No âmbito do Encontro de Enfermeiros Especialistas nos Açores - Especialistas que Lideram, Comunidades que se transformam, promivido pela Ordem dos Enfermeiros e Secção Regional na Ilha de S. Miguel, nos Açores, entre os dias 19 e 21 de Outubro, realizamos a presente "Comunicação" inderida na intervenção do Colégio de Enfermagem Comunitária, que teve lugar na Escola Superior de Saúde da Universidade dos Açores.
"LIDERANÇA, COMUNICAÇÃO E
CAPITAL COMUNITÁRIO EM SAÚDE
A vantagem estratégica da Enfermagem Comunitária
Na era da Inteligência Artificial
1. O DESAFIO DO NOSSO TEMPO
Vivemos um tempo em que a tecnologia avança a uma velocidade extraordinária, a Inteligência Artificial começa a transformar a prática clínica e os sistemas de saúde enfrentam desafios demográficos, epidemiológicos, sociais e financeiros cada vez mais exigentes.
Como nos alertou Edgar Morin, a complexidade dos
problemas contemporâneos exige novas formas de pensar. Continuamos, demasiadas
vezes, a procurar respostas simples para problemas que já não podem ser
compreendidos de forma fragmentada. E talvez a Saúde seja um dos melhores
exemplos desta realidade.
Durante décadas,
avaliámos a capacidade dos sistemas de saúde através dos seus recursos:
hospitais, camas, equipamentos, consultas, cirurgias e tempos de espera. São
indicadores importantes. Mas será que nos dizem tudo aquilo que precisamos de
saber sobre a capacidade de uma sociedade para produzir saúde?
A saúde de uma
população não se constrói apenas dentro das instituições de saúde. Constrói-se
também nas famílias, nas escolas, nos locais de trabalho, nas associações, nas
relações de vizinhança e nas condições em que as pessoas vivem.
Michael Marmot
demonstrou a importância dos determinantes sociais da saúde.
Robert Putnam
evidenciou o valor da confiança, da participação cívica e da cooperação para a
capacidade de uma comunidade enfrentar os seus desafios.
A mensagem é
clara: não basta termos serviços de saúde capazes de tratar a doença.
Precisamos de sociedades capazes de produzir saúde.
Esta constatação
leva-me a propor uma reflexão que considero particularmente relevante para o
futuro da Saúde Pública e da Enfermagem Comunitária.
2. CAPITAL
COMUNITÁRIO EM SAÚDE: UMA PROPOSTA PARA PENSAR O FUTURO
Pierre Bourdieu e James Coleman ajudaram-nos a compreender que as relações humanas, as redes sociais e a capacidade de cooperação constituem recursos com valor próprio.
Partindo desta
reflexão e da minha experiência e análise da Saúde Pública e da Enfermagem
Comunitária, proponho o conceito de Capital Comunitário em Saúde.
Entendo-o como o
conjunto de recursos humanos, sociais, relacionais, institucionais, culturais e
organizacionais de uma comunidade que, quando mobilizados, aumentam a sua
capacidade para produzir saúde, prevenir a doença, responder às crises e
reforçar a coesão social.
Importa perceber o que esta proposta significa.
Uma comunidade
pode dispor de instituições, profissionais qualificados, associações,
conhecimento e recursos financeiros e, ainda assim, não conseguir transformar
esse potencial em resultados colectivos. Porquê?
Porque os
recursos, por si só, não garantem cooperação. A existência de instituições não
assegura entendimento. E a proximidade entre pessoas e organizações não
significa, necessariamente, que trabalhem em conjunto.
É necessário criar
relações de confiança, estabelecer objectivos comuns e transformar conhecimento
em participação e acção.
É aqui que a liderança e a comunicação
assumem um papel decisivo: a liderança mobiliza; a comunicação
aproxima e cria entendimento; a participação transforma esse
entendimento em compromisso colectivo. É desta dinâmica
que pode nascer o Capital Comunitário em
Saúde. Não se compra. Não se decreta. Constrói-se através das relações, da
confiança e da capacidade de uma Comunidade
reconhecer os seus próprios recursos e colocá-los ao serviço de um objectivo
comum.
Esta é a ideia que
gostaria que levássemos connosco: uma
comunidade não é apenas um território onde vivem pessoas. É, ou pode tornar-se,
uma força activa na produção da sua própria saúde.
3. DUAS
INTELIGÊNCIAS, UM DESAFIO COMUM
É neste contexto
que devemos olhar para a Inteligência
Artificial.
Eric Topol
tem salientado o potencial da tecnologia para tornar os cuidados de saúde mais
precisos, eficientes e seguros, libertando tempo para aquilo que deve continuar
no centro da nossa intervenção: a relação humana e o cuidar das pessoas.
A Inteligência Artificial pode analisar grandes quantidades de informação, reconhecer padrões, apoiar decisões clínicas e contribuir para uma utilização mais eficiente dos recursos. Seria um erro ignorar estas possibilidades. Mas seria igualmente um erro acreditar que o progresso tecnológico resolve, por si só, os desafios sociais da Saúde.
- Um algoritmo pode identificar um risco. Não pode, por si só, criar a confiança necessária para que uma pessoa aceite mudar um comportamento;
- Uma plataforma pode facilitar a circulação de informação. Não garante que instituições diferentes compreendam o problema da mesma maneira ou assumam um compromisso comum;
- A tecnologia pode ampliar o nosso conhecimento. Não substitui a capacidade humana de estabelecer relações, mobilizar vontades e construir sentido de pertença.
Por isso, não
proponho uma oposição entre Inteligência
Artificial e inteligência humana. Proponho que reconheçamos uma segunda dimensão estratégica: a inteligência das comunidades.
De pouco
nos servirá dispor de sistemas tecnologicamente sofisticados se as comunidades
continuarem socialmente frágeis, isoladas ou afastadas das decisões que
influenciam a sua saúde.
A questão que se
coloca não é apenas saber até onde poderá chegar a Inteligência Artificial. É
também perceber até onde conseguiremos desenvolver a capacidade das nossas
comunidades para compreender problemas, participar nas respostas e produzir
saúde.
E é precisamente
aqui que a Enfermagem Comunitária
pode fazer a diferença.
4. LIDERANÇA E COMUNICAÇÃO: A VANTAGEM ESTRATÉGICA DA
ENFERMAGEM COMUNITÁRIA
O Enfermeiro Especialista em Enfermagem
Comunitária conhece o território, as pessoas, as famílias e os contextos em
que a saúde e a doença se desenvolvem. Mas a sua intervenção estratégica não se confina ou esgota no diagnóstico das
necessidades ou na prestação de cuidados. O seu valor distintivo está também na
capacidade de transformar conhecimento sobre a comunidade em capacidade de
acção da comunidade. É neste sentido que considero o Enfermeiro Especialista um verdadeiro arquitecto do Capital
Comunitário em Saúde.
Não porque
substitua os cidadãos ou decida por eles, mas porque pode ajudar a reconhecer
recursos, aproximar actores, mobilizar competências e criar condições para que diferentes vontades convirjam numa resposta
comum. Esta função exige liderança.
Mas não apenas a liderança que decorre de uma posição hierárquica. Exige a
capacidade de influenciar, envolver pessoas, criar compromisso e transformar
objectivos partilhados em acções concretas.
Peter Drucker
associava a liderança à capacidade de transformar uma visão em realidade. No
contexto comunitário, isso significa conseguir que pessoas e instituições
ultrapassem os limites da sua intervenção individual e contribuam para uma
finalidade colectiva. Contudo, há uma condição sem a qual esta liderança
dificilmente produzirá resultados: A
COMUNICAÇÃO.
E é neste ponto
que considero necessário ir mais longe na forma como entendemos a Comunicação em Saúde.
Comunicar não é
apenas transmitir informação. Não é apenas divulgar recomendações, apresentar
resultados ou explicar decisões já tomadas. Comunicar é criar
entendimento, aproximar diferentes saberes e tornar possível a construção de
respostas partilhadas.
Uma comunidade não
se mobiliza apenas porque recebe informação. Mobiliza-se quando compreende o
problema, reconhece a sua importância, confia nos intervenientes e percebe que
tem um lugar na solução. É esta
diferença que importa compreender.
Jürgen Habermas
valorizou a comunicação enquanto processo de construção de entendimento
entre os membros de uma sociedade. Esta perspectiva ajuda-nos a perceber que a
comunicação, em Saúde Pública, não pode ser reduzida a uma ferramenta de
transmissão de mensagens. É também uma condição para a participação, para a
confiança e para a construção de decisões com significado para as pessoas.
Por isso, a
comunicação não deve surgir apenas depois de uma decisão estar tomada. Deve
participar na própria construção dessa decisão. Uma comunicação que
informa pode esclarecer. Uma comunicação que cria entendimento pode mobilizar.
E uma comunicação que promove participação pode transformar a relação entre as
instituições e a comunidade.
Para a Enfermagem
Comunitária, esta não é uma competência acessória. É uma dimensão estratégica da liderança e da própria governança da Saúde.
É através desta capacidade de relacionar conhecimento, pessoas e
instituições que o Enfermeiro
Especialista pode contribuir para transformar recursos dispersos em Capital Comunitário em Saúde.
Não se trata de
fazer tudo, nem de assumir o lugar de todos. Trata-se de criar condições para
que cada actor compreenda o seu papel, reconheça o contributo dos outros e
participe numa resposta que nenhum, isoladamente, conseguiria construir.
É aqui que a liderança e a comunicação se encontram.
E é aqui que a Enfermagem Comunitária
pode afirmar uma vantagem estratégica que não depende apenas da
tecnologia ou dos recursos disponíveis, mas da sua capacidade de construir
relações e gerar acção colectiva.
5. O FUTURO: COMUNIDADES CAPAZES DE PRODUZIR SAÚDE
Se o século XX
ficou profundamente marcado pela construção e expansão dos grandes hospitais,
acredito que o século XXI terá de ser também o século da construção de
comunidades mais saudáveis, participativas e resilientes.
Não porque os
hospitais tenham perdido importância, mas porque tratar a doença, por si só,
nunca será suficiente para responder à complexidade dos desafios que
enfrentamos.
Precisamos de
continuar a investir nos serviços de saúde e, simultaneamente, de reforçar a
capacidade das comunidades para prevenir, cuidar, proteger os mais vulneráveis
e participar na construção do seu próprio futuro.
Isso exige uma
mudança de perspectiva na forma como pensamos
a organização e a governança da Saúde: passar de intervenções fragmentadas
para respostas integradas; do isolamento institucional para a cooperação; de
uma participação ocasional para o envolvimento continuado das comunidades.
Exige também que saibamos reconhecer e valorizar aquilo que não é imediatamente
visível nos indicadores tradicionais: a confiança, as relações, a capacidade de
cooperação e a participação efectiva dos cidadãos.
Talvez devamos
começar a colocar uma pergunta adicional quando avaliamos a capacidade de um
território para responder aos seus problemas de saúde: Que capacidade
tem esta comunidade para transformar os recursos de que dispõe em acção
colectiva e essa acção em mais saúde?
A resposta a esta
pergunta poderá ajudar-nos a compreender melhor o valor estratégico da Enfermagem Comunitária. Porque o seu
contributo não se limita à intervenção clínica ou à prevenção da doença.
Estende-se à capacidade de fortalecer relações, aproximar instituições,
promover participação e contribuir para comunidades mais preparadas para
enfrentar os desafios do presente e do futuro.
É esta a razão
pela qual considero que o Capital
Comunitário em Saúde merece ser pensado, desenvolvido e valorizado: porque
nos convida a olhar para a comunidade não apenas como destinatária dos
cuidados, mas como parte activa da solução.
E termino
regressando à ideia que atravessa toda esta reflexão.
A Inteligência Artificial representa um extraordinário avanço tecnológico. Mas
o progresso de uma sociedade não pode medir-se apenas pela sofisticação dos
seus instrumentos. Deve medir-se também pela sua capacidade de transformar conhecimento
em responsabilidade, relações em cooperação e participação em melhores
condições de vida.
A Enfermagem Comunitária tem condições
privilegiadas para contribuir para esse caminho, ligando a ciência às
pessoas, a liderança à participação e a comunicação à construção de confiança.
Talvez seja esse
um dos grandes desafios da nossa profissão: não apenas cuidar das pessoas, mas contribuir para que as comunidades
tenham cada vez maior capacidade de cuidar de si próprias, sem deixar ninguém
para trás.
Porque a
tecnologia pode ampliar a inteligência dos sistemas. Mas é a capacidade das
comunidades para comunicar, confiar, participar e agir em conjunto que pode
transformar essa inteligência em saúde colectiva.
É neste espaço,
onde a ciência encontra a cidadania
e a tecnologia possibilita o reencontro do
Humanismo, que a Enfermagem
Comunitária afirma o seu valor estratégico.






































