo, é na comunicação com a População que se joga uma das dimensões mais sensíveis da gestão da crise. Informar não é apenas transmitir dados, é orientar comportamentos, instruções claras sobre segurança, deslocações, cuidados de saúde ou acesso a serviços podem fazer a diferença entre o caos e a organização social. A linguagem deve ser acessível, inclusiva e adaptada à diversidade de públicos. O tom precisa de equilíbrio entre firmeza e empatia, autoridade e proximidade.

Além disso, a transparência torna-se um imperativo ético e político. Em tempos de calamidade, esconder incertezas ou atrasar informações relevantes pode até parecer uma estratégia de controlo, mas geralmente produz o efeito inverso: desconfiança, especulação e perda de adesão às medidas propostas. A confiança pública constrói-se com verdade, consistência e presença comunicacional constante.

No mundo digital, importa ainda reconhecer o seu papel. Redes sociais e plataformas on-line amplificam mensagens oficiais, mas também propagam desinformação a uma velocidade inédita. Daí a necessidade de estratégias comunicacionais proactivas, monitorização contínua e respostas rápidas. Em ambiente digital, o vazio informativo é rapidamente ocupado por versões alternativas dos factos, muitas vezes alarmistas ou falsas.

Assim, a comunicação assertiva em contextos de catástrofe não é um detalhe técnico nem um adereço institucional. É uma infraestrutura crítica da resposta à crise. Ela articula liderança política, acção operacional, coordenação logística e cria confiança nos cidadãos. Quando bem conduzida, organiza o caos, orienta decisões e protege comunidades. Quando negligenciada, amplia danos, compromete respostas e expõe fragilidades de governação.

Num mundo cada vez mais exposto a emergências, sejam elas naturais, sanitárias ou tecnológicas, investir em literacia, competências e sistemas de comunicação de crise não é um luxo, é uma necessidade estratégica e um dever político. Porque, em tempos de calamidade, comunicar bem é mais do que informar: é exercer liderança, assumir responsabilidade e cuidar da vida coletiva.

Humberto Domingues
Enf. Espec. Saúde Comunitária
Mestre em Sociologia da Saúde
2026.02.16

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

PROTECÇÃO CIVIL E MILITARES: INTEGRAÇÃO NECESSÁRIA OU COOPERAÇÃO SUFICIENTE?

PROTECÇÃO CIVIL E MILITARES: INTEGRAÇÃO NECESSÁRIA 
OU COOPERAÇÃO SUFICIENTE?

Fonte da foto: Defesa Nacional

Em Portugal, a discussão sobre o papel das Forças Armadas na Protecção Civil tende a reacender-se sempre depois da tragédia. Foi assim após os grandes incêndios florestais de 2017, repete-se nas cheias que ciclicamente afectam o Norte e o Centro do país, e regressa sempre que a possibilidade de um sismo de grande magnitude volta à agenda pública. A pergunta impõe-se: faz sentido manter os militares apenas como recurso extraordinário ou devemos integrá-los de forma mais estruturada na resposta a catástrofes?

A experiência recente mostra que o sistema de Protecção Civil, apesar do empenho e da dedicação dos seus profissionais e voluntários, revela fragilidades quando confrontado com eventos de grande escala e longa duração. Incêndios simultâneos em vários distritos, populações isoladas por cheias repentinas ou um eventual sismo na região de Lisboa exigem uma capacidade de comando, logística e coordenação que ultrapassa largamente a resposta habitual.

É precisamente aqui que as Forças Armadas demonstram o seu valor acrescentado. O Exército, a Marinha e a Força Aérea dispõem de meios de engenharia, transporte, comunicações e planeamento que são determinantes em cenários de crise. Em incêndios florestais, os militares têm capacidade para abrir e manter acessos, garantir apoio logístico contínuo às forças no terreno, assegurar a evacuação de populações e proteger infraestruturas críticas. Nas cheias, os seus meios anfíbios, pontes móveis e unidades de engenharia tornam-se essenciais para o resgate e apoio às populações isoladas. Em nossa opinião, num cenário sísmico (o mais temido e o menos preparado) seriam, inevitavelmente, uma das poucas estruturas do Estado capazes de operar de forma organizada no meio do colapso.

A questão, contudo, não é a utilidade dos militares. Essa está amplamente comprovada. O debate reside no modelo de articulação. A Protecção Civil Portuguesa é, e deve continuar a ser, com a sua importância, uma estrutura de natureza civil, próxima das autarquias e das comunidades locais. Uma integração directa dos militares no comando permanente poderia gerar tensões institucionais e desvirtuar essa missão, que não se pretende.

Mas entre a exclusão e a militarização existe um caminho racional, uma integração planeada, permanente e funcional. Isso implica que as Forças Armadas não sejam chamadas apenas “quando tudo falha”, mas que participem activamente no planeamento, nos exercícios conjuntos e nos centros de decisão em situações de emergência. Oficiais de ligação, cadeias de comando previamente definidas e protocolos claros permitiriam uma resposta mais rápida, evitando improvisações que, em contexto de catástrofe, custam tempo, e vidas.

Portugal é um país pequeno, com recursos limitados e riscos naturais bem identificados. Manter compartimentos estanques entre estruturas do Estado não é sinal de prudência institucional, mas de ineficiência. A cooperação episódica já demonstrou ser insuficiente. O que se exige é uma visão estratégica que reconheça que a segurança das populações não se esgota na prevenção nem na reacção imediata, mas na capacidade de resposta integrada e sequencial.

As Forças Armadas não são uma solução milagrosa, nem substituem bombeiros, técnicos de emergência ou autarquias. Mas são, indiscutivelmente, um dos pilares que faltam para tornar o sistema de Protecção Civil mais robusto, resiliente e credível.

Quando o próximo grande incêndio, a próxima cheia ou o próximo sismo acontecer, e acontecerá, a pergunta não será se o modelo é civil ou militar. Será se o Estado estava preparado. E essa resposta constrói-se hoje, não no dia da catástrofe. Porque quando a tragédia chega, o que conta não é quem manda, é quem consegue responder melhor.

Humberto Domingues
Enf. Espec. Saúde Comunitária
Mestre em Sociologia da Saúde
2026.02.09

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

POEMA - HOMENAGEM PESSOAL AOS ENFERMEIROS PORTUGUESES

 HOMENAGEM PESSOAL AOS ENFERMEIROS PORTUGUESES


POEMA AOS ENFERMEIROS

O CANTO DA ENFERMAGEM

Onde a dor se faz mais densa
E o medo é mais real,
Brilha a vossa presença,
Farol de afecto no hospital.

Não sois só o uniforme,
A técnica e o saber,
Sois o abraço que conforta,
A força imensa de viver.

No corredor silente,
A vossa voz é calma,
Um bálsamo que desce
E apazigua a alma.

Mãos que são de ciência,
Mas também de ternura,
Que medem a febre
E curam a amargura.

Vistes o cansaço,
A dor que não se diz,
O peso do mundo
Em cada imensa cicatriz.

E mesmo na exaustão,
O passo não vacila,
Pois a chama do cuidado
Em vós sempre cintila.

Mas vós, que vedes a alma nua,
E o fardo que ninguém imagina,
Quantas lágrimas na noite escura,
Travastes, com a face divina.

O sorriso sereno que acalma,
É a máscara que a dor esconde,
A força que sustenta a alma,
Onde a esperança responde.

Vestistes o manto da coragem,
O EPI… a nova armadura,
E a Missão se fez Obrigação,
Em cada acto de salvação pura.

Ouvistes o grito mais temido,
"Não me deixe morrer só", a prece,
E fostes o afago prometido,
A mão que a solidão esquece.

Continuais por entre corredores,
Desafiando o incómodo e o tentador,
Gerindo emoções, aliviando dores,
Com a ciência e o vosso valor.

Sois mensageiros da esperança,
Para o idoso e o recém-nascido,
A vida que em vós se balança,
O toque que jamais é esquecido.

Foram turnos sem fim,
Nos Centros de Vacinação,
Mesmo com noite mal dormidas
Foi presença, trabalho e dedicação.

Obrigado por serem assim,
No nascer em cada novo dia,
A mais pura essência
Da Vossa humanidade e valia.

Enfermeiros de Portugal,
De um Povo inteiro, a gratidão,
Pela vossa coragem e entrega,
Pela vossa dedicação.

Obrigado por tudo o que sois,
Por cada madrugada em claro,
A saúde deste país respira em vós,
O nosso mais sincero e eterno OBRIGADO.

Humberto Domingues
2026.02.05

HOMENAGEM PESSOAL AOS ENFERMEIROS PORTUGUESES

 HOMENAGEM PESSOAL AOS ENFERMEIROS PORTUGUESES

Aos Enfermeiros Portugueses,

Há uma força silenciosa que percorre os hospitais e centros de saúde de Portugal. Não se vê, mas sente-se. No toque que acalma, na palavra que orienta, no olhar que entende quando tudo parece perdido. Essa força, sois VÓS, ENFERMEIROS. Homens e Mulheres da ciência, do humanismo, da entrega e da dádiva. DO ALTRUISMO!

VÓS, que sois muitas vezes os primeiros a chegar e os últimos a sair. VÓS, que recebeis a vida no primeiro choro. Que ensinastes os bebés a nascer e os Pais a serem Papás. Que segurais a mão no último suspiro. Que guardais a última confissão feita. VÓS, que não deixais ninguém morrer sozinho, mesmo quando o pedido vem em lágrimas: “não me deixe morrer só”. E quantas lágrimas vossas ficaram escondidas atrás de uma máscara, de um EPI, de um silêncio carregado de dor…

VÓS, que vedes o que ninguém vê, que carregais o que ninguém imagina, que transformastes a missão em obrigação, e a obrigação em actos heróicos de salvação.

Ser Enfermeiro não é apenas uma profissão. É uma entrega total. É dar quando já não há forças. É sorrir quando a alma está cansada. É ser esperança quando tudo dói. Mesmo magoados, mesmo feridos por dentro, continuais a acalmar, a cuidar, a salvar.

Em cada turno deixais um pouco de VÓS. Deixais humanidade. Deixais dignidade. Deixais cuidado, aquele cuidado que cura, aquele afago que ninguém faz, que salva e que faz renascer a esperança, seja no hospital, na comunidade ou na casa de cada doente.

Quantas horas dadas nos Centros de Vacinação. Quantos milhares e milhares de vacinas administradas, turno atrás de turno, horas seguidas em pé, cansaço imenso de noites mal dormidas. Mas a Missão obrigava a dizer presente! A dedicação e o brio Profissional não deixavam ninguém desistir. O Vosso exemplo é digno de homenagem!

Portugal deve-vos muito mais do que palavras. Mas saibam isto: há um POVO INTEIRO que vos admira, mesmo que às vezes em silêncio. Há famílias que nunca esquecerão o vosso nome. Há vidas que só existem porque um Enfermeiro esteve lá.

Obrigado! Obrigado por cada madrugada em claro. Por cada preocupação que levam para casa em silêncio. Por cada vida que tocaram sem sequer perceber. Por tudo o que fazem e por tudo o que são.

Passados cinco anos, em que o COVID me levou ao limite da vida onde “toquei a morte” com um dedo, posso dizê-lo com o coração cheio: sobrevivi pela ciência, pelo saber dos Homens, pela força divina que me protegeu… e pelo cuidado dos Enfermeiros (e de outros Profissionais que não esqueço). Fui doente grave. Fui cuidado por Colegas. Fui salvo por VÓS.

Por isso, permitam-me esta homenagem simples, mas sentida: OBRIGADO!

ENFERMEIROS PORTUGUESES, COLEGAS DA MINHA UNIDADE E DA ULSAM,
DE CORAÇÃO…
MUITO OBRIGADO.

Humberto Domingues
2026.02.05

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

QUANDO A NATUREZA FALA MAIS ALTO, É PORQUE “NÃO QUISEMOS” OUVIR?

QUANDO A NATUREZA FALA MAIS ALTO, É PORQUE “NÃO QUISEMOS” OUVIR?

Fonte da Foto: Público

Perante tão avassaladora onda de destruição, de devastação e de prejuízos, quisemos reflectir perante estes fenómenos e a intervenção do Homem. Será que a “Sociedade Moderna” está preparada para estes drásticos acontecimentos?

Fonte da Foto: Notícias de Coimbra

Sempre que um temporal atinge o território com violência, instala-se um sentimento coletivo de impotência e populações em sobressalto. E, invariavelmente, repete-se também o discurso da surpresa. Como se a força da natureza fosse um fenómeno novo, imprevisível ou impossível de antecipar. Não é! A natureza tem a sua própria linguagem e os temporais, as cheias e os deslizamentos são apenas a forma mais dura de nos lembrar disso. E estes fenómenos naturais que não controlamos têm uma intensidade crescente, agravada pelas alterações climáticas, que ultrapassa muitas vezes a capacidade de resposta imediata.

Fonte da Foto: Renascença

A chuva que não dá tréguas, o vento que tudo varre, a água que cresce em minutos e arrasta consigo estradas, bens e memórias. Há momentos em que a natureza se impõe com uma força tão avassaladora que nenhuma infraestrutura, por mais robusta que seja, parece resistir. E perante essa fúria, há populações inteiras que ficam indefesas, expostas, reféns de uma realidade que não controlam. É triste, é comovente, é arrasador ver pessoas indefesas depois de “açoitadas” por tão agressiva natureza, algumas delas ficando sem mesa para comer, ou cama para dormir!

Fonte da Foto: JN

É essencial reconhecê-lo que, existem fenómenos naturais cuja intensidade e rapidez ultrapassam qualquer capacidade humana de resposta imediata. A natureza não negoceia, não espera e não distingue. Age com uma força primária, imparável, lembrando-nos da nossa fragilidade enquanto sociedade e enquanto indivíduos. Quando a chuva cai com intensidade, a água segue o seu caminho natural, e fá-lo com força, mas não é a água que invade, somos nós que ocupámos o espaço que nunca deixou de lhe pertencer e ignoraram-se as linhas naturais de escoamento desta água.


Mas é precisamente por essa força ser conhecida, e cada vez mais frequente, que a imprudência humana se torna ainda mais grave. O que transforma um fenómeno natural extremo numa tragédia humana não é apenas a chuva que cai, mas a forma como escolhemos viver com ela. A falta de planificação, o mau ordenamento do território que foi sendo feito ao sabor da conveniência imediata e o abandono sistemático da gestão florestal criam cenários onde qualquer excesso se torna devastador. As linhas de água, açudes e aquedutos, esquecidos e obstruídos, deixam de cumprir a sua função reguladora e encaminhar os excessos. As florestas, sem limpeza nem gestão, perdem a capacidade de absorção e proteção do solo, tornaram-se obstáculo no inverno e combustível no verão. Constrói-se onde não se devia, ignora-se o histórico-natural do território e transfere-se para as populações o peso de decisões que nunca tomaram.

Fonte da Foto: Renascença

Quando a água avança, não há escolha. Casas são invadidas, acessos cortados, serviços essenciais interrompidos. Famílias veem-se obrigadas a abandonar tudo, muitas vezes sem tempo para salvar o essencial. Nestes momentos, a vulnerabilidade das populações é total, e é injusto continuar a tratá-las como meras estatísticas de um mau dia de meteorologia. A Política e as boas decisões políticas deveriam pensar o futuro com planeamento e visão, e não o imediato, para o mediatismo ou o “ganhar eleições”. É necessário planear a longo prazo, usar tecnologia para monitorização e previsão, investir em redes elétricas mais resistentes, em sistemas de drenagem modernos, em gestão florestal inteligente e em políticas públicas que pensem o território como um todo e não como parcelas isoladas.

Fonte da Foto: JN

Reconhecer a força incontrolável da natureza não significa resignação. Significa humildade e responsabilidade. Prevenção, planeamento, recursos adequados e uso inteligente de novas tecnologias, da monitorização ambiental às redes elétricas resilientes, são hoje uma necessidade, não um luxo. Não para controlar a natureza, mas para reduzir o impacto da sua fúria sobre quem menos pode defender-se.

Fonte da Foto: Jornal de Leiria

A natureza continuará a fazer o seu caminho. Cabe ao Homem decidir se quer continuar a ser surpreendido… ou finalmente preparado. Continuar a tratar cada temporal ou fenómeno deste tipo, como um acontecimento excepcional é insistir no erro. A natureza não é negligente, não improvisa e não esquece. O Homem, sim! E enquanto não assumirmos essa responsabilidade, continuaremos a confundir tragédia anunciada com fatalidade.

Humberto Domingues
Enf. Espec. Saúde Comunitária
Mestre em Sociologia da Saúde
2026.01.30

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

ASSEMBLEIA REGIONAL ORDINÁRIA DA SECÇÃO REGIONAL DO NORTE

ASSEMBLEIA REGIONAL ORDINÁRIA

DA SECÇÃO REGIONAL DO NORTE


Link:
https://www.ordemenfermeiros.pt/norte/noticias/conteudos/arn-fevereiro-2026/

Transcrito do Site:

"No próximo dia 27 de Fevereiro de 2026, pelas 14h30, terá lugar a reunião ordinária da Assembleia Regional da Secção Regional do Norte, no Auditório da Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva sito na Rua de S. Paulo N.º 1 - 4700-042 Braga. Podem participar na Assembleia Regional, todos os membros da Secção Regional do Norte da Ordem dos Enfermeiros com inscrição ativa.

 

Os documentos a submeter à aprovação e discussão estarão disponíveis para consulta no site da Ordem dos Enfermeiros em www.ordemenfermeiros.pt a partir de 19 de Fevereiro e serão fornecidos aos membros efetivos que solicitem, na Sede da Secção Regional Norte da Ordem dos Enfermeiros – Rua Latino Coelho, 352 – 4000-314 Porto.

 

Consulte a convocatória aqui."


Humberto Domingues

Enf. Espec. Enfermagem Comunitária

Mestre em Sociologia da Saúde

2026.01.27



terça-feira, 27 de janeiro de 2026

A TEORIA DA CADEIRA

 A TEORIA DA CADEIRA

Este texto foi copiado de uma página do Facebook. Não é meu. Mas é tão interessante e tão verdadeiro, que o transcrevi. Página de Flávia Orlls Gouveia.

"Há um momento na vida em que deixamos de nos perguntar “o que há de errado comigo?”
e começamos a perguntar “porque continuo a tentar sentar-me onde nunca houve lugar para mim?”

A Teoria da Cadeira é simples e profundamente reveladora. Todos nós temos uma mesa na vida. Mas nem todas as mesas são para nós.

Há pessoas que, quando chegas, afastam uma cadeira sem dizer nada. Criam espaço. Olham-te nos olhos. A tua presença é natural, legítima, bem-vinda. Não precisas de provar valor, justificar quem és ou diminuir-te para caber.

E depois há as outras mesas. As que te deixam de pé. As que te fazem esperar. As que te testam constantemente para ver se “mereces” sentar-te. As que te fazem duvidar de ti.

E aqui está a verdade que custa aceitar: quando tens de pedir lugar repetidamente, o problema não és tu. É a mesa.

Insistir onde não há espaço desgasta, corrói a autoestima e cria relações desequilibradas. Não é ambição. É sobrevivência emocional.

Não lutes por cadeiras onde és tratado como um favor. Não permaneças onde a tua presença incomoda.

Vai para onde a tua presença conta. A tua cadeira existe. Só precisas de escolher a mesa certa.
#liderança #comunicação #mentoria"

Humberto Domingues
Enf. Espec. Enfermagem Comunitária
Mestre em Sociologia da Saúde
2025.01.26

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

ISTO SÃO ACTOS DE UMA SOCIEDADE EVOLUÍDA? ESTOU CHOCADO!

ISTO SÃO ACTOS DE UMA SOCIEDADE EVOLUÍDA? ESTOU CHOCADO!


E não é um choque leve, daqueles que passam com o tempo. É um choque que se entranha, que revolta, que nos faz questionar a própria essência do mundo em que vivemos. Estou zangado, profundamente zangado, por assistir, em pleno século XXI, a agressões desmedidas contra um ser humano, como se a vida tivesse perdido valor, como se a dignidade tivesse prazo de validade, como se a humanidade tivesse desaprendido a ser… humana.

Quando nos deparamos com episódios graves e aterradores, como os que vimos a semana passada nos ecrãs de televisão, onde cidadãos são tratados com brutalidade desmedida, alvejados a tiro em plena via pública, como se fossem descartáveis ou objectos, não podemos, não devemos, ficar indiferentes. A indiferença é o primeiro passo para a normalização desta barbárie. Barbárie que não é de hoje, mas hoje tem contornos assustadores, indignos para com o Ser Humano.

E então surge a pergunta inevitável, quase sufocante: Isto é uma sociedade evoluída? Ou será que caminhamos, silenciosamente, para uma sociedade retrógrada, onde o respeito pela vida é secundário, onde as diferenças são motivo de exclusão, e onde os valores humanos são apenas palavras bonitas em discursos vazios? Porque uma sociedade verdadeiramente evoluída não mata. Não humilha. Não reduz o outro a um alvo. Uma sociedade evoluída promove o diálogo, cultiva a empatia, protege o vulnerável, e encara cada vida como única e irrepetível. O contrário disso, a violência gratuita, a crueldade pública, o desprezo pela dignidade, é sinal de regressão, de falência ética, de perda coletiva de rumo. E a VIDA tem um valor supremo!

Assistir a estas agressões, como tantos milhões de Cidadãos, por esse mundo fora assistiram,  em pleno século XXI deveria envergonhar-nos a todos. Deveria despertar-nos. Deveria indignar-nos ao ponto de rompermos o silêncio confortável e exigirmos algo melhor, como uma justiça, justa, mais humanidade verdadeira e não cínica e mais responsabilidade. Porque enquanto continuarmos a ver seres humanos tratados como se fossem descartáveis, como alvos indefesos à custa de interesses materiais, não podemos, de forma alguma, chamar-nos uma sociedade evoluída.

Humberto Domingues
Enf. Espec. Enfermagem Comunitária
Mestre em Sociologia da Saúde
2026.01.26

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

O QUE RESTA DEPOIS DA PRIMEIRA VOLTA DAS ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS 2026?

 O QUE RESTA DEPOIS DA PRIMEIRA VOLTA DAS ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS 2026?

Para além das urnas o que é feito do destino das emoções confiadas pelos Cidadãos?


Terminou a primeira volta das Eleições Presidenciais de 2026. Vieram as análises, os números, os vencedores e os vencidos. Para uns, surpresa. Para outros, confirmação. Mas há algo que não cabe nas estatísticas nem nos comentários televisivos: o peso emocional que estas eleições deixaram no país. Porque não foram apenas votos que os candidatos receberam. Receberam “emoções cruas”.


Receberam o cansaço de quem já esperou demais, a revolta contida de quem se sente esquecido, a esperança frágil de quem ainda acredita que a Presidência da República pode ser mais do que uma figura, pode ser presença, voz, consciência e acção.

Este caudal emocional não é um mero subproduto da política, é o sintoma de uma profunda anomia social. Há a vertente Sociológica da Fractura. E a “revolta” expressa nas urnas é a manifestação da crise de representação que corrói as democracias ocidentais. Os cidadãos não votaram apenas em programas, mas contra o sentimento de abandono estrutural. O voto tornou-se um grito catártico contra a percepção de que as instituições se tornaram distantes, herméticas e incapazes de responder à velocidade e à gravidade das suas necessidades quotidianas. A abstenção, por sua vez, não é apatia, mas sim a expressão máxima do cepticismo e da descrença na eficácia do sistema político como ferramenta de transformação social.

Durante a campanha, os cidadãos não falaram de abstracções. Falaram de vidas reais. De salários que não chegam, de pensões insuficientes, de saúde que falha, de solidão, de medo do futuro. Falaram com verdade. Choraram. Abraçaram. Pediram. E confiaram.

A questão que agora se impõe é política, mas também profundamente humana. O que acontece às emoções que os candidatos “receberam”? Onde ficam as promessas feitas àqueles que, com dignidade e desespero, expuseram as suas dificuldades? Souberam os candidatos sentir verdadeiramente o que lhes foi confiado? Souberam compreender que cada aperto de mão carregava uma história e que cada abraço era, muitas vezes, um pedido silencioso de não abandono? Ou estas emoções serão arquivadas, esquecidas, substituídas por novas estratégias e novos discursos, num ciclo vicioso de esperança e desilusão?

A Presidência da República, neste contexto de fractura social, transcende a sua função constitucional de árbitro. É-lhe exigida uma função simbólica e curativa. O Presidente eleito não herda apenas um mandato político, herda uma dívida emocional para com o eleitorado. Esta dívida é o reconhecimento de que a política não pode ser gerida apenas por algoritmos e orçamentos, mas deve integrar a dimensão do sofrimento e da esperança popular.

A polarização afectiva que marcou esta primeira volta não se deu apenas entre ideologias, mas entre o "país institucional" e o "país real", aquele que não aparece nas sondagens, mas que bate à porta, que espera na fila, que resiste todos os dias. Hoje, muitos cidadãos vivem um luto eleitoral. Não apenas pelo resultado, mas pela dúvida. Pela incerteza de saber se a esperança que depositaram será honrada ou se foi apenas mais um momento de proximidade temporária, válido apenas enquanto durou a campanha.

As eleições continuam. A segunda volta aproxima-se. Mas que ninguém se esqueça: as emoções recebidas criam responsabilidade política inadiável. E a memória das pessoas é mais longa do que muitos pensam. A democracia não termina no voto. Começa, precisamente, no que se faz depois dele, na forma como o poder honra a confiança e a vulnerabilidade que lhe foram entregues. O futuro da nossa coesão social depende dessa resposta.

Humberto Domingues
Enf. Espec. Saúde Comunitária
Mestre em Sociologia da Saúde
2025.01.19

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

PORQUE NÃO VOTO DR. MARQUES MENDES PARA A PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA

PORQUE NÃO VOTO DR. MARQUES MENDES 

PARA A PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA

Fonte da fotografia: RDP Internacional


A rejeição ao Dr. Luís Marques Mendes numa eleição presidencial não resulta de um episódio isolado, de um reflexo emocional, de um estado d’alma, ou de um capricho eleitoral. É o resultado de uma avaliação política, atenta e amadurecida ao longo do tempo, sustentada num percurso público que acumulou sinais claros de parcialidade, complacência com o poder e falta de firmeza política, características incompatíveis no nosso ponto de vista, com a independência, a autoridade moral e a clareza exigidas ao Presidente da República.

Durante anos, Marques Mendes ocupou um espaço privilegiado como comentador político. Longe de se afirmar como uma voz isenta, equidistante e moderadora, consolidou antes a perceção de um discurso seletivo, marcado por leituras táticas, alinhamentos evidentes e juízos orientados. O comentário político transformou-se, demasiadas vezes, em intervenção e julgamento político, minando qualquer pretensão de neutralidade que hoje procura reivindicar, mas que, objectivamente, não tem/teve.


Um dos aspetos mais criticáveis do seu percurso foi a forma reiterada como desvalorizou e condenou as lutas e reivindicações dos Enfermeiros. Em momentos de legítima exigência por melhores condições de trabalho, dignidade profissional e defesa do Serviço Nacional de Saúde, Marques Mendes optou sistematicamente por um discurso que ecoou o incómodo do poder político e defesa deste. Essa postura revelou pouca empatia por uma classe essencial ao funcionamento do Serviço Nacional de Saúde e uma visão redutora dos direitos laborais, tratados como ruído mediático ou problema de agenda, sacrificando a defesa do equilíbrio social num claro discurso mais próximo da lógica da conveniência governativa. Um Presidente da República não pode olhar para o conflito social desta forma, ainda mais quando tal discurso levanta legítimas suspeitas de alinhamento com interesses que não são os dos cidadãos.

Também a sua postura face ao PSD e aos governos do PS liderados por António Costa levanta sérias e consistentes interrogações. Enquanto foi particularmente severo, por vezes quase obsessivo, na crítica ao seu próprio partido, contribuindo para o seu desgaste público, adoptou simultaneamente um tom notoriamente mais brando, quando não justificativo, em relação às opções, falhas e condicionamentos dos sucessivos governos Socialistas. Esta assimetria não foi episódica, foi persistente e politicamente reveladora, fragilizando qualquer pretensão de equidistância e comprometendo a função arbitral que se exige a um Chefe de Estado. E voltou a mudar o discurso quando percebeu que o consolado PS e António Costa estavam em degradação e perda, começando a alinhar-se com a Direita. Oportunismo político puro! Como afirmou Miguel Sousa Tavares, “Marques Mendes um conspirador profissional já há muitos anos, disfarçado de comentador”.

A estas reservas soma-se a percepção de uma figura profundamente integrada nos circuitos de influência, onde política, negócios e bastidores do poder se cruzam. Mesmo na ausência de acusações formais, a imagem de um facilitador de interesses, confortável nos equilíbrios do sistema, é suficiente para gerar desconfiança num eleitorado cada vez mais atento às exigências de ética, transparência e independência. A Presidência da República exige autonomia face ao poder, não proximidade conveniente.

Por fim, importa sublinhar a falta de firmeza e clareza em momentos decisivos, já em pré-campanha. Quando se exigia coragem política, Marques Mendes optou frequentemente por posições titubeantes, por um discurso dúbio ou pelo silêncio estratégico. No seu discurso, não assume o apoio e construção de reformas estruturais necessárias para o País. Um Presidente não pode ser refém de equilíbrios nem gestor de ambiguidades. Deve ser um garante inequívoco da Constituição, do regular funcionamento das instituições e do interesse nacional.

A recusa em votar Luís Marques Mendes é, por isso, profundamente política, e apenas política. Não se trata de negar o seu percurso ou a sua experiência, mas de reconhecer que o seu posicionamento público, ao longo de anos, o afastou das qualidades de independência, isenção, firmeza e autoridade moral que muitos portugueses continuam a exigir de um Presidente da República e que Portugal precisa.

Por todas estas razões, para nós, plausíveis, não voto Dr. Marques Mendes para a Presidência da República.

Humberto Domingues
Enf. Espec. Saúde Comunitária
Mestre em Sociologia da Saúde
2026.01.07

domingo, 4 de janeiro de 2026

A SOLIDÃO JOVEM - A "EPIDEMIA" SILENCIOSA QUE ESTAMOS A IGNORAR

A SOLIDÃO JOVEM - A "EPIDEMIA" SILENCIOSA QUE ESTAMOS A IGNORAR

Fonte da Foto: Health News

Durante décadas, associámos a solidão à velhice. Imaginámo-la sentada em bancos de jardim ou em casas vazias após a reforma. No entanto, os dados mais recentes, em vários estudos, mostram uma realidade desconcertante: hoje, são os adultos jovens (entre os 18 e os 35 anos) quem mais relata sentimentos persistentes de solidão. Uma epidemia silenciosa, invisível nas estatísticas tradicionais, mas profundamente sentida no quotidiano. A OMS considera a “Solidão prolongada” como um problema de Saúde Pública.


A solidão não é apenas “estar sozinho”. “É um sentimento subjectivo e doloroso de desconexão, isolamento ou ausência de contacto social significativo”, onde a falta de pertença pode estar presente. É a discrepância dolorosa entre as relações que desejamos e aquelas que efetivamente temos. Pode existir mesmo, rodeados de pessoas, em cidades cheias, em redes sociais saturadas de contactos. E é precisamente neste paradoxo, hiperconectados/hiperligados, mas emocionalmente isolados, que muitos jovens vivem.

As causas são estruturais e não individuais. A instabilidade laboral, os contratos precários, a mobilidade constante, a dificuldade em criar raízes, a cultura do desempenho permanente e a pressão para “ter sucesso”, cedo corroem o tempo e a energia necessários para construir relações profundas. A competição desmedida e desregrada para o “ter material” fútil e volátil. A isto soma-se um uso intensivo das tecnologias digitais que, embora facilitem contactos, muitas vezes substituem, em vez de complementar, vínculos reais e significativos. O estigma faz criar o resto da dificuldade em admitir que solidão continua a ser visto como fracasso pessoal.

Ignorar esta realidade tem custos elevados. A solidão está associada a maior risco de depressão, ansiedade e pensamento suicida, mas também a problemas físicos, como doenças cardiovasculares e inflamação crónica, por disfunção do sistema imunitário. Afecta o sono, aumenta comportamentos de risco e compromete competências socioemocionais essenciais para a vida adulta. Não é apenas um problema emocional, é um determinante de saúde pública, a que hoje se deve dar muita atenção.

Perante este cenário, a pergunta impõe-se: quem pode, e deve, agir? A resposta passa, inevitavelmente, pelos Cuidados de Saúde Primários (CSP), mas com intervenção real na Comunidade. A Enfermagem Comunitária pode dar um contributo muito grande nesta matéria, pelo papel que desempenha, pela sua proximidade às pessoas, pelo foco na prevenção e pelo conhecimento do território. O “Pensar em Comunidade” pode ser uma estratégia e um posicionamento no possibilitar e despertar para este facto e pela forma como lidamos com a solidão jovem.

Tudo poderá começar por algo simples, mas que pode ser o “clique”: perguntar, dialogar, incorporar esta atitude no “rastreio da solidão” nas consultas de rotina, tal como fazemos com outros indicadores de saúde. Poderão existir, ou então construir-se, instrumentos curtos e validados que permitam identificar situações de risco e abrir espaço para uma conversa que muitos jovens nunca tiveram oportunidade de ter. A “Saúde Escolar” poderá ser uma ferramenta muito útil.

Mas identificar não basta. É preciso intervir. No território de cada Autarquia Municipal, em parceria muito estreita com a Saúde/Enfermagem Comunitária e Saúde Pública, podem ajudar a identificar, diagnosticar e facilitar intervenções. Por um lado sensibilizando para esta realidade, por outro, intervindo proactivamente em espaços comunitários e pontos de encontro. A tecnologia pode ser uma aliada, desde que usada de forma ética e com um objetivo claro, de facilitar encontros reais e não substituí-los.

Nada disto funcionará sem formação adequada dos profissionais e sem a participação ativa dos próprios jovens. As soluções não podem ser desenhadas “para” eles, mas “com” eles. Co-criar actividades, ouvir necessidades reais e respeitar a diversidade cultural e social é condição para o sucesso. Do mesmo modo, é essencial articular saúde, educação, emprego, cultura e autarquias numa resposta intersectorial sustentada.

Tratar a solidão como uma questão privada é um erro. Ela é um problema coletivo, com raízes sociais e económicas, que exige políticas públicas claras. Integrar a solidão como variável padrão nas avaliações de bem-estar, investir em projetos-piloto nos cuidados primários e financiar redes comunitárias de suporte não é um luxo, é prevenção em saúde apoiando-se também nas dimensões da “Saúde Mental”, olhando-se sempre para a “Literacia Social”. Se queremos adultos jovens mais saudáveis, resilientes e envolvidos na vida coletiva, precisamos de começar por reconhecer aquilo que muitos sentem, mas poucos dizem. A solidão não é uma falha individual. É um sinal de que algo, enquanto Sociedade, precisa de ser reparado. E quanto mais cedo o fizermos, maior será o impacto, não só na saúde dos jovens, mas no futuro comum que todos partilhamos. É um caminho, por certo, longo, mas que não pode ter interrupções. Até porque o impacto destas medidas apresentam resultados a médio e longo prazo e como “não dão votos” no imediato, não se implementam e não se realizam, daí uma das dificuldades. Mas a Sociedade do futuro e para ter futuro, não pode ser uma Sociedade doente nem construída na/de solidão!

Humberto Domingues
Enf. Espec. Saúde Comunitária
Mestre em Sociologia da Saúde
2026.01.04

MOÇÃO APRESENTADA NA ASSEMBLEIA REGIONAL DA SECÇÃO DO NORTE DA ORDEM DOS ENFERMEIROS

MOÇÃO APRESENTADA NA ASSEMBLEIA REGIONAL  DA SECÇÃO DO NORTE DA ORDEM DOS ENFERMEIROS MOÇÃO DE CONGRATULAÇÃO   "Reconhecimento e Va...