quarta-feira, 29 de julho de 2026

QUANDO O EXEMPLO DEIXA DE GOVERNAR

QUANDO O EXEMPLO DEIXA DE GOVERNAR

A autoridade política é um recurso escasso. Sempre que é consumida na justificação do passado, deixa de estar disponível para construir o futuro.

Fonte da Imagem: Elaboração própria com ajuda da IA

Uma democracia não se degrada apenas quando as leis deixam de existir. Degrada-se, de forma mais subtil e talvez mais perigosa, quando as leis continuam escritas, mas a exigência do seu cumprimento parece depender de quem as viola.

Ao cidadão comum, o Estado exige rigor. Os prazos cumprem-se, as obrigações fiscais declaram-se e o incumprimento tem consequências, sob a forma de coimas, juros ou outras sanções. É assim que deve ser. Um Estado de Direito vive da previsibilidade das regras e da igualdade da sua aplicação.

O problema começa quando os cidadãos percepcionam que essa exigência deixa de ser simétrica para quem exerce funções públicas. Independentemente de pessoas ou partidos, a repetição de omissões, justificações tardias ou interpretações convenientes das normas produz um efeito particularmente corrosivo. A excepção deixa de ser entendida como excepção e começa a ser aceite como uma característica inevitável da vida política.

A Sociologia descreve este fenómeno como normalização do desvio. Com o tempo, comportamentos inicialmente considerados inaceitáveis deixam de provocar indignação e passam a ser recebidos com resignação. O extraordinário torna-se banal. E esse é, talvez, o maior perigo para uma democracia.

Quem exerce funções públicas não beneficia de uma exigência ética menor. Beneficia, precisamente, da obrigação contrária. O poder democrático não confere privilégios morais. Impõe deveres acrescidos de transparência, coerência e responsabilidade. Por isso, a questão verdadeiramente importante não consiste apenas em saber se um determinado comportamento é juridicamente admissível. Consiste em perguntar se seria socialmente tolerado caso tivesse sido praticado por qualquer cidadão. Quando essa resposta é negativa, instala-se uma fractura entre governantes e governados.

A confiança institucional enfraquece, porque cresce a percepção de que existem dois padrões de responsabilidade. Um para quem governa. Outro para quem é governado.

Subsiste ainda uma consequência menos discutida, mas igualmente relevante. Sempre que um titular de funções públicas se vê confrontado com sucessivas controvérsias relacionadas com a sua conduta, uma parte significativa da agenda política deixa de ser ocupada pela governação para passar a ser consumida por esclarecimentos, justificações e gestão de danos relativos à sua reputação.

Esse tempo tem um custo institucional. A governação exige concentração estratégica, serenidade de julgamento e capacidade para decidir com distanciamento. Quando a agenda pública permanece dominada por sucessivos episódios que poderiam ter sido evitados através de uma cultura de maior rigor e transparência, reduz-se o espaço para aquilo que verdadeiramente se espera de quem governa: decidir, reformar e preparar o futuro.

Numa democracia madura, o escrutínio público não constitui um obstáculo à governação. Constitui uma garantia da sua qualidade. O problema surge quando esse escrutínio deixa de incidir sobre as políticas públicas e passa a concentrar-se, de forma recorrente, em comportamentos que fragilizam a credibilidade de quem exerce o poder. Nesse momento, não perde apenas o responsável político. Perde o Estado, perdem as instituições e perdem os cidadãos, que esperam dos seus representantes tempo, energia e discernimento dedicados ao interesse público.

Talvez alguns responsáveis políticos cometam um erro de avaliação ao subestimarem a inteligência dos cidadãos. Não é necessário dominar o Direito ou a Ciência Política para reconhecer incoerências. O bom senso continua a ser uma das mais sólidas formas de inteligência cívica. Depois, surpreendem-se quando aumenta a desconfiança nas instituições ou quando o voto procura novos rumos. Porém, esse comportamento eleitoral raramente nasce do acaso. É, muitas vezes, a expressão de uma confiança progressivamente desgastada.

As democracias não se fragilizam apenas por grandes ruturas constitucionais. Enfraquecem, lentamente, sempre que pequenas cedências éticas passam a ser toleradas como se fossem inevitáveis. A autoridade política não se sustenta apenas na legitimidade eleitoral. Sustenta-se, sobretudo, na legitimidade moral do exemplo.

As instituições não começam a morrer quando deixam de aplicar a lei. Começam a morrer quando os cidadãos deixam de acreditar que ela é aplicada com a mesma exigência para todos. Nesse momento, não se dissolve apenas a confiança. Começa a dissolver-se a própria legitimidade democrática.

Humberto Domingues
Enf. Espec. Saúde Comunitária e Saúde Pública
Mestre em Sociologia da Saúde
2026.07.29

O Autor escreve segundo o antigo acordo ortográfico

terça-feira, 21 de julho de 2026

A PRONTIDÃO DO PRESIDENTE DA REPÚBLICA E A ESPUMA DOS DIAS

A PRONTIDÃO DO PRESIDENTE DA REPÚBLICA E A ESPUMA DOS DIAS

Fonte da Imagem: Jornal OBSERVADOR

Na Ciência Política e na Sociologia da Comunicação sabemos que as palavras não são apenas instrumentos de descrição. São também instrumentos de construção da realidade.

Foi por isso que me causou alguma perplexidade a utilização da expressão "prontidão" para caracterizar a disponibilidade do Presidente da República perante os problemas registados na divulgação das classificações dos exames nacionais ou da questão do Ministro da Administração Interna.

"Prontidão" é um conceito associado, tradicionalmente, ao universo militar e da proteção civil, reservado para cenários de guerra, catástrofe ou outras situações de excecional gravidade. A ocorrência em causa exigia acompanhamento institucional e resposta política, mas não justificava, pela sua natureza, uma linguagem de excepção e magnitude.

Quando a comunicação institucional adota vocábulos cuja carga simbólica excede a dimensão objetiva dos acontecimentos, corre o risco de transformar uma falha administrativa numa narrativa de emergência. A credibilidade das instituições também se mede pela proporcionalidade entre os factos e as palavras que escolhem para os representar.

Humberto Domingues
2026.07.21

segunda-feira, 20 de julho de 2026

PRECISAMOS DE ENFERMEIROS AO LEME DAS DECISÕES ESTRATÉGICAS DA SAÚDE


PRECISAMOS DE ENFERMEIROS AO LEME 
DAS DECISÕES ESTRATÉGICAS DA SAÚDE

Fonte da Imagem: Elaboração própria com ajuda IA

A saúde enfrenta desafios cada vez mais complexos. O envelhecimento da população, o aumento das doenças crónicas, a escassez de recursos, a crescente diversidade cultural decorrente dos fluxos migratórios e as expectativas cada vez mais elevadas dos cidadãos exigem novas formas de liderança. Continuar a tomar decisões estratégicas afastadas da realidade dos cuidados constitui um erro que os sistemas de saúde já não podem permitir-se.
Os Enfermeiros ocupam uma posição singular. Estão presentes ao longo de todo o ciclo de vida das pessoas, acompanham famílias, intervêm nas comunidades, conhecem os serviços e compreendem as dificuldades quotidianas dos profissionais e dos cidadãos. Poucos detêm uma visão tão abrangente do funcionamento do sistema de saúde. Quando as estratégias são concebidas longe do terreno, tendem a falhar na implementação, gerando desperdício de recursos, desmotivação das equipas e perda de valor para os cidadãos.
É precisamente por isso que a participação dos Enfermeiros nos processos de decisão estratégica deve ser entendida como uma necessidade e não como uma reivindicação corporativa. Trata-se de uma opção racional, sustentada pela evidência científica e pela experiência acumulada dos sistemas de saúde mais evoluídos. Integrar Enfermeiros na governação significa aproximar a estratégia da realidade, incorporar a dimensão comunitária nas políticas públicas, reforçar a ligação aos territórios e produzir melhores resultados em saúde.

A literatura internacional e organismos como a Organização Mundial da Saúde têm evidenciado que as organizações onde a liderança de Enfermagem participa activamente nos processos de governação tendem a apresentar melhores indicadores de segurança do doente, maior qualidade assistencial, equipas mais coesas e uma utilização mais eficiente dos recursos disponíveis. Não se trata apenas de gerir melhor. Trata-se de criar mais valor em saúde.

Num contexto em que a sustentabilidade do Serviço Nacional de Saúde depende cada vez mais da prevenção, da gestão da doença crónica, da integração de cuidados e da redução das desigualdades em saúde, torna-se evidente que o actual modelo de governação precisa de evoluir. Governar a saúde já não pode significar apenas administrar hospitais, unidades locais de saúde ou centros de saúde. Significa conhecer profundamente os territórios, compreender os determinantes sociais da saúde, mobilizar recursos locais e construir respostas integradas entre os serviços de saúde, as autarquias, a educação, a segurança social, as empresas, o movimento associativo e a sociedade civil.

O futuro do SNS poderá passar por um modelo que poderíamos designar por uma Governação Territorial da Saúde, onde as decisões estratégicas são construídas a partir das necessidades reais das populações e não exclusivamente da gestão das instituições. A qualidade da governação medir-se-á cada vez menos pela capacidade de administrar estruturas e cada vez mais pela capacidade de produzir ganhos efectivos em saúde, promover equidade, reforçar a prevenção e criar valor para os cidadãos.

É neste paradigma que os Enfermeiros assumem uma posição particularmente diferenciadora. A sua intervenção desenvolve-se exactamente onde a saúde é produzida, nas famílias, nas escolas, nas comunidades, nos locais de trabalho e nos cuidados de proximidade. A experiência acumulada nesta interface entre cidadãos, serviços e territórios confere-lhes uma visão sistémica rara, capaz de integrar conhecimento clínico, gestão organizacional, coordenação de equipas, intervenção comunitária e avaliação de resultados.

Distinguem-se igualmente pela capacidade de estabelecer uma ponte permanente entre o Serviço Nacional de Saúde e a comunidade, traduzindo conhecimento técnico em decisões compreensíveis, mobilizadoras e orientadas para a melhoria dos resultados. Num tempo em que a literacia em saúde constitui um dos principais determinantes da participação dos cidadãos, esta competência comunicacional representa um activo estratégico de enorme relevância.

Os ganhos são evidentes. Melhor prevenção da doença, maior adesão terapêutica, redução de internamentos evitáveis, menor pressão sobre os serviços de urgência, cidadãos mais autónomos, melhor utilização dos recursos públicos e melhores resultados em saúde. Simultaneamente, a presença de Enfermeiros nos centros de decisão enriquece o desenho das políticas públicas, reforça a avaliação dos programas de saúde e aproxima a governação das necessidades efectivas das populações.

Num sistema onde cada decisão influencia a vida das pessoas e a sustentabilidade das instituições, liderar exige conhecimento clínico, visão estratégica, capacidade de gestão e profundo entendimento das comunidades. Os Enfermeiros reúnem estas competências. Não são apenas gestores de cuidados, são profissionais preparados para liderar sistemas, integrar políticas públicas e contribuir para uma governação mais próxima dos cidadãos, mais eficiente e mais orientada para a criação de valor em saúde.

O futuro da saúde não dependerá apenas da capacidade de tratar mais doença, dependerá, sobretudo, da capacidade de produzir mais saúde. Essa transformação exige uma governação territorial, integrada e de parcerias, onde a prevenção, a proximidade e a articulação entre sectores assumem um papel central. Neste novo paradigma, os Enfermeiros não representam apenas uma profissão indispensável, mas um recurso estratégico para a governação da saúde.

Quem conhece o mar, o navio e as pessoas que nele viajam reúne condições ímpares para ajudar a escolher o rumo. É por isso que os Enfermeiros devem estar ao leme das decisões estratégicas da saúde.

Humberto Domingues
Enf. Espec. em Saúde Comunitária e Saúde Pública
Mestre em Sociologia da Saúde
2026.07.16

O Autor escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico.

quarta-feira, 8 de julho de 2026

O FUTEBOL COMO FENÓMENO SOCIAL E EXTRAORDINÁRIA INDÚSTRIA DAS EMOÇÕES

O FUTEBOL COMO FENÓMENO SOCIAL E 

EXTRAORDINÁRIA INDÚSTRIA DAS EMOÇÕES

Fonte da Imagem: Instagram

Há muito que o futebol deixou de ser apenas um desporto. Hoje, constitui um dos mais poderosos fenómenos sociais, culturais, económicos e políticos do nosso tempo. Poucas atividades humanas conseguem mobilizar, em simultâneo, centenas de milhões de pessoas, movimentar milhares de milhões de euros ou dólares, envolver governos, grandes empresas, meios de comunicação social e plataformas digitais, enquanto despertam emoções de uma intensidade raramente observada noutros domínios da vida coletiva.

Noventa minutos de jogo conseguem suspender rotinas, alterar estados de espírito, influenciar conversas, condicionar agendas mediáticas e até fazer esquecer, ainda que por instantes, crises económicas, conflitos internacionais ou problemas pessoais. O futebol tornou-se uma linguagem universal, compreendida em praticamente todos os continentes, independentemente da língua, da cultura ou da condição social.

A sua transformação nas últimas décadas é extraordinária. O que começou como uma prática desportiva evoluiu para uma verdadeira indústria global. Os clubes assumem hoje uma dimensão empresarial comparável à de grandes multinacionais. Os jogadores deixaram de ser apenas atletas para se tornarem marcas internacionais, influenciadores e embaixadores de produtos, enquanto os contratos televisivos, os direitos de imagem, o merchandising, os patrocínios, as apostas desportivas e as plataformas digitais alimentam uma economia que movimenta milhares de milhões de euros todos os anos.

Também a tecnologia passou a integrar este universo. Sistemas de vídeo-arbitragem, análise de desempenho através de inteligência artificial, monitorização biométrica dos atletas, estatísticas em tempo real, sensores, algoritmos preditivos e modelos avançados de análise transformaram profundamente a forma como o jogo é preparado, arbitrado e interpretado. A procura permanente de maior rigor e justiça competitiva demonstra como o futebol acompanha a evolução científica e tecnológica da própria sociedade.

Mas talvez o mais fascinante não seja a dimensão económica nem a sofisticação tecnológica. O verdadeiro fenómeno reside nas pessoas.

Milhares de adeptos percorrem centenas de quilómetros para acompanhar o seu clube. Outros organizam a vida familiar em função dos calendários competitivos. Há quem reserve parte significativa do orçamento mensal para quotas, lugares anuais, bilhetes, equipamentos oficiais, deslocações e canais televisivos. Para muitos, esta opção representa uma escolha consciente e legítima. Para outros, porém, a intensidade da ligação emocional pode conduzir a sacrifícios financeiros que ultrapassam a simples prática de lazer, revelando como a identidade clubística se torna parte integrante da própria identidade pessoal.

Nos estádios vive-se uma experiência humana singular. Desconhecidos abraçam-se após um golo. Sofrem em simultâneo perante um penálti. Cantam, celebram, choram e partilham emoções com uma intensidade que dificilmente encontra paralelo noutros espaços públicos. O estádio transforma-se num lugar de pertença, onde o indivíduo deixa de ser apenas um espectador para integrar uma comunidade emocional unida pelos mesmos símbolos, pelas mesmas cores e pela mesma esperança.

Esta extraordinária capacidade mobilizadora nunca passou despercebida ao poder político. Presidentes da República, chefes de Governo, ministros, autarcas e outras figuras institucionais fazem questão de marcar presença nas grandes finais nacionais e internacionais. Não se trata apenas de gosto pessoal pelo desporto. O futebol constitui hoje um dos maiores palcos de comunicação pública, de afirmação institucional e de proximidade simbólica com os cidadãos. A sua capacidade para unir um país em torno de uma seleção nacional ou de um grande acontecimento desportivo faz dele um espaço privilegiado de construção de identidade coletiva.

Talvez seja precisamente aqui que emerge a questão mais interessante. Porque consegue o futebol mobilizar tamanha energia social, emocional e económica, enquanto áreas igualmente determinantes para o futuro coletivo, como a educação, a saúde, a ciência ou a cultura, raramente despertam semelhante entusiasmo?

A resposta dificilmente será simples. O futebol oferece pertença, identidade, emoção, narrativa, esperança, competição, reconhecimento e memória. Em noventa minutos concentra muitas das emoções fundamentais da experiência humana. É um espelho onde cada sociedade acaba por projetar os seus valores, as suas paixões, as suas desigualdades, os seus sonhos e até as suas contradições.

A Sociologia ajuda-nos a compreender este fenómeno. Émile Durkheim demonstrou que as sociedades necessitam de rituais que reforcem a coesão social. O futebol tornou-se um desses grandes rituais modernos. Por seu lado, Johan Huizinga recordava, em Homo Ludens, que o jogo não é um simples passatempo, mas uma dimensão fundadora da própria civilização. Talvez por isso o futebol continue a mobilizar tão profundamente o ser humano.

Por isso, compreender o futebol é compreender muito mais do que um jogo. É compreender uma parte significativa da sociedade contemporânea, das suas prioridades, dos seus mecanismos de mobilização coletiva e da forma como, em pleno século XXI, continuamos a procurar lugares onde possamos sentir que pertencemos a algo maior do que nós próprios.

Humberto Domingues
Enf. Espec. Enfermagem Comunitária e Saúde Pública
Mestre em Sociologia da Saúde
2026.06.07

O Autor escreve segundo o antigo Acordo Ortográfico

segunda-feira, 6 de julho de 2026

A SELEÇÃO NACIONAL REPRESENTA MAIS DO QUE FUTEBOL


A SELEÇÃO NACIONAL REPRESENTA MAIS DO QUE FUTEBOL
HÁ CAMISOLAS QUE NÃO SE VESTEM, HABITAM-SE!



É minha convicção de que a nossa Seleção Nacional é muito mais do que uma equipa de futebol.

É um dos raros momentos em que um país inteiro, se une e reconhece num patriotismo comovedor. Durante noventa minutos desaparecem diferenças políticas, sociais, profissionais ou geográficas. Somos apenas portugueses. Sofremos juntos, vibramos juntos e sonhamos juntos. É por isso que continuo a acreditar que o Selecionador Nacional deveria ser Português. Não porque um treinador estrangeiro seja menos competente. O profissionalismo, a experiência e a qualidade não têm nacionalidade. Nunca colocarei isso em causa. Mas há algo que não se aprende nos cursos de treinadores, não se estuda nos livros nem se adquire ao longo de uma carreira internacional. Chama-se pertença.

É crescer a ouvir o Hino Nacional e sentir um arrepio antes mesmo da última nota terminar. É conhecer o significado das quinas muito antes de compreender um sistema tático. É perceber que aquela camisola não é apenas um equipamento desportivo. É um símbolo construído ao longo de séculos de história, de coragem, de sacrifício e de esperança. Um símbolo que transporta a memória de um povo e a identidade de uma Nação.

Quando Portugal entra em campo, não entram apenas onze jogadores. Entram as conquistas que nos fizeram acreditar. Entram as derrotas que nos ensinaram a reerguer-nos. Entram os sonhos das crianças que imaginam, um dia, vestir aquela camisola. Entram os milhões de portugueses espalhados pelo mundo que, durante noventa minutos, regressam simbolicamente à sua terra, unidos pela mesma bandeira. E aquelas “Quinas” têm um significado único e um “peso” enorme!

Hoje, diante da Espanha, esse simbolismo ganha uma intensidade particular.

Pergunto-me se quem não nasceu português conseguirá sentir, na sua plenitude, o peso silencioso daquele instante em que o Hino termina, o estádio mergulha num breve silêncio e os jogadores pousam a mão sobre o peito onde repousam as quinas. Conseguirá sentir que, naquele momento, já não representa apenas uma equipa, mas séculos de história, de cultura, de memória coletiva e de orgulho nacional? Talvez sim!

Talvez o profissionalismo permita compreender uma parte desse sentimento. Mas continuo convencido de que há emoções que não se contratam. Há memórias que não se importam. Há símbolos que não se explicam. Vivem-se!

Portugal tem formado alguns dos melhores treinadores do mundo. Homens que, com competência e mérito, conquistaram o respeito do futebol internacional e elevaram o nome do nosso país aos maiores palcos. Por isso, continuo a acreditar que a liderança da nossa Seleção deveria, sempre que possível, ser confiada a um treinador português. Não por uma questão de exclusividade ou de nacionalidade, mas porque a representação de um país ultrapassa a dimensão técnica. Exige uma ligação íntima à sua história, aos seus símbolos, às suas vitórias e às suas cicatrizes.

A Seleção Nacional é um dos poucos espaços onde um país inteiro se reencontra. Nela cabem os que vivem em Trás-os-Montes e no Algarve, nas ilhas e no continente, mas também os milhões de portugueses espalhados pelo mundo. Durante noventa minutos, todos vestem a mesma camisola, cantam o mesmo Hino e reconhecem-se na mesma bandeira. É esta dimensão humana e simbólica que torna a função de Selecionador Nacional diferente de qualquer outro cargo no futebol.


Porque um Selecionador pode preparar um jogo durante semanas. Mas um português prepara-se para representar Portugal durante uma vida inteira.

Humberto Domingues
H. D. 2026.07.06

quinta-feira, 2 de julho de 2026

O CALOR EXCESSIVO CAUSA DANOS

O CALOR EXCESSIVO CAUSA DANOS

Fonte da Imagem: Elaboração própria com IA

Portugal atravessa um período de temperaturas muito elevadas, com impactos significativos na saúde da população. Apesar dos sucessivos alertas emitidos pelas autoridades de saúde, importa recordar que a prevenção continua a ser a medida mais eficaz para reduzir os riscos associados ao calor extremo.

As temperaturas elevadas podem provocar desidratação, exaustão pelo calor, insolação, queimaduras solares e agravar doenças cardiovasculares, respiratórias, renais e outras patologias crónicas, sobretudo nas pessoas mais vulneráveis.

Crianças, idosos, grávidas, pessoas com doença crónica, trabalhadores expostos ao exterior e cidadãos em situação de maior fragilidade devem adoptar medidas de protecção acrescidas.

Beba água regularmente, mesmo sem sentir sede. Evite bebidas alcoólicas e o consumo excessivo de bebidas açucaradas. Procure permanecer em locais frescos e bem ventilados, evitando a exposição solar entre as horas de maior calor. Utilize roupa leve e clara, chapéu, óculos de sol e protector solar adequado. Privilegie refeições ligeiras, ricas em fruta e legumes frescos.

Se possível, realize caminhadas, pratique actividade física ou frequente espaços ao ar livre apenas nas primeiras horas da manhã ou ao final da tarde, quando a temperatura é mais amena.

A prevenção também se faz com solidariedade. Contacte familiares, vizinhos ou amigos idosos que vivam sozinhos ou pessoas particularmente vulneráveis, certificando-se de que se encontram bem hidratados e protegidos do calor.

O calor extremo pode ser perigoso, mas muitos dos seus efeitos são evitáveis. Pequenos gestos de prevenção podem fazer uma grande diferença na protecção da saúde e, em muitas situações, salvar vidas.

Humberto Domingues
Enf. Espec. Saúde Comunitária e Saúde Pública
Mestre em Sociologia da Saúde
2026.07.02

O Autor escreve de acordo com o antigo acordo ortográfico.

QUANDO O EXEMPLO DEIXA DE GOVERNAR

QUANDO O EXEMPLO DEIXA DE GOVERNAR A autoridade política é um recurso escasso. Sempre que é consumida na justificação do passado, deixa de e...