domingo, 13 de setembro de 2026

II Congresso Internacional de Enfermagem Comunitária: Liderança, Proximidade e Valor em Enfermagem Comunitária

II Congresso Internacional de Enfermagem Comunitária:
Liderança, Proximidade e Valor em Enfermagem Comunitária
Escola Superior de Saúde da Cruz Vermelha Portuguesa – Alto Tâmega
Chaves 11 e 12 Setembro


Há acontecimentos que terminam. E há acontecimentos que permanecem.


O II Congresso Internacional de Enfermagem Comunitária: Liderança, Proximidade e Valor em Enfermagem Comunitária, que se realizou na Escola Superior de Saúde da Cruz Vermelha Portuguesa – Alto Tâmega, em Chaves, é um desses momentos que permanecem.


Permanece a alegria de ter participado na sua organização. Permanece a honra do acolhimento, pela Direcção e Professores, na Escola Superior de Saúde da Cruz Vermelha do Alto Tâmega. E permanece, sobretudo, a profunda satisfação de ter testemunhado a qualidade das intervenções, a consistência da investigação e a vitalidade de uma Enfermagem Comunitária (nas suas dimensões Comunitária, Saúde Pública e Familiar), que continua a pensar, a questionar e a construir conhecimento ao serviço das Pessoas, das Famílias e das Comunidades.


Foi também um privilégio partilhar este caminho com tantos profissionais, investigadores, docentes, estudantes e colegas que, através do seu trabalho, demonstram que a Enfermagem Comunitária tem presente no trabalho desenvolvido, tem pensamento científico e crítico e, tem futuro na organização, gestão e avaliação da Saúde, seja em que sistema ou Serviço de Saúde fôr.


Teve a particularidade este Congresso de se realizar numa data (12 de Setembro) em que se comemora o Dia Nacional do Enfermeiro Especialista em Enfermagem Comunitária e Saúde Pública.



Uma palavra especial de reconhecimento ao Digníssimo Bastonário da Ordem dos Enfermeiros, Enf. Luís Filipe Barreira e Conselho Directivo e ao Presidente do Colégio de Enfermagem Comunitária, Enf. José Hermínio Gomes e Mesa do Colégio, pela dedicação, presença e compromisso firme, com a valorização científica, profissional e social da nossa área de especialidade.

A todos os que ofereceram tempo, conhecimento, trabalho e coração a este Congresso, o meu sincero agradecimento. Poderia referir alguns Colegas, mas estaria a ser injusto ao não citar tantos outros, numa lista infindável e longa.


Também a componente cultural e social, numa oferta e parceria da Câmara Municipal tiveram uma qualidade ímpar, numa visita às "Termas Romanas", visita ao Arquivo Municipal e Museu, da Cidade de Chaves. Momentos muito bons, de partilha, convívio e de se perceber o que os "Romanos" do Séc. III, fizeram em termos de engenharia e arquitectura, para usufruir das águas termais e defender a Cidade.
 



Saí de Chaves com gratidão no coração e orgulho renovado na Enfermagem Comunitária. Porque quando o conhecimento se encontra com o compromisso e quando profissionais se unem em torno das Pessoas e das Comunidades, não estamos apenas a fazer um Congresso. Estamos a construir futuro, a gerar valor e a afirmar a Enfermagem Comunitária como um recurso estratégico para as Comunidades, para a Saúde e para o País.


Humberto Domingues
Enf. Espec. Enfermagem Comunitária
Mestre em Sociologia da Saúde
2026.0913

O Autor escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

QUANTO CUSTA TRABALHAR?

QUANTO CUSTA TRABALHAR?

Fonte da Imagem: Elaboração própria com apoio IA

Há momentos em que uma Sociedade precisa de parar, respirar e olhar para além dos números.

A Europa atravessa um período particularmente exigente. A guerra entre a Rússia e a Ucrânia e a instabilidade no Médio Oriente introduzem novas perturbações num mercado energético fragilizado. A pressão sobre o petróleo e os produtos refinados chega à energia, aos transportes e, inevitavelmente, ao orçamento das Famílias. Mas existe uma pergunta que raramente fazemos quando discutimos estes fenómenos em termos macroeconómicos: quanto custa trabalhar?

Para milhares de portugueses, deslocar-se diariamente para o trabalho implica utilizar um automóvel. Não por conforto ou estatuto, mas porque, em muitas zonas do país, o transporte público não oferece uma alternativa compatível com os horários de trabalho. O automóvel torna-se parte da infraestrutura necessária para trabalhar. Quando o combustível aumenta, aumenta também o preço de acesso ao emprego.

Importa compreender que o preço do gasóleo não acompanha mecanicamente o petróleo bruto. O mercado dos produtos refinados tem dinâmica própria e pode sofrer maior pressão quando a oferta é apertada e existem dificuldades no abastecimento.

A questão verdadeiramente importante está, contudo, dentro das casas. Segundo o Instituto Nacional de Estatística, os agregados familiares residentes em Portugal gastavam, em média, 23.900 euros por ano em 2022/2023. Cerca de 64% dessa despesa concentrava-se em habitação, alimentação e transportes: 39,3% em habitação, 12,9% em alimentação e 12,1% em transportes.

Quando o rendimento é limitado e as despesas essenciais aumentam, o dinheiro tem de sair de algum lado. Primeiro corta-se no dispensável, depois surgem escolhas mais difíceis, alimentos mais baratos, menor variedade alimentar, uma reparação ou despesa de saúde adiada. Finalmente, deixa de existir capacidade para poupar. Quando uma Família perde capacidade financeira, não perde apenas poder de compra. Perde margem de escolha.

Imagine-se um trabalhador que percorre diariamente 50 ou 60 quilómetros para chegar ao emprego. Ao fim do mês, parte do salário foi consumida simplesmente para poder estar presente no local onde o recebe. Há uma diferença profunda entre gastar dinheiro para viver e gastar dinheiro para poder trabalhar. Quanto menor o rendimento, maior o peso relativo dessa despesa. É aqui que a energia deixa de ser apenas uma questão económica e passa a ser uma questão de justiça social.

Na alimentação, não basta perguntar se as pessoas continuam a comer. É necessário perguntar o que comem? A qualidade nutricional pode deteriorar-se muito antes de surgir privação alimentar evidente, quando produtos frescos ou nutricionalmente mais completos são substituídos por alternativas mais baratas. As escolhas individuais são condicionadas pelas possibilidades económicas. É aqui que a economia doméstica encontra a saúde pública.

O stress financeiro persistente, a insegurança económica, a pior qualidade alimentar, a menor capacidade para recorrer atempadamente aos cuidados de saúde e a ausência de uma reserva perante uma doença ou despesa inesperada afectam o bem-estar individual e familiar. A saúde não começa no hospital. Começa também na capacidade de pagar a casa, alimentar-se adequadamente, deslocar-se para o trabalho, descansar e enfrentar um imprevisto sem entrar em ruptura.

Por isso, discutir combustíveis não pode ser apenas uma disputa fiscal. É uma questão de resiliência social. Para muitas Famílias, poupar não significa acumular riqueza. Significa adquirir uma pequena parcela de segurança. E essa capacidade é socialmente desigual. Não se pode exigir o mesmo a quem termina o mês com 300 euros disponíveis e a quem dispõe de vários milhares depois de pagar todas as despesas. Daí a necessidade de uma reflexão política sobre mobilidade, transportes públicos, energia, salários, fiscalidade, organização territorial e acesso aos serviços públicos. Portugal não pode pedir às Famílias que reduzam o uso do automóvel sem lhes oferecer alternativas funcionais. Não pode pedir maior poupança sem discutir o rendimento disponível. Não pode defender melhores escolhas alimentares ignorando o seu preço.

A conjuntura internacional não está inteiramente sob o nosso controlo. Portugal não determina o preço mundial do petróleo nem decide a duração das guerras. Mas existem decisões nacionais e europeias que determinam quanto dessa turbulência chega, finalmente, à mesa das Famílias.

Por detrás de cada aumento do gasóleo existe uma pessoa que tem de chegar ao trabalho. Por detrás de cada aumento dos alimentos existe uma Família que decide o que leva para casa. Por detrás de cada despesa inesperada existe alguém que pode ou não ter uma reserva para a suportar. A verdadeira pergunta não é apenas quanto custa o combustível? É saber quanto custa viver? Que sociedade queremos construir quando trabalhar, alimentar uma Família, cuidar da saúde e conseguir poupar para o futuro começam a disputar entre si o mesmo salário?

Porque pobreza não é apenas não ter dinheiro. É também não ter margem para escolher.

Humberto Domingues
Enf. Espec. Enfermagem Comunitária e Saúde Pública
Mestre em Sociologia da Saúde
2026.09.07

O Autor escreve de acordo com o antigo acordo ortográfico

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

II CONGRESSO INTERNACIONAL DE ENFERMAGEM COMUNITÁRIA

II CONGRESSO INTERNACIONAL DE ENFERMAGEM COMUNITÁRIA
Liderança, Proximidade e Valor em Enfermagem Comunitária

CHAVES, 11 E 12 SETEMBRO



Link do Programa:
https://www.ordemenfermeiros.pt/media/44674/programa_ciec26_vfinal_co_posters_31082026.pdf

Humberto Domingues
Enf. Especialista Enfermagem Comunitária
Mestre em Sociologia da Saúde
2026.09.04

quarta-feira, 29 de julho de 2026

QUANDO O EXEMPLO DEIXA DE GOVERNAR

QUANDO O EXEMPLO DEIXA DE GOVERNAR

A autoridade política é um recurso escasso. Sempre que é consumida na justificação do passado, deixa de estar disponível para construir o futuro.

Fonte da Imagem: Elaboração própria com ajuda da IA

Uma democracia não se degrada apenas quando as leis deixam de existir. Degrada-se, de forma mais subtil e talvez mais perigosa, quando as leis continuam escritas, mas a exigência do seu cumprimento parece depender de quem as viola.

Ao cidadão comum, o Estado exige rigor. Os prazos cumprem-se, as obrigações fiscais declaram-se e o incumprimento tem consequências, sob a forma de coimas, juros ou outras sanções. É assim que deve ser. Um Estado de Direito vive da previsibilidade das regras e da igualdade da sua aplicação.

O problema começa quando os cidadãos percepcionam que essa exigência deixa de ser simétrica para quem exerce funções públicas. Independentemente de pessoas ou partidos, a repetição de omissões, justificações tardias ou interpretações convenientes das normas produz um efeito particularmente corrosivo. A excepção deixa de ser entendida como excepção e começa a ser aceite como uma característica inevitável da vida política.

A Sociologia descreve este fenómeno como normalização do desvio. Com o tempo, comportamentos inicialmente considerados inaceitáveis deixam de provocar indignação e passam a ser recebidos com resignação. O extraordinário torna-se banal. E esse é, talvez, o maior perigo para uma democracia.

Quem exerce funções públicas não beneficia de uma exigência ética menor. Beneficia, precisamente, da obrigação contrária. O poder democrático não confere privilégios morais. Impõe deveres acrescidos de transparência, coerência e responsabilidade. Por isso, a questão verdadeiramente importante não consiste apenas em saber se um determinado comportamento é juridicamente admissível. Consiste em perguntar se seria socialmente tolerado caso tivesse sido praticado por qualquer cidadão. Quando essa resposta é negativa, instala-se uma fractura entre governantes e governados.

A confiança institucional enfraquece, porque cresce a percepção de que existem dois padrões de responsabilidade. Um para quem governa. Outro para quem é governado.

Subsiste ainda uma consequência menos discutida, mas igualmente relevante. Sempre que um titular de funções públicas se vê confrontado com sucessivas controvérsias relacionadas com a sua conduta, uma parte significativa da agenda política deixa de ser ocupada pela governação para passar a ser consumida por esclarecimentos, justificações e gestão de danos relativos à sua reputação.

Esse tempo tem um custo institucional. A governação exige concentração estratégica, serenidade de julgamento e capacidade para decidir com distanciamento. Quando a agenda pública permanece dominada por sucessivos episódios que poderiam ter sido evitados através de uma cultura de maior rigor e transparência, reduz-se o espaço para aquilo que verdadeiramente se espera de quem governa: decidir, reformar e preparar o futuro.

Numa democracia madura, o escrutínio público não constitui um obstáculo à governação. Constitui uma garantia da sua qualidade. O problema surge quando esse escrutínio deixa de incidir sobre as políticas públicas e passa a concentrar-se, de forma recorrente, em comportamentos que fragilizam a credibilidade de quem exerce o poder. Nesse momento, não perde apenas o responsável político. Perde o Estado, perdem as instituições e perdem os cidadãos, que esperam dos seus representantes tempo, energia e discernimento dedicados ao interesse público.

Talvez alguns responsáveis políticos cometam um erro de avaliação ao subestimarem a inteligência dos cidadãos. Não é necessário dominar o Direito ou a Ciência Política para reconhecer incoerências. O bom senso continua a ser uma das mais sólidas formas de inteligência cívica. Depois, surpreendem-se quando aumenta a desconfiança nas instituições ou quando o voto procura novos rumos. Porém, esse comportamento eleitoral raramente nasce do acaso. É, muitas vezes, a expressão de uma confiança progressivamente desgastada.

As democracias não se fragilizam apenas por grandes ruturas constitucionais. Enfraquecem, lentamente, sempre que pequenas cedências éticas passam a ser toleradas como se fossem inevitáveis. A autoridade política não se sustenta apenas na legitimidade eleitoral. Sustenta-se, sobretudo, na legitimidade moral do exemplo.

As instituições não começam a morrer quando deixam de aplicar a lei. Começam a morrer quando os cidadãos deixam de acreditar que ela é aplicada com a mesma exigência para todos. Nesse momento, não se dissolve apenas a confiança. Começa a dissolver-se a própria legitimidade democrática.

Humberto Domingues
Enf. Espec. Saúde Comunitária e Saúde Pública
Mestre em Sociologia da Saúde
2026.07.29

O Autor escreve segundo o antigo acordo ortográfico

terça-feira, 21 de julho de 2026

A PRONTIDÃO DO PRESIDENTE DA REPÚBLICA E A ESPUMA DOS DIAS

A PRONTIDÃO DO PRESIDENTE DA REPÚBLICA E A ESPUMA DOS DIAS

Fonte da Imagem: Jornal OBSERVADOR

Na Ciência Política e na Sociologia da Comunicação sabemos que as palavras não são apenas instrumentos de descrição. São também instrumentos de construção da realidade.

Foi por isso que me causou alguma perplexidade a utilização da expressão "prontidão" para caracterizar a disponibilidade do Presidente da República perante os problemas registados na divulgação das classificações dos exames nacionais ou da questão do Ministro da Administração Interna.

"Prontidão" é um conceito associado, tradicionalmente, ao universo militar e da proteção civil, reservado para cenários de guerra, catástrofe ou outras situações de excecional gravidade. A ocorrência em causa exigia acompanhamento institucional e resposta política, mas não justificava, pela sua natureza, uma linguagem de excepção e magnitude.

Quando a comunicação institucional adota vocábulos cuja carga simbólica excede a dimensão objetiva dos acontecimentos, corre o risco de transformar uma falha administrativa numa narrativa de emergência. A credibilidade das instituições também se mede pela proporcionalidade entre os factos e as palavras que escolhem para os representar.

Humberto Domingues
2026.07.21

segunda-feira, 20 de julho de 2026

PRECISAMOS DE ENFERMEIROS AO LEME DAS DECISÕES ESTRATÉGICAS DA SAÚDE


PRECISAMOS DE ENFERMEIROS AO LEME 
DAS DECISÕES ESTRATÉGICAS DA SAÚDE

Fonte da Imagem: Elaboração própria com ajuda IA

A saúde enfrenta desafios cada vez mais complexos. O envelhecimento da população, o aumento das doenças crónicas, a escassez de recursos, a crescente diversidade cultural decorrente dos fluxos migratórios e as expectativas cada vez mais elevadas dos cidadãos exigem novas formas de liderança. Continuar a tomar decisões estratégicas afastadas da realidade dos cuidados constitui um erro que os sistemas de saúde já não podem permitir-se.
Os Enfermeiros ocupam uma posição singular. Estão presentes ao longo de todo o ciclo de vida das pessoas, acompanham famílias, intervêm nas comunidades, conhecem os serviços e compreendem as dificuldades quotidianas dos profissionais e dos cidadãos. Poucos detêm uma visão tão abrangente do funcionamento do sistema de saúde. Quando as estratégias são concebidas longe do terreno, tendem a falhar na implementação, gerando desperdício de recursos, desmotivação das equipas e perda de valor para os cidadãos.
É precisamente por isso que a participação dos Enfermeiros nos processos de decisão estratégica deve ser entendida como uma necessidade e não como uma reivindicação corporativa. Trata-se de uma opção racional, sustentada pela evidência científica e pela experiência acumulada dos sistemas de saúde mais evoluídos. Integrar Enfermeiros na governação significa aproximar a estratégia da realidade, incorporar a dimensão comunitária nas políticas públicas, reforçar a ligação aos territórios e produzir melhores resultados em saúde.

A literatura internacional e organismos como a Organização Mundial da Saúde têm evidenciado que as organizações onde a liderança de Enfermagem participa activamente nos processos de governação tendem a apresentar melhores indicadores de segurança do doente, maior qualidade assistencial, equipas mais coesas e uma utilização mais eficiente dos recursos disponíveis. Não se trata apenas de gerir melhor. Trata-se de criar mais valor em saúde.

Num contexto em que a sustentabilidade do Serviço Nacional de Saúde depende cada vez mais da prevenção, da gestão da doença crónica, da integração de cuidados e da redução das desigualdades em saúde, torna-se evidente que o actual modelo de governação precisa de evoluir. Governar a saúde já não pode significar apenas administrar hospitais, unidades locais de saúde ou centros de saúde. Significa conhecer profundamente os territórios, compreender os determinantes sociais da saúde, mobilizar recursos locais e construir respostas integradas entre os serviços de saúde, as autarquias, a educação, a segurança social, as empresas, o movimento associativo e a sociedade civil.

O futuro do SNS poderá passar por um modelo que poderíamos designar por uma Governação Territorial da Saúde, onde as decisões estratégicas são construídas a partir das necessidades reais das populações e não exclusivamente da gestão das instituições. A qualidade da governação medir-se-á cada vez menos pela capacidade de administrar estruturas e cada vez mais pela capacidade de produzir ganhos efectivos em saúde, promover equidade, reforçar a prevenção e criar valor para os cidadãos.

É neste paradigma que os Enfermeiros assumem uma posição particularmente diferenciadora. A sua intervenção desenvolve-se exactamente onde a saúde é produzida, nas famílias, nas escolas, nas comunidades, nos locais de trabalho e nos cuidados de proximidade. A experiência acumulada nesta interface entre cidadãos, serviços e territórios confere-lhes uma visão sistémica rara, capaz de integrar conhecimento clínico, gestão organizacional, coordenação de equipas, intervenção comunitária e avaliação de resultados.

Distinguem-se igualmente pela capacidade de estabelecer uma ponte permanente entre o Serviço Nacional de Saúde e a comunidade, traduzindo conhecimento técnico em decisões compreensíveis, mobilizadoras e orientadas para a melhoria dos resultados. Num tempo em que a literacia em saúde constitui um dos principais determinantes da participação dos cidadãos, esta competência comunicacional representa um activo estratégico de enorme relevância.

Os ganhos são evidentes. Melhor prevenção da doença, maior adesão terapêutica, redução de internamentos evitáveis, menor pressão sobre os serviços de urgência, cidadãos mais autónomos, melhor utilização dos recursos públicos e melhores resultados em saúde. Simultaneamente, a presença de Enfermeiros nos centros de decisão enriquece o desenho das políticas públicas, reforça a avaliação dos programas de saúde e aproxima a governação das necessidades efectivas das populações.

Num sistema onde cada decisão influencia a vida das pessoas e a sustentabilidade das instituições, liderar exige conhecimento clínico, visão estratégica, capacidade de gestão e profundo entendimento das comunidades. Os Enfermeiros reúnem estas competências. Não são apenas gestores de cuidados, são profissionais preparados para liderar sistemas, integrar políticas públicas e contribuir para uma governação mais próxima dos cidadãos, mais eficiente e mais orientada para a criação de valor em saúde.

O futuro da saúde não dependerá apenas da capacidade de tratar mais doença, dependerá, sobretudo, da capacidade de produzir mais saúde. Essa transformação exige uma governação territorial, integrada e de parcerias, onde a prevenção, a proximidade e a articulação entre sectores assumem um papel central. Neste novo paradigma, os Enfermeiros não representam apenas uma profissão indispensável, mas um recurso estratégico para a governação da saúde.

Quem conhece o mar, o navio e as pessoas que nele viajam reúne condições ímpares para ajudar a escolher o rumo. É por isso que os Enfermeiros devem estar ao leme das decisões estratégicas da saúde.

Humberto Domingues
Enf. Espec. em Saúde Comunitária e Saúde Pública
Mestre em Sociologia da Saúde
2026.07.16

O Autor escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico.

quarta-feira, 8 de julho de 2026

O FUTEBOL COMO FENÓMENO SOCIAL E EXTRAORDINÁRIA INDÚSTRIA DAS EMOÇÕES

O FUTEBOL COMO FENÓMENO SOCIAL E 

EXTRAORDINÁRIA INDÚSTRIA DAS EMOÇÕES

Fonte da Imagem: Instagram

Há muito que o futebol deixou de ser apenas um desporto. Hoje, constitui um dos mais poderosos fenómenos sociais, culturais, económicos e políticos do nosso tempo. Poucas atividades humanas conseguem mobilizar, em simultâneo, centenas de milhões de pessoas, movimentar milhares de milhões de euros ou dólares, envolver governos, grandes empresas, meios de comunicação social e plataformas digitais, enquanto despertam emoções de uma intensidade raramente observada noutros domínios da vida coletiva.

Noventa minutos de jogo conseguem suspender rotinas, alterar estados de espírito, influenciar conversas, condicionar agendas mediáticas e até fazer esquecer, ainda que por instantes, crises económicas, conflitos internacionais ou problemas pessoais. O futebol tornou-se uma linguagem universal, compreendida em praticamente todos os continentes, independentemente da língua, da cultura ou da condição social.

A sua transformação nas últimas décadas é extraordinária. O que começou como uma prática desportiva evoluiu para uma verdadeira indústria global. Os clubes assumem hoje uma dimensão empresarial comparável à de grandes multinacionais. Os jogadores deixaram de ser apenas atletas para se tornarem marcas internacionais, influenciadores e embaixadores de produtos, enquanto os contratos televisivos, os direitos de imagem, o merchandising, os patrocínios, as apostas desportivas e as plataformas digitais alimentam uma economia que movimenta milhares de milhões de euros todos os anos.

Também a tecnologia passou a integrar este universo. Sistemas de vídeo-arbitragem, análise de desempenho através de inteligência artificial, monitorização biométrica dos atletas, estatísticas em tempo real, sensores, algoritmos preditivos e modelos avançados de análise transformaram profundamente a forma como o jogo é preparado, arbitrado e interpretado. A procura permanente de maior rigor e justiça competitiva demonstra como o futebol acompanha a evolução científica e tecnológica da própria sociedade.

Mas talvez o mais fascinante não seja a dimensão económica nem a sofisticação tecnológica. O verdadeiro fenómeno reside nas pessoas.

Milhares de adeptos percorrem centenas de quilómetros para acompanhar o seu clube. Outros organizam a vida familiar em função dos calendários competitivos. Há quem reserve parte significativa do orçamento mensal para quotas, lugares anuais, bilhetes, equipamentos oficiais, deslocações e canais televisivos. Para muitos, esta opção representa uma escolha consciente e legítima. Para outros, porém, a intensidade da ligação emocional pode conduzir a sacrifícios financeiros que ultrapassam a simples prática de lazer, revelando como a identidade clubística se torna parte integrante da própria identidade pessoal.

Nos estádios vive-se uma experiência humana singular. Desconhecidos abraçam-se após um golo. Sofrem em simultâneo perante um penálti. Cantam, celebram, choram e partilham emoções com uma intensidade que dificilmente encontra paralelo noutros espaços públicos. O estádio transforma-se num lugar de pertença, onde o indivíduo deixa de ser apenas um espectador para integrar uma comunidade emocional unida pelos mesmos símbolos, pelas mesmas cores e pela mesma esperança.

Esta extraordinária capacidade mobilizadora nunca passou despercebida ao poder político. Presidentes da República, chefes de Governo, ministros, autarcas e outras figuras institucionais fazem questão de marcar presença nas grandes finais nacionais e internacionais. Não se trata apenas de gosto pessoal pelo desporto. O futebol constitui hoje um dos maiores palcos de comunicação pública, de afirmação institucional e de proximidade simbólica com os cidadãos. A sua capacidade para unir um país em torno de uma seleção nacional ou de um grande acontecimento desportivo faz dele um espaço privilegiado de construção de identidade coletiva.

Talvez seja precisamente aqui que emerge a questão mais interessante. Porque consegue o futebol mobilizar tamanha energia social, emocional e económica, enquanto áreas igualmente determinantes para o futuro coletivo, como a educação, a saúde, a ciência ou a cultura, raramente despertam semelhante entusiasmo?

A resposta dificilmente será simples. O futebol oferece pertença, identidade, emoção, narrativa, esperança, competição, reconhecimento e memória. Em noventa minutos concentra muitas das emoções fundamentais da experiência humana. É um espelho onde cada sociedade acaba por projetar os seus valores, as suas paixões, as suas desigualdades, os seus sonhos e até as suas contradições.

A Sociologia ajuda-nos a compreender este fenómeno. Émile Durkheim demonstrou que as sociedades necessitam de rituais que reforcem a coesão social. O futebol tornou-se um desses grandes rituais modernos. Por seu lado, Johan Huizinga recordava, em Homo Ludens, que o jogo não é um simples passatempo, mas uma dimensão fundadora da própria civilização. Talvez por isso o futebol continue a mobilizar tão profundamente o ser humano.

Por isso, compreender o futebol é compreender muito mais do que um jogo. É compreender uma parte significativa da sociedade contemporânea, das suas prioridades, dos seus mecanismos de mobilização coletiva e da forma como, em pleno século XXI, continuamos a procurar lugares onde possamos sentir que pertencemos a algo maior do que nós próprios.

Humberto Domingues
Enf. Espec. Enfermagem Comunitária e Saúde Pública
Mestre em Sociologia da Saúde
2026.06.07

O Autor escreve segundo o antigo Acordo Ortográfico

segunda-feira, 6 de julho de 2026

A SELEÇÃO NACIONAL REPRESENTA MAIS DO QUE FUTEBOL


A SELEÇÃO NACIONAL REPRESENTA MAIS DO QUE FUTEBOL
HÁ CAMISOLAS QUE NÃO SE VESTEM, HABITAM-SE!



É minha convicção de que a nossa Seleção Nacional é muito mais do que uma equipa de futebol.

É um dos raros momentos em que um país inteiro, se une e reconhece num patriotismo comovedor. Durante noventa minutos desaparecem diferenças políticas, sociais, profissionais ou geográficas. Somos apenas portugueses. Sofremos juntos, vibramos juntos e sonhamos juntos. É por isso que continuo a acreditar que o Selecionador Nacional deveria ser Português. Não porque um treinador estrangeiro seja menos competente. O profissionalismo, a experiência e a qualidade não têm nacionalidade. Nunca colocarei isso em causa. Mas há algo que não se aprende nos cursos de treinadores, não se estuda nos livros nem se adquire ao longo de uma carreira internacional. Chama-se pertença.

É crescer a ouvir o Hino Nacional e sentir um arrepio antes mesmo da última nota terminar. É conhecer o significado das quinas muito antes de compreender um sistema tático. É perceber que aquela camisola não é apenas um equipamento desportivo. É um símbolo construído ao longo de séculos de história, de coragem, de sacrifício e de esperança. Um símbolo que transporta a memória de um povo e a identidade de uma Nação.

Quando Portugal entra em campo, não entram apenas onze jogadores. Entram as conquistas que nos fizeram acreditar. Entram as derrotas que nos ensinaram a reerguer-nos. Entram os sonhos das crianças que imaginam, um dia, vestir aquela camisola. Entram os milhões de portugueses espalhados pelo mundo que, durante noventa minutos, regressam simbolicamente à sua terra, unidos pela mesma bandeira. E aquelas “Quinas” têm um significado único e um “peso” enorme!

Hoje, diante da Espanha, esse simbolismo ganha uma intensidade particular.

Pergunto-me se quem não nasceu português conseguirá sentir, na sua plenitude, o peso silencioso daquele instante em que o Hino termina, o estádio mergulha num breve silêncio e os jogadores pousam a mão sobre o peito onde repousam as quinas. Conseguirá sentir que, naquele momento, já não representa apenas uma equipa, mas séculos de história, de cultura, de memória coletiva e de orgulho nacional? Talvez sim!

Talvez o profissionalismo permita compreender uma parte desse sentimento. Mas continuo convencido de que há emoções que não se contratam. Há memórias que não se importam. Há símbolos que não se explicam. Vivem-se!

Portugal tem formado alguns dos melhores treinadores do mundo. Homens que, com competência e mérito, conquistaram o respeito do futebol internacional e elevaram o nome do nosso país aos maiores palcos. Por isso, continuo a acreditar que a liderança da nossa Seleção deveria, sempre que possível, ser confiada a um treinador português. Não por uma questão de exclusividade ou de nacionalidade, mas porque a representação de um país ultrapassa a dimensão técnica. Exige uma ligação íntima à sua história, aos seus símbolos, às suas vitórias e às suas cicatrizes.

A Seleção Nacional é um dos poucos espaços onde um país inteiro se reencontra. Nela cabem os que vivem em Trás-os-Montes e no Algarve, nas ilhas e no continente, mas também os milhões de portugueses espalhados pelo mundo. Durante noventa minutos, todos vestem a mesma camisola, cantam o mesmo Hino e reconhecem-se na mesma bandeira. É esta dimensão humana e simbólica que torna a função de Selecionador Nacional diferente de qualquer outro cargo no futebol.


Porque um Selecionador pode preparar um jogo durante semanas. Mas um português prepara-se para representar Portugal durante uma vida inteira.

Humberto Domingues
H. D. 2026.07.06

quinta-feira, 2 de julho de 2026

O CALOR EXCESSIVO CAUSA DANOS

O CALOR EXCESSIVO CAUSA DANOS

Fonte da Imagem: Elaboração própria com IA

Portugal atravessa um período de temperaturas muito elevadas, com impactos significativos na saúde da população. Apesar dos sucessivos alertas emitidos pelas autoridades de saúde, importa recordar que a prevenção continua a ser a medida mais eficaz para reduzir os riscos associados ao calor extremo.

As temperaturas elevadas podem provocar desidratação, exaustão pelo calor, insolação, queimaduras solares e agravar doenças cardiovasculares, respiratórias, renais e outras patologias crónicas, sobretudo nas pessoas mais vulneráveis.

Crianças, idosos, grávidas, pessoas com doença crónica, trabalhadores expostos ao exterior e cidadãos em situação de maior fragilidade devem adoptar medidas de protecção acrescidas.

Beba água regularmente, mesmo sem sentir sede. Evite bebidas alcoólicas e o consumo excessivo de bebidas açucaradas. Procure permanecer em locais frescos e bem ventilados, evitando a exposição solar entre as horas de maior calor. Utilize roupa leve e clara, chapéu, óculos de sol e protector solar adequado. Privilegie refeições ligeiras, ricas em fruta e legumes frescos.

Se possível, realize caminhadas, pratique actividade física ou frequente espaços ao ar livre apenas nas primeiras horas da manhã ou ao final da tarde, quando a temperatura é mais amena.

A prevenção também se faz com solidariedade. Contacte familiares, vizinhos ou amigos idosos que vivam sozinhos ou pessoas particularmente vulneráveis, certificando-se de que se encontram bem hidratados e protegidos do calor.

O calor extremo pode ser perigoso, mas muitos dos seus efeitos são evitáveis. Pequenos gestos de prevenção podem fazer uma grande diferença na protecção da saúde e, em muitas situações, salvar vidas.

Humberto Domingues
Enf. Espec. Saúde Comunitária e Saúde Pública
Mestre em Sociologia da Saúde
2026.07.02

O Autor escreve de acordo com o antigo acordo ortográfico.

segunda-feira, 29 de junho de 2026

CONVIVIO DE S. PEDRO DE VARAIS VOLTOU A UNIR COMUNIDADE

Convívio de S. Pedro de Varais voltou a unir a comunidade
em torno da história, da fé e da tradição



A Capela de S. Pedro de Varais voltou a ser, neste fim-de-semana, o coração de um dos mais belos momentos de convívio da Freguesia de Vile. Cerca de cinco dezenas de pessoas envergando uma camisola estampada com a data e a Capela, oferecida pela Junta de Freguesia presidida pela Dª. Marina Coelho, aceitaram o desafio da tradicional caminhada monte acima, para chegar a este templo de origem românica, classificado, datado dos finais do século XII e inícios do século XIII, onde a natureza, a memória e a espiritualidade se encontram num cenário de rara beleza, com vistas sobre o Vale do Âncora e o Oceano.


Já na noite de sábado, a Capela Românica de S. Pedro de Varais acolheu um magnífico concerto de música clássica, integrado no Projecto Ecos do Património, numa inspirada fusão entre a interpretação musical contemporânea e a memória secular daquele templo românico. A música, amplificada pela sobriedade das suas pedras centenárias, transportou os presentes para um ambiente de rara beleza estética e espiritual, onde património, cultura e história se encontraram em perfeita harmonia.


A celebração da Eucaristia, presidida pelo Padre Manuel Joaquim, conferiu um profundo significado ao encontro. Na sua homilia, enquadrou as leituras e o Evangelho na figura de São Pedro, evocando igualmente a importância histórica desta antiga igreja, que durante algum tempo serviu as comunidades de Vile e de Azevedo, preservando um valioso património religioso e cultural que continua vivo na memória das populações.

Terminada a celebração, o recinto envolvente transformou-se num espaço de verdadeira confraternização. O aroma das sardinhas assadas, da broa caseira e do caldo verde, gentilmente oferecidos pela Junta de Freguesia, convidou todos a prolongar a festa à mesa. Não faltaram igualmente os diversos petiscos disponibilizados pelo “bar improvisado”, cuja receita reverte para as obras da Igreja Paroquial, num exemplo de solidariedade e participação comunitária.




Entre as iguarias mais apreciadas voltaram a destacar-se o já tradicional mel de S. Pedro de Varais e o licor de mel produzido pelo Sr. Bernardino, sabores genuínos da terra que adoçaram a tarde e reforçaram o espírito de hospitalidade que caracteriza este encontro.


A presença da Senhora Presidente da Câmara Municipal de Caminha, Liliana Silva, associou-se ao ambiente de proximidade vivido entre autarcas, população e visitantes, testemunhando a importância que iniciativas desta natureza assumem na preservação das tradições locais e na valorização do património histórico e humano do concelho.


Mais do que uma festa, o Convívio de S. Pedro de Varais voltou a demonstrar que as comunidades se fortalecem quando preservam as suas raízes, cultivam a amizade e celebram aquilo que as une, e que o sagrado e o profano podem caminhar lado a lado, em perfeita harmonia, quando a fé, a cultura, a gastronomia, a natureza e o sentido de comunidade se unem para celebrar a identidade de um povo.

Num mundo onde a fragmentação social tende a enfraquecer os laços de proximidade, encontros como este recordam-nos que a identidade de uma Comunidade constrói-se na partilha, na memória, na entreajuda e na celebração das suas raízes.

Em S. Pedro de Varais, o património não vive apenas nas pedras centenárias da Capela, vive sobretudo nas pessoas que, ano após ano, continuam a dar-lhe vida, significado e um renovado sentido de pertença Comunitária.

Que esta tradição continue, por muitos anos, a reunir gerações em torno da fé, do património e da amizade. Para o ano, se Deus quiser e São Pedro ajudar, voltar-nos-emos a encontrar.

Humberto Domingues
2026.06.29

sexta-feira, 26 de junho de 2026

QUANDO A SAÚDE REFLECTE O PAÍS QUE ESTAMOS A CONSTRUIR


QUANDO A SAÚDE REFLECTE O PAÍS QUE ESTAMOS A CONSTRUIR

Fonte da Imagem: Elaboração própria com apoio da IA

Portugal habituou-se a olhar para a saúde através dos números. O número de consultas realizadas, os tempos de espera, os utentes sem Médico de Família ou os índices de desempenho que ocupam regularmente o espaço público e o debate político, muitas vezes “politiqueiro”.

Os indicadores são indispensáveis. Permitem medir, comparar e identificar problemas. Contudo, existe um risco quando os números passam a substituir a compreensão da realidade que lhes dá origem. A saúde de uma população não se resume ao que é mensurável. É também o reflexo das condições sociais, económicas, demográficas e territoriais em que as pessoas vivem.


Nas últimas décadas, Portugal alcançou uma das suas maiores conquistas civilizacionais, que foi o aumento da esperança de vida. Vivemos mais anos, mas também convivemos com mais doença crónica, multimorbilidade e dependência, exigindo respostas de saúde cada vez mais complexas e continuadas.

Simultaneamente, o país transformou-se. A natalidade diminuiu, as famílias reduziram a sua dimensão, os movimentos migratórios alteraram a composição demográfica e a população continuou a concentrar-se no litoral. O resultado é um país marcado por fortes assimetrias territoriais. Nas áreas urbanas, os serviços públicos enfrentam uma procura crescente. No interior, o envelhecimento, a desertificação humana e a escassez de recursos dificultam o acesso aos cuidados. Em ambos os casos, a saúde reflecte os efeitos destas transformações.

Portugal ultrapassou os onze milhões de residentes. Porém, o crescimento demográfico não foi acompanhado pelo mesmo crescimento dos recursos humanos, das infra-estruturas e da capacidade de resposta dos serviços públicos. Independentemente das leituras políticas que possam ser feitas sobre esta realidade, quando a população aumenta sem o correspondente reforço dos serviços essenciais, surgem inevitavelmente constrangimentos de acesso, sobrecarga assistencial e dificuldades de resposta. A saúde constitui hoje uma das expressões mais evidentes desse desfasamento.

Paradoxalmente, depois de décadas marcadas pela preocupação com o envelhecimento e a perda de população, Portugal confronta-se agora com um aumento demográfico que exige novas respostas de planeamento. O desafio já não é apenas travar o declínio populacional, mas garantir que o crescimento seja acompanhado por serviços públicos capazes de responder às necessidades de uma sociedade mais numerosa, mais envelhecida e socialmente mais complexa.

Neste contexto, as Unidades de Saúde Familiar (USF) e a Unidades de Cuidados na Comunidade (UCC) assumem uma importância estratégica. Representam muito mais do que uma resposta organizacional. Constituem um dos pilares da proximidade, da continuidade de cuidados, da prevenção da doença, da promoção da saúde e da equidade no acesso aos cuidados de saúde. Quando essa referência não existe, perde-se capacidade de intervenção precoce, de vigilância, de acompanhamento continuado e de gestão adequada da doença ao longo do ciclo de vida.

Mas a acessibilidade não depende apenas da existência de serviços. Depende também da capacidade efectiva dos Cidadãos para lhes acederem. Para muitos idosos do interior, com mobilidade reduzida, transportes escassos e redes familiares fragilizadas, uma consulta pode representar um obstáculo significativo. A distância geográfica continua a ser uma forma silenciosa de desigualdade social.

A esta realidade junta-se um fenómeno crescente: a solidão. Muitos dos problemas que chegam aos serviços de saúde não são exclusivamente clínicos. Resultam também do isolamento, da fragilidade económica, da ausência de suporte familiar e da perda de integração comunitária, da perda de autonomia.

Por isso, discutir saúde é discutir muito mais do que hospitais, centros de saúde ou listas de espera. É discutir envelhecimento, coesão territorial, mobilidade, imigração, desenvolvimento regional e sustentabilidade do Estado Social. Os desafios actuais exigem uma visão que ultrapasse ciclos eleitorais e divergências partidárias. As transformações demográficas e sociais não obedecem ao calendário político. Exigem planeamento, estabilidade estratégica e consensos duradouros.

A questão essencial não é apenas quantos actos foram realizados ou quantos indicadores foram cumpridos. A verdadeira questão é saber se estamos a planear um país capaz de cuidar das pessoas ao longo de toda a vida, independentemente da idade, condição económica ou local de residência. Porque a robustez de um sistema de saúde não se mede apenas pelos relatórios que produz. Mede-se pela capacidade de antecipar necessidades, garantir proximidade a quem vive longe, acompanhamento a quem envelhece e dignidade a quem mais necessita.

No fundo, a saúde continua a ser um dos mais fiéis espelhos da Sociedade que somos e da Sociedade que aspiramos deixar às gerações futuras.

Humberto Domingues
Enf. Espec. Saúde Comunitária
Mestre em Sociologia da Saúde
26 de Junho de 2026

O Autor escreve de acordo com o antigo acordo ortográfico.

sexta-feira, 19 de junho de 2026

ENTRE SENADORES E REFORMADORES A SABEDORIA DA EXPERIÊNCIA, A ENERGIA DA JUVENTUDE (uma reflexão)

ENTRE SENADORES E REFORMADORES 
A SABEDORIA DA EXPERIÊNCIA, A ENERGIA DA JUVENTUDE
(uma reflexão)


Ao longo dos anos temos reflectido sobre a importância das diferentes gerações que coexistem nas organizações, particularmente nos serviços de saúde. Não apenas enquanto soma de profissionais com idades distintas, mas enquanto património humano que transporta visões, competências e experiências complementares. 

Existem os profissionais mais jovens, frequentemente movidos pela legítima vontade de inovar, transformar e acelerar mudanças. São portadores de novos conhecimentos, de novas linguagens tecnológicas e de uma saudável inquietação perante modelos instalados. E existem, igualmente, os profissionais mais experientes, aqueles que poderíamos designar simbolicamente por "senadores". Homens e mulheres que acumularam décadas de prática, enfrentaram múltiplas reformas organizacionais, acompanharam a evolução científica e desenvolveram aquilo que dificilmente se ensina numa sala de aula, o discernimento.

Existe, porém, uma questão adicional que merece reflexão. As sociedades contemporâneas parecem ter desenvolvido uma certa impaciência perante o tempo. Vivemos numa cultura da aceleração, onde a rapidez é frequentemente confundida com eficácia e onde os indicadores quantitativos tendem a adquirir uma relevância superior àquilo que efectivamente representam. Também as organizações de saúde não escapam a esta influência. Multiplicam-se métricas, objetivos, relatórios e sistemas de monitorização. Muitos deles são úteis e necessários. Contudo, quando a avaliação do desempenho se concentra excessivamente no que é facilmente mensurável, corre-se o risco de subvalorizar dimensões essenciais da prática profissional. Nem tudo o que conta pode ser contado.

A experiência de um profissional sénior raramente se expressa apenas em números. Manifesta-se na capacidade de antecipar complicações, de reconhecer sinais subtis de agravamento clínico, de gerir conflitos, de apoiar equipas em momentos críticos e de evitar erros que nunca chegarão a constar de qualquer estatística. Paradoxalmente, quanto mais experiente é um profissional, mais invisível tende a ser uma parte significativa do seu contributo. O erro evitado não entra nos indicadores. O conflito prevenido não aparece nos relatórios. A decisão prudente que impede uma complicação futura, dificilmente será contabilizada nos sistemas de avaliação. É por isso que a produtividade não pode ser analisada exclusivamente através da quantidade produzida.

A experiência não é uma mera acumulação cronológica de anos. É uma forma de conhecimento. Um conhecimento construído através da observação, da reflexão, do erro, da correção e da maturação profissional. É uma inteligência prudencial que permite distinguir o urgente do importante, o ruído do essencial, a moda passageira da verdadeira inovação.

As organizações mais maduras compreendem que a juventude e a experiência não competem. Complementam-se. Mas existe um terceiro elemento que raramente recebe a atenção que merece, a comunicação.

Na saúde, a comunicação não constitui uma competência acessória. É uma competência clínica, organizacional e estratégica. A comunicação é o mecanismo através do qual o conhecimento circula, as equipas cooperam, as lideranças mobilizam e os cidadãos confiam. Sem comunicação, a experiência dos senadores transforma-se em conhecimento perdido. Sem comunicação, o entusiasmo dos mais jovens converte-se em frustração. Sem comunicação, as hierarquias deixam de ser estruturas de coordenação para se tornarem meras estruturas de poder.

Uma organização verdadeiramente madura não mede apenas o que os seus profissionais produzem. Mede também os problemas que conseguem evitar, os conhecimentos que transmitem e a confiança que inspiram. Porque quando a sabedoria da experiência encontra a energia da juventude, mediadas por uma comunicação de qualidade e por lideranças legítimas, deixa de existir conflito entre passado e futuro. Passa a existir progresso!

Humberto Domingues
Enf. Espec. Saúde Comunitária
Mestre em Sociologia da Saúde
2026.06.19

O Autor escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico

terça-feira, 16 de junho de 2026

CUIDAR DE QUEM CUIDA: QUANDO A EXAUSTÃO DOS PROFISSIONAIS SE TORNA UM PROBLEMA DOS CIDADÃOS

CUIDAR DE QUEM CUIDA - QUANDO A EXAUSTÃO DOS PROFISSIONAIS 
SE TORNA UM PROBLEMA DOS CIDADÃOS

Fonte da Imagem: Ordem dos Enfermeiros

Há uma pergunta que o país continua a evitar: quem cuida dos profissionais que diariamente cuidam de todos nós?
Durante anos, a discussão sobre a saúde mental dos profissionais de saúde foi remetida para a esfera individual. Falou-se de resiliência, de adaptação, de capacidade de lidar com a pressão. Como se a exaustão fosse apenas uma fragilidade pessoal e não a consequência previsível de sistemas organizacionais submetidos a uma pressão permanente.

Mas a realidade é mais dura e mais incómoda. Os profissionais de saúde, particularmente os Enfermeiros, trabalham diariamente na fronteira entre a vida e a morte, entre a esperança e o sofrimento, entre a recuperação e a perda. São confrontados com a dor humana numa intensidade que poucos contextos profissionais conhecem.

Todavia, a exigência emocional inerente ao cuidar deixou de ser o único desafio. Hoje, muitos profissionais enfrentam equipas insuficientes, horários desajustados, sobrecarga assistencial, exigências burocráticas crescentes e uma escassez persistente de recursos humanos. Em muitos serviços, o esforço extraordinário transformou-se numa normalidade organizacional. Quando isto acontece, a exaustão deixa de ser uma possibilidade e transforma-se numa inevitabilidade. Importa dizê-lo com frontalidade, profissionais exaustos não constituem apenas um problema laboral, constituem um problema de saúde pública. E a escassez de recursos humanos não é apenas um problema de gestão, mas também um problema de justiça social. Quando um profissional dispõe de menos tempo para cuidar, o cidadão recebe menos atenção, menos relação terapêutica e, muitas vezes, menos dignidade no processo de cuidar.

A fadiga física e emocional diminui a capacidade de concentração, compromete a tomada de decisão, fragiliza a comunicação entre equipas e aumenta a probabilidade de falhas. Não porque os profissionais sejam menos competentes, mas porque nenhum ser humano consegue manter indefinidamente elevados níveis de desempenho sob condições de desgaste permanente. E quando falamos de falhas em saúde, falamos de pessoas. Falamos do cidadão que espera uma resposta atempada. Falamos do doente que necessita de vigilância permanente. Falamos da família que deposita confiança nos profissionais e nas instituições.

A qualidade dos cuidados não depende apenas da competência técnica. Depende também do tempo disponível para cuidar, da atenção dedicada ao doente, da capacidade de escutar, de observar, de comunicar e de decidir. Quando os recursos humanos são insuficientes, o primeiro impacto nem sempre é visível nas estatísticas. Surge silenciosamente na redução do tempo disponível para cada pessoa, na deterioração da relação terapêutica, no aumento da tensão das equipas e no desgaste emocional dos profissionais.

Mais cedo ou mais tarde, porém, o sistema acaba por “pagar essa factura”. Por isso, o burnout não pode continuar a ser interpretado como uma falha individual, trata-se de um indicador organizacional e político. É frequentemente o sintoma de estruturas incapazes de assegurar condições adequadas para o exercício profissional.

Da mesma forma que uma ponte degradada denuncia uma falha estrutural e falta de investimento público, uma equipa sistematicamente exausta denuncia insuficiências de planeamento, gestão e decisão política. Esta é uma matéria que exige coragem. Exige coragem das lideranças para reconhecer que a sustentabilidade das organizações depende das pessoas. Exige coragem dos gestores para colocar o capital humano no centro das decisões. E exige coragem dos decisores políticos para compreender que investir em profissionais não é uma despesa, é uma condição de segurança, qualidade e sustentabilidade do próprio sistema de saúde.

A evidência científica é clara, organizações com lideranças humanizadas, dotações seguras, ambientes psicologicamente protegidos e culturas de reconhecimento apresentam melhores resultados clínicos, maior segurança dos cuidados, menor rotatividade e maior satisfação dos cidadãos. Humanizar as organizações não é diminuir a exigência, é criar condições para que a excelência seja possível.

Talvez tenha chegado o momento de compreendermos que a saúde mental dos profissionais não é uma reivindicação corporativa. É uma questão ética, social e política, porque quando um profissional adoece, todos perdemos. Mas quando um sistema normaliza a exaustão daqueles que cuidam, coloca em risco algo ainda mais valioso que é a confiança dos cidadãos na capacidade de serem cuidados com segurança, dignidade e qualidade.

Cuidar de quem cuida não é um acto de benevolência institucional. É uma responsabilidade estratégica! É uma exigência moral! E é, acima de tudo, uma escolha civilizacional.

Humberto Domingues
Enf. Espec. Saúde Comunitária
Mestre em Sociologia da Saúde
Autor de reflexão crítica sobre políticas públicas, Saúde e Sociedade
2026.06.16

O Autor escreve de acordo com o antigo acordo ortográfico.

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