domingo, 25 de outubro de 2026

LIDERANÇA, COMUNICAÇÃO E CAPITAL COMUNITÁRIO EM SAÚDE

No âmbito do Encontro de Enfermeiros Especialistas nos Açores - Especialistas que Lideram, Comunidades que se transformam,  promivido pela Ordem dos Enfermeiros e Secção Regional na Ilha de S. Miguel, nos Açores, entre os dias 19 e 21 de Outubro, realizamos a presente "Comunicação" inderida na intervenção do Colégio de Enfermagem Comunitária, que teve lugar na Escola Superior de Saúde da Universidade dos Açores.


"LIDERANÇA, COMUNICAÇÃO E

CAPITAL COMUNITÁRIO EM SAÚDE

A vantagem estratégica da Enfermagem Comunitária

Na era da Inteligência Artificial



 

1. O DESAFIO DO NOSSO TEMPO

Vivemos um tempo em que a tecnologia avança a uma velocidade extraordinária, a Inteligência Artificial começa a transformar a prática clínica e os sistemas de saúde enfrentam desafios demográficos, epidemiológicos, sociais e financeiros cada vez mais exigentes.


Como nos alertou Edgar Morin, a complexidade dos problemas contemporâneos exige novas formas de pensar. Continuamos, demasiadas vezes, a procurar respostas simples para problemas que já não podem ser compreendidos de forma fragmentada. E talvez a Saúde seja um dos melhores exemplos desta realidade.

Durante décadas, avaliámos a capacidade dos sistemas de saúde através dos seus recursos: hospitais, camas, equipamentos, consultas, cirurgias e tempos de espera. São indicadores importantes. Mas será que nos dizem tudo aquilo que precisamos de saber sobre a capacidade de uma sociedade para produzir saúde?

A saúde de uma população não se constrói apenas dentro das instituições de saúde. Constrói-se também nas famílias, nas escolas, nos locais de trabalho, nas associações, nas relações de vizinhança e nas condições em que as pessoas vivem.

Michael Marmot demonstrou a importância dos determinantes sociais da saúde.

Robert Putnam evidenciou o valor da confiança, da participação cívica e da cooperação para a capacidade de uma comunidade enfrentar os seus desafios.

A mensagem é clara: não basta termos serviços de saúde capazes de tratar a doença. Precisamos de sociedades capazes de produzir saúde.

Esta constatação leva-me a propor uma reflexão que considero particularmente relevante para o futuro da Saúde Pública e da Enfermagem Comunitária.

2. CAPITAL COMUNITÁRIO EM SAÚDE: UMA PROPOSTA PARA PENSAR O FUTURO


Pierre Bourdieu e James Coleman ajudaram-nos a compreender que as relações humanas, as redes sociais e a capacidade de cooperação constituem recursos com valor próprio.

Partindo desta reflexão e da minha experiência e análise da Saúde Pública e da Enfermagem Comunitária, proponho o conceito de Capital Comunitário em Saúde.

Entendo-o como o conjunto de recursos humanos, sociais, relacionais, institucionais, culturais e organizacionais de uma comunidade que, quando mobilizados, aumentam a sua capacidade para produzir saúde, prevenir a doença, responder às crises e reforçar a coesão social.

Importa perceber o que esta proposta significa.

Uma comunidade pode dispor de instituições, profissionais qualificados, associações, conhecimento e recursos financeiros e, ainda assim, não conseguir transformar esse potencial em resultados colectivos. Porquê?

Porque os recursos, por si só, não garantem cooperação. A existência de instituições não assegura entendimento. E a proximidade entre pessoas e organizações não significa, necessariamente, que trabalhem em conjunto.

É necessário criar relações de confiança, estabelecer objectivos comuns e transformar conhecimento em participação e acção.

É aqui que a liderança e a comunicação assumem um papel decisivo: a liderança mobiliza; a comunicação aproxima e cria entendimento; a participação transforma esse entendimento em compromisso colectivo. É desta dinâmica que pode nascer o Capital Comunitário em Saúde. Não se compra. Não se decreta. Constrói-se através das relações, da confiança e da capacidade de uma Comunidade reconhecer os seus próprios recursos e colocá-los ao serviço de um objectivo comum.

Esta é a ideia que gostaria que levássemos connosco: uma comunidade não é apenas um território onde vivem pessoas. É, ou pode tornar-se, uma força activa na produção da sua própria saúde.

3. DUAS INTELIGÊNCIAS, UM DESAFIO COMUM

É neste contexto que devemos olhar para a Inteligência Artificial.

Eric Topol tem salientado o potencial da tecnologia para tornar os cuidados de saúde mais precisos, eficientes e seguros, libertando tempo para aquilo que deve continuar no centro da nossa intervenção: a relação humana e o cuidar das pessoas.

A Inteligência Artificial pode analisar grandes quantidades de informação, reconhecer padrões, apoiar decisões clínicas e contribuir para uma utilização mais eficiente dos recursos. Seria um erro ignorar estas possibilidades. Mas seria igualmente um erro acreditar que o progresso tecnológico resolve, por si só, os desafios sociais da Saúde.

  • Um algoritmo pode identificar um risco. Não pode, por si só, criar a confiança necessária para que uma pessoa aceite mudar um comportamento;
  • Uma plataforma pode facilitar a circulação de informação. Não garante que instituições diferentes compreendam o problema da mesma maneira ou assumam um compromisso comum;
  • A tecnologia pode ampliar o nosso conhecimento. Não substitui a capacidade humana de estabelecer relações, mobilizar vontades e construir sentido de pertença.

Por isso, não proponho uma oposição entre Inteligência Artificial e inteligência humana. Proponho que reconheçamos uma segunda dimensão estratégica: a inteligência das comunidades.

De pouco nos servirá dispor de sistemas tecnologicamente sofisticados se as comunidades continuarem socialmente frágeis, isoladas ou afastadas das decisões que influenciam a sua saúde.

A questão que se coloca não é apenas saber até onde poderá chegar a Inteligência Artificial. É também perceber até onde conseguiremos desenvolver a capacidade das nossas comunidades para compreender problemas, participar nas respostas e produzir saúde.

E é precisamente aqui que a Enfermagem Comunitária pode fazer a diferença.

4. LIDERANÇA E COMUNICAÇÃO: A VANTAGEM ESTRATÉGICA DA ENFERMAGEM COMUNITÁRIA

O Enfermeiro Especialista em Enfermagem Comunitária conhece o território, as pessoas, as famílias e os contextos em que a saúde e a doença se desenvolvem. Mas a sua intervenção estratégica não se confina ou esgota no diagnóstico das necessidades ou na prestação de cuidados. O seu valor distintivo está também na capacidade de transformar conhecimento sobre a comunidade em capacidade de acção da comunidade. É neste sentido que considero o Enfermeiro Especialista um verdadeiro arquitecto do Capital Comunitário em Saúde.

Não porque substitua os cidadãos ou decida por eles, mas porque pode ajudar a reconhecer recursos, aproximar actores, mobilizar competências e criar condições para que diferentes vontades convirjam numa resposta comum. Esta função exige liderança. Mas não apenas a liderança que decorre de uma posição hierárquica. Exige a capacidade de influenciar, envolver pessoas, criar compromisso e transformar objectivos partilhados em acções concretas.

Peter Drucker associava a liderança à capacidade de transformar uma visão em realidade. No contexto comunitário, isso significa conseguir que pessoas e instituições ultrapassem os limites da sua intervenção individual e contribuam para uma finalidade colectiva. Contudo, há uma condição sem a qual esta liderança dificilmente produzirá resultados: A COMUNICAÇÃO.

E é neste ponto que considero necessário ir mais longe na forma como entendemos a Comunicação em Saúde.

Comunicar não é apenas transmitir informação. Não é apenas divulgar recomendações, apresentar resultados ou explicar decisões já tomadas. Comunicar é criar entendimento, aproximar diferentes saberes e tornar possível a construção de respostas partilhadas.

Uma comunidade não se mobiliza apenas porque recebe informação. Mobiliza-se quando compreende o problema, reconhece a sua importância, confia nos intervenientes e percebe que tem um lugar na solução. É esta diferença que importa compreender.

Jürgen Habermas valorizou a comunicação enquanto processo de construção de entendimento entre os membros de uma sociedade. Esta perspectiva ajuda-nos a perceber que a comunicação, em Saúde Pública, não pode ser reduzida a uma ferramenta de transmissão de mensagens. É também uma condição para a participação, para a confiança e para a construção de decisões com significado para as pessoas.

Por isso, a comunicação não deve surgir apenas depois de uma decisão estar tomada. Deve participar na própria construção dessa decisão. Uma comunicação que informa pode esclarecer. Uma comunicação que cria entendimento pode mobilizar. E uma comunicação que promove participação pode transformar a relação entre as instituições e a comunidade.

Para a Enfermagem Comunitária, esta não é uma competência acessória. É uma dimensão estratégica da liderança e da própria governança da Saúde. É através desta capacidade de relacionar conhecimento, pessoas e instituições que o Enfermeiro Especialista pode contribuir para transformar recursos dispersos em Capital Comunitário em Saúde.

Não se trata de fazer tudo, nem de assumir o lugar de todos. Trata-se de criar condições para que cada actor compreenda o seu papel, reconheça o contributo dos outros e participe numa resposta que nenhum, isoladamente, conseguiria construir.

É aqui que a liderança e a comunicação se encontram. E é aqui que a Enfermagem Comunitária pode afirmar uma vantagem estratégica que não depende apenas da tecnologia ou dos recursos disponíveis, mas da sua capacidade de construir relações e gerar acção colectiva.

5. O FUTURO: COMUNIDADES CAPAZES DE PRODUZIR SAÚDE

Se o século XX ficou profundamente marcado pela construção e expansão dos grandes hospitais, acredito que o século XXI terá de ser também o século da construção de comunidades mais saudáveis, participativas e resilientes.

Não porque os hospitais tenham perdido importância, mas porque tratar a doença, por si só, nunca será suficiente para responder à complexidade dos desafios que enfrentamos.

Precisamos de continuar a investir nos serviços de saúde e, simultaneamente, de reforçar a capacidade das comunidades para prevenir, cuidar, proteger os mais vulneráveis e participar na construção do seu próprio futuro.

Isso exige uma mudança de perspectiva na forma como pensamos a organização e a governança da Saúde: passar de intervenções fragmentadas para respostas integradas; do isolamento institucional para a cooperação; de uma participação ocasional para o envolvimento continuado das comunidades. Exige também que saibamos reconhecer e valorizar aquilo que não é imediatamente visível nos indicadores tradicionais: a confiança, as relações, a capacidade de cooperação e a participação efectiva dos cidadãos.

Talvez devamos começar a colocar uma pergunta adicional quando avaliamos a capacidade de um território para responder aos seus problemas de saúde: Que capacidade tem esta comunidade para transformar os recursos de que dispõe em acção colectiva e essa acção em mais saúde?

A resposta a esta pergunta poderá ajudar-nos a compreender melhor o valor estratégico da Enfermagem Comunitária. Porque o seu contributo não se limita à intervenção clínica ou à prevenção da doença. Estende-se à capacidade de fortalecer relações, aproximar instituições, promover participação e contribuir para comunidades mais preparadas para enfrentar os desafios do presente e do futuro.

É esta a razão pela qual considero que o Capital Comunitário em Saúde merece ser pensado, desenvolvido e valorizado: porque nos convida a olhar para a comunidade não apenas como destinatária dos cuidados, mas como parte activa da solução.

E termino regressando à ideia que atravessa toda esta reflexão.

A Inteligência Artificial representa um extraordinário avanço tecnológico. Mas o progresso de uma sociedade não pode medir-se apenas pela sofisticação dos seus instrumentos. Deve medir-se também pela sua capacidade de transformar conhecimento em responsabilidade, relações em cooperação e participação em melhores condições de vida.

A Enfermagem Comunitária tem condições privilegiadas para contribuir para esse caminho, ligando a ciência às pessoas, a liderança à participação e a comunicação à construção de confiança.

Talvez seja esse um dos grandes desafios da nossa profissão: não apenas cuidar das pessoas, mas contribuir para que as comunidades tenham cada vez maior capacidade de cuidar de si próprias, sem deixar ninguém para trás.

Porque a tecnologia pode ampliar a inteligência dos sistemas. Mas é a capacidade das comunidades para comunicar, confiar, participar e agir em conjunto que pode transformar essa inteligência em saúde colectiva.

É neste espaço, onde a ciência encontra a cidadania e a tecnologia possibilita o reencontro do Humanismo, que a Enfermagem Comunitária afirma o seu valor estratégico.

Muito obrigado. 2026.10.16"

Humberto Domingues
Enf. Espec.Saúde Comunitária
Mestre em Sociologia da Saúde
2026.10.25

O Autor escreve de acordo com o Antigo ACordo Ortográfico

sexta-feira, 23 de outubro de 2026

ENCONTRO DE ENFERMEIROS ESPECIALISTAS NOS AÇORES

ENCONTRO DE ENFERMEIROS ESPECIALISTAS NOS AÇORES
“Especialistas que Lideram, Comunidades que Se Transformam”



Teve lugar entre os dias 19 a 21 de Outubro, o Encontro de Enfermeiros Especialistas dos Açores em que de forma muito oportuna assumiu o tema “Especialistas que Lideram, Comunidades que Se Transformam”.



Em representação da Mesa do Colégio da Especialidade de Enfermagem Comunitária esteve a Enfa. Susana Santos, e da Comissão de Apoio Técnico Especializada deste mesmo Colégio, a Enfa. Sofia Cordeiro e o Enf. Humberto Domingues - Enfermeiros Especialistas em Enfermagem Comunitária, participando como palestrantes numa conferência na Escola Superior de Saúde da Universidade dos Açores, durante a manhã e de tarde visitando a Unidade de Saúde Pública e o Centro de Saúde de Ponta Delgada, onde nos foi apresentado o Projecto Piloto de Implementação do Enfermeiro de Família e a actividade da Equipa de Saúde Escolar. De referir e realçar que a implementação do Enfermeiro de Família está suportada em legislação própria, publicada pelo Governo Regional, o que louvamos.


Neste encontro, “Especialistas que Lideram, Comunidades que Se Transformam”, todos os outros Colégios de Especialistas desenvolveram actividades ao longo destes dias de intenso trabalho, onde podemos contactar e constatar no terreno, o importante trabalho dos Enfermeiros, que desenvolvem no dia-a-dia na Região Autónoma dos Açores.


Uma palavra de felicitação à Ordem dos Enfermeiros e Digníssimo Bastonário, Enf. Luís Filipe Barreira, e que nos Açores foi representada e liderada pela Sra. Vice-Presidente Enfa. Ana Fonseca e ao anfitrião, Presidente da Secção Regional dos Açores, Enf. Pedro Soares, que foram inexcedíveis no trabalho de representação, abertura das mesas temáticas, visita aos locais e unidades de saúde, contacto com os Enfermeiros e com a Comunicação Social.


Dar relevo também ao empenho do Conselho Directivo Nacional e da Secção Regional dos Açores da Ordem dos Enfermeiros, nas pessoas da Sra. Vice-Presidente, Enfa Ana Fonseca e do Sr. Presidente Regional, Enf. Pedro Soares, respectivamente, que acompanharam os trabalhos ao longo de inúmeras horas.


Um obrigado pela forma como fomos recebidos, acompanhados e apresentados ao longo destes dias e conhecer a realidade dos Açores no âmbito da Saúde.


Parabéns pela iniciativa e trabalho desenvolvido.

Humberto Domingues
Enf. Especialista ENfermagem Comunitária e Saúde Pública e Saúde Familiar
Mestre em Sociologia da Saúde
2026.10.23

O Autor escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

A SAÚDE QUE NÃO CABE NUM ALGORITMO

 A SAÚDE QUE NÃO CABE NUM ALGORITMO

Quando a tecnologia se torna inteligente, precisamos de comunidades capazes de produzir saúde

Fonte imagem: phoenixNAP


Vivemos uma transformação que ultrapassa largamente a dimensão tecnológica. A Inteligência Artificial está a alterar a forma como trabalhamos, aprendemos, comunicamos e tomamos decisões e, inevitavelmente, está a transformar também a Saúde. Algoritmos capazes de analisar milhões de dados, antecipar riscos e apoiar decisões prometem sistemas mais rápidos, eficientes e inteligentes.


Mas talvez a questão mais importante não seja saber até onde poderá chegar a inteligência das máquinas. Será saber o que acontecerá à inteligência colectiva das Sociedades e à sua capacidade para cuidar, participar e produzir saúde?

Esta interrogação ganha particular relevância num tempo marcado pelo aumento da longevidade, pela doença crónica, pelas desigualdades sociais, pelo isolamento e pela solidão. São fenómenos que não se resolvem apenas com tecnologia, porque a saúde não acontece exclusivamente dentro dos serviços de saúde. Produz-se nos lugares onde as pessoas vivem, trabalham, aprendem, envelhecem e estabelecem relações.

A evidência há muito demonstra que as condições sociais, económicas e relacionais influenciam profundamente a saúde. Edgar Morin recorda-nos que a complexidade exige uma visão capaz de ultrapassar respostas fragmentadas. Michael Marmot demonstrou a importância dos determinantes sociais da saúde. A Carta de Ottawa colocou a capacitação das pessoas e das comunidades no centro da promoção da saúde. E Robert Putnam evidenciou a importância das redes de confiança, reciprocidade e participação para a vitalidade das sociedades.

É neste cruzamento que proponho pensar o Capital Comunitário em Saúde. Entendo-o como o património colectivo que uma comunidade constrói através da confiança entre pessoas e instituições, da participação, da literacia em saúde, da cooperação e da capacidade de mobilizar os recursos existentes no território. Não é um recurso meramente económico, nem uma abstracção sociológica. É uma capacidade concreta de uma comunidade para compreender os seus problemas, organizar-se, cooperar e agir sobre os factores que condicionam a sua saúde.

Uma comunidade com elevado Capital Comunitário não é apenas uma comunidade onde existem serviços de saúde. É uma comunidade onde as pessoas confiam, participam, colaboram e reconhecem que também possuem capacidade para intervir na construção do seu próprio bem-estar. É aqui que a Enfermagem Comunitária adquire uma relevância que será, a meu ver, ainda maior no futuro.

A Inteligência Artificial poderá substituir ou simplificar inúmeras tarefas, aumentar a capacidade de análise e apoiar decisões. Poderá tornar os sistemas de saúde mais inteligentes. Mas não substitui a relação humana, a confiança, o vínculo, a reciprocidade ou a capacidade de reunir pessoas diferentes em torno de um propósito comum.

O Enfermeiro Especialista em Enfermagem Comunitária possui precisamente essa capacidade de aproximação entre o conhecimento e o território, entre os serviços e as pessoas, entre as instituições e a comunidade. Conhece as necessidades, identifica recursos, estabelece pontes, mobiliza parceiros e promove a participação. Mais do que responder a problemas, pode contribuir para deixar uma comunidade mais capaz depois de cada intervenção. É esta dimensão que importa reconhecer.

Num tempo em que se fala tanto de inovação, continuamos frequentemente a associá-la a equipamentos, plataformas, algoritmos e tecnologias. Contudo, existe uma outra forma de inovação, menos visível e talvez mais profunda. A capacidade de criar confiança onde existe distância, cooperação onde existe fragmentação, participação onde existe passividade e responsabilidade colectiva onde prevalece a ideia de que a saúde é apenas responsabilidade dos serviços.

Fortalecer o Capital Comunitário em Saúde significa, por isso, investir numa forma diferente de produzir valor. Valor para as pessoas, porque aumenta a sua capacidade de compreender e agir. Valor para as comunidades, porque reforça a coesão social e afectiva. E valor para o próprio sistema de saúde, porque comunidades mais informadas, participativas e resilientes estão melhor preparadas para prevenir problemas, enfrentar adversidades e utilizar de forma mais adequada os recursos disponíveis.

A questão não é escolher entre tecnologia e comunidade. Essa seria uma falsa dicotomia. A questão é saber colocar a tecnologia ao serviço das pessoas e utilizar a sua capacidade para libertar tempo, melhorar decisões e ampliar possibilidades, sem perder aquilo que torna a Saúde profundamente humana.

Quanto mais inteligentes forem os sistemas, maior será a necessidade de profissionais capazes de transformar informação em conhecimento, conhecimento em participação e participação em acção colectiva. Talvez seja esse um dos grandes desafios da Saúde no século XXI. Não construir apenas sistemas de saúde mais inteligentes, mas comunidades mais capazes de produzir saúde.

Porque o futuro não será feito apenas por aquilo que a tecnologia conseguir fazer por nós. Será também determinado por aquilo que continuarmos a conseguir fazer uns pelos outros.

Humberto Domingues
Enf. Espec. Enfermagem Comunitária e Saúde Pública
Mestre em Sociologia da Saúde
2026.09.15
Texto com base na Comunicação Livre feita no Congresso Internacional de Enfermagem Comunitária em Chaves

O Autor escreve de conforme o antigo acordo ortográfico

terça-feira, 15 de setembro de 2026

COMUNICAÇÃO LIVRE - II CONGRESSO INTERNACIONAL

 COMUNICAÇÃO LIVRE - II CONGRESSO INTERNACIONAL 

ENFERMAGEM COMUNITÁRIA

Chaves 11 e 12 de Setembro 2026

Fonte do cartaz: OE

No Congresso referido no título, promovido pelo Colégio de Enfermagem Comunitária, tive a oportunidade de fazer uma Comunicação Oral - no vasto programa de Comunicações Livres deste congresso que se realizou na Escola Superior de Saúde do Alto Tâmega - Chaves, que a seguir transcrevo:


"Capital Comunitário em Saúde
A vantagem estratégica da Enfermagem Comunitária
Na era da Inteligência Artificial

INTRODUÇÃO

Vivemos uma das maiores transformações da história contemporânea. A Inteligência Artificial está a alterar profundamente a forma como trabalhamos, comunicamos, aprendemos e tomamos decisões. Também a saúde entra nesta nova era, com sistemas mais inteligentes, maior capacidade de análise de dados e novas possibilidades de apoio à decisão clínica.

Perante esta realidade, surge uma questão incontornável: Qual será o lugar da Enfermagem Comunitária num mundo em que a tecnologia assume um papel cada vez mais relevante?

A minha convicção é clara. A Inteligência Artificial não diminui a importância da Enfermagem Comunitária. Pelo contrário, torna mais evidente aquilo que constitui a sua maior vantagem estratégica. Quanto mais evoluírem as tecnologias, maior será a necessidade de profissionais capazes de mobilizar pessoas, fortalecer comunidades, promover participação e transformar conhecimento em ganhos efectivos em saúde.

É nesta perspectiva que proponho uma reflexão assente em quatro fundamentos.

PRIMEIRO FUNDAMENTO
Uma mudança civilizacional, não apenas tecnológica

Costumamos falar da Inteligência Artificial como uma inovação tecnológica. Creio, porém, que esta visão é insuficiente. Estamos perante uma verdadeira mudança civilizacional, comparável a outras grandes transformações que alteraram profundamente a organização das sociedades.

Na saúde, esta mudança ocorre num contexto particularmente exigente. Vivemos mais anos, coexistimos com doenças crónicas, enfrentamos isolamento social, desigualdades crescentes e uma pressão cada vez maior sobre os sistemas de saúde.

Estes desafios não se resolvem apenas com mais tecnologia. Exigem proximidade, organização e participação das comunidades.

Como nos recorda Edgar Morin, a complexidade não pode ser compreendida através de respostas fragmentadas. E Michael Marmot demonstrou que a saúde depende, em larga medida, das condições em que as pessoas vivem, trabalham, aprendem e envelhecem.

A Inteligência Artificial poderá tornar os sistemas de saúde mais eficientes, disponibilizando melhores dados e apoiando decisões mais rápidas e precisas. Mas a tecnologia, por si só, não reduz desigualdades, não combate a solidão, não cria confiança entre instituições e cidadãos, nem fortalece a capacidade das comunidades para cuidar de si próprias. É precisamente aqui que emerge o espaço estratégico da Enfermagem Comunitária.

O seu valor não reside apenas na prestação de cuidados. Reside também na capacidade de conhecer os territórios, identificar necessidades, mobilizar recursos, estabelecer parcerias e construir respostas com as pessoas e para as pessoas.

SEGUNDO FUNDAMENTO
A Inteligência Artificial transforma o trabalho. Não substitui o cuidado.

A Inteligência Artificial veio para ficar. Os algoritmos apoiarão o diagnóstico, anteciparão riscos, analisarão grandes volumes de informação e tornarão muitos processos mais rápidos e seguros.

Esta transformação poderá libertar os profissionais de parte das tarefas administrativas e permitir maior disponibilidade para aquilo que nenhuma tecnologia consegue realizar da mesma forma: cuidar das pessoas.

Na Enfermagem Comunitária, esse cuidado ultrapassa o episódio individual. Implica compreender a realidade social das comunidades, estabelecer relações de confiança, promover a participação dos cidadãos e construir respostas ajustadas às necessidades de cada território.

A Inteligência Artificial pode apoiar decisões, disponibilizar informação e identificar padrões, mas não substitui a confiança, o compromisso colectivo nem a capacidade de mobilizar uma comunidade em torno da promoção da saúde. E quanto mais inteligentes forem os sistemas, mais importante será a capacidade dos Enfermeiros para transformar as Comunidades.

É aqui que a Enfermagem Comunitária reforça a sua relevância estratégica.

TERCEIRO FUNDAMENTO
O Capital Comunitário em Saúde: uma proposta para pensar o futuro

É neste contexto que proponho o conceito de Capital Comunitário em Saúde. Esta proposta conceptual inspira-se nos contributos de Robert Putnam, Michael Marmot, Aaron Antonovsky e da Carta de Ottawa para a Promoção da Saúde, articulando inovação tecnológica, determinantes sociais da saúde e intervenção comunitária. O conceito parte de uma ideia simples, mas com profundas implicações: a saúde não se produz apenas nos serviços de saúde, produz-se também na capacidade das comunidades para gerar confiança, promover participação, fortalecer redes de colaboração e mobilizar os recursos existentes nos territórios, transformando-os em capacidade colectiva para “produzir Saúde”.

Enquanto a tecnologia aumenta a eficiência e a capacidade dos sistemas, a Enfermagem Comunitária fortalece a capacidade das comunidades para além de produzir saúde, gerar coesão social e afectiva e assumir maior responsabilidade pelo seu desenvolvimento e bem-estar.

Este capital constrói-se através da confiança entre cidadãos e instituições, da participação das pessoas, da literacia em saúde, da cooperação entre organizações e da mobilização dos recursos existentes em cada território. Quanto mais desenvolvido for esse capital, maior será a capacidade da comunidade para prevenir a doença, reduzir desigualdades, enfrentar desafios colectivos e promover bem-estar. É precisamente aqui que, em meu entender, reside a maior vantagem estratégica da Enfermagem Comunitária.

O Enfermeiro Especialista em Enfermagem Comunitária não se limita a prestar cuidados. Mobiliza pessoas e instituições, desenvolve projectos e capacita as comunidades para assumirem um papel activo na promoção da sua própria saúde. Cada intervenção pode, assim, deixar um legado que ultrapassa o episódio de cuidados. Comunidades mais informadas, mais participativas, mais resilientes e mais corresponsáveis pela construção da sua saúde. É este legado que designo por Capital Comunitário em Saúde.

QUARTO FUNDAMENTO
Liderar o futuro da saúde começa nas comunidades

Durante muito tempo, a inovação foi entendida sobretudo como a introdução de novas tecnologias ou equipamentos. Hoje, precisamos de uma visão mais ampla.

A verdadeira inovação em saúde depende também da capacidade de mobilizar pessoas, criar redes de colaboração e desenvolver comunidades mais participativas e capazes de agir sobre os determinantes da sua própria saúde.

Ao fortalecer o Capital Comunitário em Saúde, a Enfermagem Comunitária não presta apenas cuidados, Gera valor. Gera valor para as pessoas, para as comunidades e para a sustentabilidade do próprio sistema de saúde. É aqui que a Enfermagem Comunitária poderá assumir um papel verdadeiramente estratégico ao transformar essa informação em conhecimento, o conhecimento em participação e a participação em ganhos efectivos em saúde.

EM CONCLUSÃO

A Inteligência Artificial transformará profundamente a forma como organizamos e prestamos cuidados de saúde.

Contudo, o futuro da saúde não será determinado apenas pela evolução tecnológica. Será determinado também pela nossa capacidade de fortalecer as comunidades onde as pessoas vivem.

Enquanto a tecnologia aumenta a inteligência dos sistemas, os Enfermeiros Especialistas em Enfermagem Comunitária fortalecem aquilo que constitui um dos verdadeiros alicerces da saúde: comunidades mais informadas, mais participativas, mais resilientes e mais capazes de cuidar de si próprias.

Se conseguirmos reforçar este capital, estaremos não apenas a responder melhor aos problemas de saúde. Estaremos a construir comunidades mais preparadas para os prevenir e enfrentar.

Permitam-me terminar com uma convicção que sintetiza toda esta reflexão:

No século XXI, a grande inovação em saúde não será apenas desenvolver sistemas de saúde mais inteligentes.

Será construir comunidades mais inteligentes na forma como produzem saúde.

E esse continuará a ser um dos maiores contributos estratégicos da Enfermagem Comunitária.

Humberto Domingues
Enf. Especialista Enfermagem Comunitária
Mestre em Sociologia da Saúde
Chaves, 2026.09.11 - 17H00"

domingo, 13 de setembro de 2026

II Congresso Internacional de Enfermagem Comunitária: Liderança, Proximidade e Valor em Enfermagem Comunitária

II Congresso Internacional de Enfermagem Comunitária:
Liderança, Proximidade e Valor em Enfermagem Comunitária
Escola Superior de Saúde da Cruz Vermelha Portuguesa – Alto Tâmega
Chaves 11 e 12 Setembro


Há acontecimentos que terminam. E há acontecimentos que permanecem.


O II Congresso Internacional de Enfermagem Comunitária: Liderança, Proximidade e Valor em Enfermagem Comunitária, que se realizou na Escola Superior de Saúde da Cruz Vermelha Portuguesa – Alto Tâmega, em Chaves, é um desses momentos que permanecem.


Permanece a alegria de ter participado na sua organização. Permanece a honra do acolhimento, pela Direcção e Professores, na Escola Superior de Saúde da Cruz Vermelha do Alto Tâmega. E permanece, sobretudo, a profunda satisfação de ter testemunhado a qualidade das intervenções, a consistência da investigação e a vitalidade de uma Enfermagem Comunitária (nas suas dimensões Comunitária, Saúde Pública e Familiar), que continua a pensar, a questionar e a construir conhecimento ao serviço das Pessoas, das Famílias e das Comunidades.


Foi também um privilégio partilhar este caminho com tantos profissionais, investigadores, docentes, estudantes e colegas que, através do seu trabalho, demonstram que a Enfermagem Comunitária tem presente no trabalho desenvolvido, tem pensamento científico e crítico e, tem futuro na organização, gestão e avaliação da Saúde, seja em que sistema ou Serviço de Saúde fôr.


Teve a particularidade este Congresso de se realizar numa data (12 de Setembro) em que se comemora o Dia Nacional do Enfermeiro Especialista em Enfermagem Comunitária e Saúde Pública.



Uma palavra especial de reconhecimento ao Digníssimo Bastonário da Ordem dos Enfermeiros, Enf. Luís Filipe Barreira e Conselho Directivo e ao Presidente do Colégio de Enfermagem Comunitária, Enf. José Hermínio Gomes e Mesa do Colégio, pela dedicação, presença e compromisso firme, com a valorização científica, profissional e social da nossa área de especialidade.

A todos os que ofereceram tempo, conhecimento, trabalho e coração a este Congresso, o meu sincero agradecimento. Poderia referir alguns Colegas, mas estaria a ser injusto ao não citar tantos outros, numa lista infindável e longa.


Também a componente cultural e social, numa oferta e parceria da Câmara Municipal tiveram uma qualidade ímpar, numa visita às "Termas Romanas", visita ao Arquivo Municipal e Museu, da Cidade de Chaves. Momentos muito bons, de partilha, convívio e de se perceber o que os "Romanos" do Séc. III, fizeram em termos de engenharia e arquitectura, para usufruir das águas termais e defender a Cidade.
 



Saí de Chaves com gratidão no coração e orgulho renovado na Enfermagem Comunitária. Porque quando o conhecimento se encontra com o compromisso e quando profissionais se unem em torno das Pessoas e das Comunidades, não estamos apenas a fazer um Congresso. Estamos a construir futuro, a gerar valor e a afirmar a Enfermagem Comunitária como um recurso estratégico para as Comunidades, para a Saúde e para o País.


Humberto Domingues
Enf. Espec. Enfermagem Comunitária
Mestre em Sociologia da Saúde
2026.0913

O Autor escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

QUANTO CUSTA TRABALHAR?

QUANTO CUSTA TRABALHAR?

Fonte da Imagem: Elaboração própria com apoio IA

Há momentos em que uma Sociedade precisa de parar, respirar e olhar para além dos números.

A Europa atravessa um período particularmente exigente. A guerra entre a Rússia e a Ucrânia e a instabilidade no Médio Oriente introduzem novas perturbações num mercado energético fragilizado. A pressão sobre o petróleo e os produtos refinados chega à energia, aos transportes e, inevitavelmente, ao orçamento das Famílias. Mas existe uma pergunta que raramente fazemos quando discutimos estes fenómenos em termos macroeconómicos: quanto custa trabalhar?

Para milhares de portugueses, deslocar-se diariamente para o trabalho implica utilizar um automóvel. Não por conforto ou estatuto, mas porque, em muitas zonas do país, o transporte público não oferece uma alternativa compatível com os horários de trabalho. O automóvel torna-se parte da infraestrutura necessária para trabalhar. Quando o combustível aumenta, aumenta também o preço de acesso ao emprego.

Importa compreender que o preço do gasóleo não acompanha mecanicamente o petróleo bruto. O mercado dos produtos refinados tem dinâmica própria e pode sofrer maior pressão quando a oferta é apertada e existem dificuldades no abastecimento.

A questão verdadeiramente importante está, contudo, dentro das casas. Segundo o Instituto Nacional de Estatística, os agregados familiares residentes em Portugal gastavam, em média, 23.900 euros por ano em 2022/2023. Cerca de 64% dessa despesa concentrava-se em habitação, alimentação e transportes: 39,3% em habitação, 12,9% em alimentação e 12,1% em transportes.

Quando o rendimento é limitado e as despesas essenciais aumentam, o dinheiro tem de sair de algum lado. Primeiro corta-se no dispensável, depois surgem escolhas mais difíceis, alimentos mais baratos, menor variedade alimentar, uma reparação ou despesa de saúde adiada. Finalmente, deixa de existir capacidade para poupar. Quando uma Família perde capacidade financeira, não perde apenas poder de compra. Perde margem de escolha.

Imagine-se um trabalhador que percorre diariamente 50 ou 60 quilómetros para chegar ao emprego. Ao fim do mês, parte do salário foi consumida simplesmente para poder estar presente no local onde o recebe. Há uma diferença profunda entre gastar dinheiro para viver e gastar dinheiro para poder trabalhar. Quanto menor o rendimento, maior o peso relativo dessa despesa. É aqui que a energia deixa de ser apenas uma questão económica e passa a ser uma questão de justiça social.

Na alimentação, não basta perguntar se as pessoas continuam a comer. É necessário perguntar o que comem? A qualidade nutricional pode deteriorar-se muito antes de surgir privação alimentar evidente, quando produtos frescos ou nutricionalmente mais completos são substituídos por alternativas mais baratas. As escolhas individuais são condicionadas pelas possibilidades económicas. É aqui que a economia doméstica encontra a saúde pública.

O stress financeiro persistente, a insegurança económica, a pior qualidade alimentar, a menor capacidade para recorrer atempadamente aos cuidados de saúde e a ausência de uma reserva perante uma doença ou despesa inesperada afectam o bem-estar individual e familiar. A saúde não começa no hospital. Começa também na capacidade de pagar a casa, alimentar-se adequadamente, deslocar-se para o trabalho, descansar e enfrentar um imprevisto sem entrar em ruptura.

Por isso, discutir combustíveis não pode ser apenas uma disputa fiscal. É uma questão de resiliência social. Para muitas Famílias, poupar não significa acumular riqueza. Significa adquirir uma pequena parcela de segurança. E essa capacidade é socialmente desigual. Não se pode exigir o mesmo a quem termina o mês com 300 euros disponíveis e a quem dispõe de vários milhares depois de pagar todas as despesas. Daí a necessidade de uma reflexão política sobre mobilidade, transportes públicos, energia, salários, fiscalidade, organização territorial e acesso aos serviços públicos. Portugal não pode pedir às Famílias que reduzam o uso do automóvel sem lhes oferecer alternativas funcionais. Não pode pedir maior poupança sem discutir o rendimento disponível. Não pode defender melhores escolhas alimentares ignorando o seu preço.

A conjuntura internacional não está inteiramente sob o nosso controlo. Portugal não determina o preço mundial do petróleo nem decide a duração das guerras. Mas existem decisões nacionais e europeias que determinam quanto dessa turbulência chega, finalmente, à mesa das Famílias.

Por detrás de cada aumento do gasóleo existe uma pessoa que tem de chegar ao trabalho. Por detrás de cada aumento dos alimentos existe uma Família que decide o que leva para casa. Por detrás de cada despesa inesperada existe alguém que pode ou não ter uma reserva para a suportar. A verdadeira pergunta não é apenas quanto custa o combustível? É saber quanto custa viver? Que sociedade queremos construir quando trabalhar, alimentar uma Família, cuidar da saúde e conseguir poupar para o futuro começam a disputar entre si o mesmo salário?

Porque pobreza não é apenas não ter dinheiro. É também não ter margem para escolher.

Humberto Domingues
Enf. Espec. Enfermagem Comunitária e Saúde Pública
Mestre em Sociologia da Saúde
2026.09.07

O Autor escreve de acordo com o antigo acordo ortográfico

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

II CONGRESSO INTERNACIONAL DE ENFERMAGEM COMUNITÁRIA

II CONGRESSO INTERNACIONAL DE ENFERMAGEM COMUNITÁRIA
Liderança, Proximidade e Valor em Enfermagem Comunitária

CHAVES, 11 E 12 SETEMBRO



Link do Programa:
https://www.ordemenfermeiros.pt/media/44674/programa_ciec26_vfinal_co_posters_31082026.pdf

Humberto Domingues
Enf. Especialista Enfermagem Comunitária
Mestre em Sociologia da Saúde
2026.09.04

quarta-feira, 29 de julho de 2026

QUANDO O EXEMPLO DEIXA DE GOVERNAR

QUANDO O EXEMPLO DEIXA DE GOVERNAR

A autoridade política é um recurso escasso. Sempre que é consumida na justificação do passado, deixa de estar disponível para construir o futuro.

Fonte da Imagem: Elaboração própria com ajuda da IA

Uma democracia não se degrada apenas quando as leis deixam de existir. Degrada-se, de forma mais subtil e talvez mais perigosa, quando as leis continuam escritas, mas a exigência do seu cumprimento parece depender de quem as viola.

Ao cidadão comum, o Estado exige rigor. Os prazos cumprem-se, as obrigações fiscais declaram-se e o incumprimento tem consequências, sob a forma de coimas, juros ou outras sanções. É assim que deve ser. Um Estado de Direito vive da previsibilidade das regras e da igualdade da sua aplicação.

O problema começa quando os cidadãos percepcionam que essa exigência deixa de ser simétrica para quem exerce funções públicas. Independentemente de pessoas ou partidos, a repetição de omissões, justificações tardias ou interpretações convenientes das normas produz um efeito particularmente corrosivo. A excepção deixa de ser entendida como excepção e começa a ser aceite como uma característica inevitável da vida política.

A Sociologia descreve este fenómeno como normalização do desvio. Com o tempo, comportamentos inicialmente considerados inaceitáveis deixam de provocar indignação e passam a ser recebidos com resignação. O extraordinário torna-se banal. E esse é, talvez, o maior perigo para uma democracia.

Quem exerce funções públicas não beneficia de uma exigência ética menor. Beneficia, precisamente, da obrigação contrária. O poder democrático não confere privilégios morais. Impõe deveres acrescidos de transparência, coerência e responsabilidade. Por isso, a questão verdadeiramente importante não consiste apenas em saber se um determinado comportamento é juridicamente admissível. Consiste em perguntar se seria socialmente tolerado caso tivesse sido praticado por qualquer cidadão. Quando essa resposta é negativa, instala-se uma fractura entre governantes e governados.

A confiança institucional enfraquece, porque cresce a percepção de que existem dois padrões de responsabilidade. Um para quem governa. Outro para quem é governado.

Subsiste ainda uma consequência menos discutida, mas igualmente relevante. Sempre que um titular de funções públicas se vê confrontado com sucessivas controvérsias relacionadas com a sua conduta, uma parte significativa da agenda política deixa de ser ocupada pela governação para passar a ser consumida por esclarecimentos, justificações e gestão de danos relativos à sua reputação.

Esse tempo tem um custo institucional. A governação exige concentração estratégica, serenidade de julgamento e capacidade para decidir com distanciamento. Quando a agenda pública permanece dominada por sucessivos episódios que poderiam ter sido evitados através de uma cultura de maior rigor e transparência, reduz-se o espaço para aquilo que verdadeiramente se espera de quem governa: decidir, reformar e preparar o futuro.

Numa democracia madura, o escrutínio público não constitui um obstáculo à governação. Constitui uma garantia da sua qualidade. O problema surge quando esse escrutínio deixa de incidir sobre as políticas públicas e passa a concentrar-se, de forma recorrente, em comportamentos que fragilizam a credibilidade de quem exerce o poder. Nesse momento, não perde apenas o responsável político. Perde o Estado, perdem as instituições e perdem os cidadãos, que esperam dos seus representantes tempo, energia e discernimento dedicados ao interesse público.

Talvez alguns responsáveis políticos cometam um erro de avaliação ao subestimarem a inteligência dos cidadãos. Não é necessário dominar o Direito ou a Ciência Política para reconhecer incoerências. O bom senso continua a ser uma das mais sólidas formas de inteligência cívica. Depois, surpreendem-se quando aumenta a desconfiança nas instituições ou quando o voto procura novos rumos. Porém, esse comportamento eleitoral raramente nasce do acaso. É, muitas vezes, a expressão de uma confiança progressivamente desgastada.

As democracias não se fragilizam apenas por grandes ruturas constitucionais. Enfraquecem, lentamente, sempre que pequenas cedências éticas passam a ser toleradas como se fossem inevitáveis. A autoridade política não se sustenta apenas na legitimidade eleitoral. Sustenta-se, sobretudo, na legitimidade moral do exemplo.

As instituições não começam a morrer quando deixam de aplicar a lei. Começam a morrer quando os cidadãos deixam de acreditar que ela é aplicada com a mesma exigência para todos. Nesse momento, não se dissolve apenas a confiança. Começa a dissolver-se a própria legitimidade democrática.

Humberto Domingues
Enf. Espec. Saúde Comunitária e Saúde Pública
Mestre em Sociologia da Saúde
2026.07.29

O Autor escreve segundo o antigo acordo ortográfico

terça-feira, 21 de julho de 2026

A PRONTIDÃO DO PRESIDENTE DA REPÚBLICA E A ESPUMA DOS DIAS

A PRONTIDÃO DO PRESIDENTE DA REPÚBLICA E A ESPUMA DOS DIAS

Fonte da Imagem: Jornal OBSERVADOR

Na Ciência Política e na Sociologia da Comunicação sabemos que as palavras não são apenas instrumentos de descrição. São também instrumentos de construção da realidade.

Foi por isso que me causou alguma perplexidade a utilização da expressão "prontidão" para caracterizar a disponibilidade do Presidente da República perante os problemas registados na divulgação das classificações dos exames nacionais ou da questão do Ministro da Administração Interna.

"Prontidão" é um conceito associado, tradicionalmente, ao universo militar e da proteção civil, reservado para cenários de guerra, catástrofe ou outras situações de excecional gravidade. A ocorrência em causa exigia acompanhamento institucional e resposta política, mas não justificava, pela sua natureza, uma linguagem de excepção e magnitude.

Quando a comunicação institucional adota vocábulos cuja carga simbólica excede a dimensão objetiva dos acontecimentos, corre o risco de transformar uma falha administrativa numa narrativa de emergência. A credibilidade das instituições também se mede pela proporcionalidade entre os factos e as palavras que escolhem para os representar.

Humberto Domingues
2026.07.21

segunda-feira, 20 de julho de 2026

PRECISAMOS DE ENFERMEIROS AO LEME DAS DECISÕES ESTRATÉGICAS DA SAÚDE


PRECISAMOS DE ENFERMEIROS AO LEME 
DAS DECISÕES ESTRATÉGICAS DA SAÚDE

Fonte da Imagem: Elaboração própria com ajuda IA

A saúde enfrenta desafios cada vez mais complexos. O envelhecimento da população, o aumento das doenças crónicas, a escassez de recursos, a crescente diversidade cultural decorrente dos fluxos migratórios e as expectativas cada vez mais elevadas dos cidadãos exigem novas formas de liderança. Continuar a tomar decisões estratégicas afastadas da realidade dos cuidados constitui um erro que os sistemas de saúde já não podem permitir-se.
Os Enfermeiros ocupam uma posição singular. Estão presentes ao longo de todo o ciclo de vida das pessoas, acompanham famílias, intervêm nas comunidades, conhecem os serviços e compreendem as dificuldades quotidianas dos profissionais e dos cidadãos. Poucos detêm uma visão tão abrangente do funcionamento do sistema de saúde. Quando as estratégias são concebidas longe do terreno, tendem a falhar na implementação, gerando desperdício de recursos, desmotivação das equipas e perda de valor para os cidadãos.
É precisamente por isso que a participação dos Enfermeiros nos processos de decisão estratégica deve ser entendida como uma necessidade e não como uma reivindicação corporativa. Trata-se de uma opção racional, sustentada pela evidência científica e pela experiência acumulada dos sistemas de saúde mais evoluídos. Integrar Enfermeiros na governação significa aproximar a estratégia da realidade, incorporar a dimensão comunitária nas políticas públicas, reforçar a ligação aos territórios e produzir melhores resultados em saúde.

A literatura internacional e organismos como a Organização Mundial da Saúde têm evidenciado que as organizações onde a liderança de Enfermagem participa activamente nos processos de governação tendem a apresentar melhores indicadores de segurança do doente, maior qualidade assistencial, equipas mais coesas e uma utilização mais eficiente dos recursos disponíveis. Não se trata apenas de gerir melhor. Trata-se de criar mais valor em saúde.

Num contexto em que a sustentabilidade do Serviço Nacional de Saúde depende cada vez mais da prevenção, da gestão da doença crónica, da integração de cuidados e da redução das desigualdades em saúde, torna-se evidente que o actual modelo de governação precisa de evoluir. Governar a saúde já não pode significar apenas administrar hospitais, unidades locais de saúde ou centros de saúde. Significa conhecer profundamente os territórios, compreender os determinantes sociais da saúde, mobilizar recursos locais e construir respostas integradas entre os serviços de saúde, as autarquias, a educação, a segurança social, as empresas, o movimento associativo e a sociedade civil.

O futuro do SNS poderá passar por um modelo que poderíamos designar por uma Governação Territorial da Saúde, onde as decisões estratégicas são construídas a partir das necessidades reais das populações e não exclusivamente da gestão das instituições. A qualidade da governação medir-se-á cada vez menos pela capacidade de administrar estruturas e cada vez mais pela capacidade de produzir ganhos efectivos em saúde, promover equidade, reforçar a prevenção e criar valor para os cidadãos.

É neste paradigma que os Enfermeiros assumem uma posição particularmente diferenciadora. A sua intervenção desenvolve-se exactamente onde a saúde é produzida, nas famílias, nas escolas, nas comunidades, nos locais de trabalho e nos cuidados de proximidade. A experiência acumulada nesta interface entre cidadãos, serviços e territórios confere-lhes uma visão sistémica rara, capaz de integrar conhecimento clínico, gestão organizacional, coordenação de equipas, intervenção comunitária e avaliação de resultados.

Distinguem-se igualmente pela capacidade de estabelecer uma ponte permanente entre o Serviço Nacional de Saúde e a comunidade, traduzindo conhecimento técnico em decisões compreensíveis, mobilizadoras e orientadas para a melhoria dos resultados. Num tempo em que a literacia em saúde constitui um dos principais determinantes da participação dos cidadãos, esta competência comunicacional representa um activo estratégico de enorme relevância.

Os ganhos são evidentes. Melhor prevenção da doença, maior adesão terapêutica, redução de internamentos evitáveis, menor pressão sobre os serviços de urgência, cidadãos mais autónomos, melhor utilização dos recursos públicos e melhores resultados em saúde. Simultaneamente, a presença de Enfermeiros nos centros de decisão enriquece o desenho das políticas públicas, reforça a avaliação dos programas de saúde e aproxima a governação das necessidades efectivas das populações.

Num sistema onde cada decisão influencia a vida das pessoas e a sustentabilidade das instituições, liderar exige conhecimento clínico, visão estratégica, capacidade de gestão e profundo entendimento das comunidades. Os Enfermeiros reúnem estas competências. Não são apenas gestores de cuidados, são profissionais preparados para liderar sistemas, integrar políticas públicas e contribuir para uma governação mais próxima dos cidadãos, mais eficiente e mais orientada para a criação de valor em saúde.

O futuro da saúde não dependerá apenas da capacidade de tratar mais doença, dependerá, sobretudo, da capacidade de produzir mais saúde. Essa transformação exige uma governação territorial, integrada e de parcerias, onde a prevenção, a proximidade e a articulação entre sectores assumem um papel central. Neste novo paradigma, os Enfermeiros não representam apenas uma profissão indispensável, mas um recurso estratégico para a governação da saúde.

Quem conhece o mar, o navio e as pessoas que nele viajam reúne condições ímpares para ajudar a escolher o rumo. É por isso que os Enfermeiros devem estar ao leme das decisões estratégicas da saúde.

Humberto Domingues
Enf. Espec. em Saúde Comunitária e Saúde Pública
Mestre em Sociologia da Saúde
2026.07.16

O Autor escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico.

LIDERANÇA, COMUNICAÇÃO E CAPITAL COMUNITÁRIO EM SAÚDE

No âmbito do Encontro de Enfermeiros Especialistas nos Açores - Especialistas que Lideram, Comunidades que se transformam,  promivido pela O...