sexta-feira, 19 de junho de 2026

ENTRE SENADORES E REFORMADORES A SABEDORIA DA EXPERIÊNCIA, A ENERGIA DA JUVENTUDE (uma reflexão)

ENTRE SENADORES E REFORMADORES 
A SABEDORIA DA EXPERIÊNCIA, A ENERGIA DA JUVENTUDE
(uma reflexão)


Ao longo dos anos temos reflectido sobre a importância das diferentes gerações que coexistem nas organizações, particularmente nos serviços de saúde. Não apenas enquanto soma de profissionais com idades distintas, mas enquanto património humano que transporta visões, competências e experiências complementares. 

Existem os profissionais mais jovens, frequentemente movidos pela legítima vontade de inovar, transformar e acelerar mudanças. São portadores de novos conhecimentos, de novas linguagens tecnológicas e de uma saudável inquietação perante modelos instalados. E existem, igualmente, os profissionais mais experientes, aqueles que poderíamos designar simbolicamente por "senadores". Homens e mulheres que acumularam décadas de prática, enfrentaram múltiplas reformas organizacionais, acompanharam a evolução científica e desenvolveram aquilo que dificilmente se ensina numa sala de aula, o discernimento.

Existe, porém, uma questão adicional que merece reflexão. As sociedades contemporâneas parecem ter desenvolvido uma certa impaciência perante o tempo. Vivemos numa cultura da aceleração, onde a rapidez é frequentemente confundida com eficácia e onde os indicadores quantitativos tendem a adquirir uma relevância superior àquilo que efectivamente representam. Também as organizações de saúde não escapam a esta influência. Multiplicam-se métricas, objetivos, relatórios e sistemas de monitorização. Muitos deles são úteis e necessários. Contudo, quando a avaliação do desempenho se concentra excessivamente no que é facilmente mensurável, corre-se o risco de subvalorizar dimensões essenciais da prática profissional. Nem tudo o que conta pode ser contado.

A experiência de um profissional sénior raramente se expressa apenas em números. Manifesta-se na capacidade de antecipar complicações, de reconhecer sinais subtis de agravamento clínico, de gerir conflitos, de apoiar equipas em momentos críticos e de evitar erros que nunca chegarão a constar de qualquer estatística. Paradoxalmente, quanto mais experiente é um profissional, mais invisível tende a ser uma parte significativa do seu contributo. O erro evitado não entra nos indicadores. O conflito prevenido não aparece nos relatórios. A decisão prudente que impede uma complicação futura, dificilmente será contabilizada nos sistemas de avaliação. É por isso que a produtividade não pode ser analisada exclusivamente através da quantidade produzida.

A experiência não é uma mera acumulação cronológica de anos. É uma forma de conhecimento. Um conhecimento construído através da observação, da reflexão, do erro, da correção e da maturação profissional. É uma inteligência prudencial que permite distinguir o urgente do importante, o ruído do essencial, a moda passageira da verdadeira inovação.

As organizações mais maduras compreendem que a juventude e a experiência não competem. Complementam-se. Mas existe um terceiro elemento que raramente recebe a atenção que merece, a comunicação.

Na saúde, a comunicação não constitui uma competência acessória. É uma competência clínica, organizacional e estratégica. A comunicação é o mecanismo através do qual o conhecimento circula, as equipas cooperam, as lideranças mobilizam e os cidadãos confiam. Sem comunicação, a experiência dos senadores transforma-se em conhecimento perdido. Sem comunicação, o entusiasmo dos mais jovens converte-se em frustração. Sem comunicação, as hierarquias deixam de ser estruturas de coordenação para se tornarem meras estruturas de poder.

Uma organização verdadeiramente madura não mede apenas o que os seus profissionais produzem. Mede também os problemas que conseguem evitar, os conhecimentos que transmitem e a confiança que inspiram. Porque quando a sabedoria da experiência encontra a energia da juventude, mediadas por uma comunicação de qualidade e por lideranças legítimas, deixa de existir conflito entre passado e futuro. Passa a existir progresso!

Humberto Domingues
Enf. Espec. Saúde Comunitária
Mestre em Sociologia da Saúde
2026.06.19

O Autor escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico

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