segunda-feira, 29 de junho de 2026

CONVIVIO DE S. PEDRO DE VARAIS VOLTOU A UNIR COMUNIDADE

Convívio de S. Pedro de Varais voltou a unir a comunidade
em torno da história, da fé e da tradição



A Capela de S. Pedro de Varais voltou a ser, neste fim-de-semana, o coração de um dos mais belos momentos de convívio da Freguesia de Vile. Cerca de cinco dezenas de pessoas envergando uma camisola estampada com a data e a Capela, oferecida pela Junta de Freguesia presidida pela Dª. Marina Coelho, aceitaram o desafio da tradicional caminhada monte acima, para chegar a este templo de origem românica, classificado, datado dos finais do século XII e inícios do século XIII, onde a natureza, a memória e a espiritualidade se encontram num cenário de rara beleza, com vistas sobre o Vale do Âncora e o Oceano.


Já na noite de sábado, a Capela Românica de S. Pedro de Varais acolheu um magnífico concerto de música clássica, integrado no Projecto Ecos do Património, numa inspirada fusão entre a interpretação musical contemporânea e a memória secular daquele templo românico. A música, amplificada pela sobriedade das suas pedras centenárias, transportou os presentes para um ambiente de rara beleza estética e espiritual, onde património, cultura e história se encontraram em perfeita harmonia.


A celebração da Eucaristia, presidida pelo Padre Manuel Joaquim, conferiu um profundo significado ao encontro. Na sua homilia, enquadrou as leituras e o Evangelho na figura de São Pedro, evocando igualmente a importância histórica desta antiga igreja, que durante algum tempo serviu as comunidades de Vile e de Azevedo, preservando um valioso património religioso e cultural que continua vivo na memória das populações.

Terminada a celebração, o recinto envolvente transformou-se num espaço de verdadeira confraternização. O aroma das sardinhas assadas, da broa caseira e do caldo verde, gentilmente oferecidos pela Junta de Freguesia, convidou todos a prolongar a festa à mesa. Não faltaram igualmente os diversos petiscos disponibilizados pelo “bar improvisado”, cuja receita reverte para as obras da Igreja Paroquial, num exemplo de solidariedade e participação comunitária.




Entre as iguarias mais apreciadas voltaram a destacar-se o já tradicional mel de S. Pedro de Varais e o licor de mel produzido pelo Sr. Bernardino, sabores genuínos da terra que adoçaram a tarde e reforçaram o espírito de hospitalidade que caracteriza este encontro.


A presença da Senhora Presidente da Câmara Municipal de Caminha, Liliana Silva, associou-se ao ambiente de proximidade vivido entre autarcas, população e visitantes, testemunhando a importância que iniciativas desta natureza assumem na preservação das tradições locais e na valorização do património histórico e humano do concelho.


Mais do que uma festa, o Convívio de S. Pedro de Varais voltou a demonstrar que as comunidades se fortalecem quando preservam as suas raízes, cultivam a amizade e celebram aquilo que as une, e que o sagrado e o profano podem caminhar lado a lado, em perfeita harmonia, quando a fé, a cultura, a gastronomia, a natureza e o sentido de comunidade se unem para celebrar a identidade de um povo.

Num mundo onde a fragmentação social tende a enfraquecer os laços de proximidade, encontros como este recordam-nos que a identidade de uma Comunidade constrói-se na partilha, na memória, na entreajuda e na celebração das suas raízes.

Em S. Pedro de Varais, o património não vive apenas nas pedras centenárias da Capela, vive sobretudo nas pessoas que, ano após ano, continuam a dar-lhe vida, significado e um renovado sentido de pertença Comunitária.

Que esta tradição continue, por muitos anos, a reunir gerações em torno da fé, do património e da amizade. Para o ano, se Deus quiser e São Pedro ajudar, voltar-nos-emos a encontrar.

Humberto Domingues
2026.06.29

sexta-feira, 26 de junho de 2026

QUANDO A SAÚDE REFLECTE O PAÍS QUE ESTAMOS A CONSTRUIR


QUANDO A SAÚDE REFLECTE O PAÍS QUE ESTAMOS A CONSTRUIR

Fonte da Imagem: Elaboração própria com apoio da IA

Portugal habituou-se a olhar para a saúde através dos números. O número de consultas realizadas, os tempos de espera, os utentes sem Médico de Família ou os índices de desempenho que ocupam regularmente o espaço público e o debate político, muitas vezes “politiqueiro”.

Os indicadores são indispensáveis. Permitem medir, comparar e identificar problemas. Contudo, existe um risco quando os números passam a substituir a compreensão da realidade que lhes dá origem. A saúde de uma população não se resume ao que é mensurável. É também o reflexo das condições sociais, económicas, demográficas e territoriais em que as pessoas vivem.


Nas últimas décadas, Portugal alcançou uma das suas maiores conquistas civilizacionais, que foi o aumento da esperança de vida. Vivemos mais anos, mas também convivemos com mais doença crónica, multimorbilidade e dependência, exigindo respostas de saúde cada vez mais complexas e continuadas.

Simultaneamente, o país transformou-se. A natalidade diminuiu, as famílias reduziram a sua dimensão, os movimentos migratórios alteraram a composição demográfica e a população continuou a concentrar-se no litoral. O resultado é um país marcado por fortes assimetrias territoriais. Nas áreas urbanas, os serviços públicos enfrentam uma procura crescente. No interior, o envelhecimento, a desertificação humana e a escassez de recursos dificultam o acesso aos cuidados. Em ambos os casos, a saúde reflecte os efeitos destas transformações.

Portugal ultrapassou os onze milhões de residentes. Porém, o crescimento demográfico não foi acompanhado pelo mesmo crescimento dos recursos humanos, das infra-estruturas e da capacidade de resposta dos serviços públicos. Independentemente das leituras políticas que possam ser feitas sobre esta realidade, quando a população aumenta sem o correspondente reforço dos serviços essenciais, surgem inevitavelmente constrangimentos de acesso, sobrecarga assistencial e dificuldades de resposta. A saúde constitui hoje uma das expressões mais evidentes desse desfasamento.

Paradoxalmente, depois de décadas marcadas pela preocupação com o envelhecimento e a perda de população, Portugal confronta-se agora com um aumento demográfico que exige novas respostas de planeamento. O desafio já não é apenas travar o declínio populacional, mas garantir que o crescimento seja acompanhado por serviços públicos capazes de responder às necessidades de uma sociedade mais numerosa, mais envelhecida e socialmente mais complexa.

Neste contexto, as Unidades de Saúde Familiar (USF) e a Unidades de Cuidados na Comunidade (UCC) assumem uma importância estratégica. Representam muito mais do que uma resposta organizacional. Constituem um dos pilares da proximidade, da continuidade de cuidados, da prevenção da doença, da promoção da saúde e da equidade no acesso aos cuidados de saúde. Quando essa referência não existe, perde-se capacidade de intervenção precoce, de vigilância, de acompanhamento continuado e de gestão adequada da doença ao longo do ciclo de vida.

Mas a acessibilidade não depende apenas da existência de serviços. Depende também da capacidade efectiva dos Cidadãos para lhes acederem. Para muitos idosos do interior, com mobilidade reduzida, transportes escassos e redes familiares fragilizadas, uma consulta pode representar um obstáculo significativo. A distância geográfica continua a ser uma forma silenciosa de desigualdade social.

A esta realidade junta-se um fenómeno crescente: a solidão. Muitos dos problemas que chegam aos serviços de saúde não são exclusivamente clínicos. Resultam também do isolamento, da fragilidade económica, da ausência de suporte familiar e da perda de integração comunitária, da perda de autonomia.

Por isso, discutir saúde é discutir muito mais do que hospitais, centros de saúde ou listas de espera. É discutir envelhecimento, coesão territorial, mobilidade, imigração, desenvolvimento regional e sustentabilidade do Estado Social. Os desafios actuais exigem uma visão que ultrapasse ciclos eleitorais e divergências partidárias. As transformações demográficas e sociais não obedecem ao calendário político. Exigem planeamento, estabilidade estratégica e consensos duradouros.

A questão essencial não é apenas quantos actos foram realizados ou quantos indicadores foram cumpridos. A verdadeira questão é saber se estamos a planear um país capaz de cuidar das pessoas ao longo de toda a vida, independentemente da idade, condição económica ou local de residência. Porque a robustez de um sistema de saúde não se mede apenas pelos relatórios que produz. Mede-se pela capacidade de antecipar necessidades, garantir proximidade a quem vive longe, acompanhamento a quem envelhece e dignidade a quem mais necessita.

No fundo, a saúde continua a ser um dos mais fiéis espelhos da Sociedade que somos e da Sociedade que aspiramos deixar às gerações futuras.

Humberto Domingues
Enf. Espec. Saúde Comunitária
Mestre em Sociologia da Saúde
26 de Junho de 2026

O Autor escreve de acordo com o antigo acordo ortográfico.

sexta-feira, 19 de junho de 2026

ENTRE SENADORES E REFORMADORES A SABEDORIA DA EXPERIÊNCIA, A ENERGIA DA JUVENTUDE (uma reflexão)

ENTRE SENADORES E REFORMADORES 
A SABEDORIA DA EXPERIÊNCIA, A ENERGIA DA JUVENTUDE
(uma reflexão)


Ao longo dos anos temos reflectido sobre a importância das diferentes gerações que coexistem nas organizações, particularmente nos serviços de saúde. Não apenas enquanto soma de profissionais com idades distintas, mas enquanto património humano que transporta visões, competências e experiências complementares. 

Existem os profissionais mais jovens, frequentemente movidos pela legítima vontade de inovar, transformar e acelerar mudanças. São portadores de novos conhecimentos, de novas linguagens tecnológicas e de uma saudável inquietação perante modelos instalados. E existem, igualmente, os profissionais mais experientes, aqueles que poderíamos designar simbolicamente por "senadores". Homens e mulheres que acumularam décadas de prática, enfrentaram múltiplas reformas organizacionais, acompanharam a evolução científica e desenvolveram aquilo que dificilmente se ensina numa sala de aula, o discernimento.

Existe, porém, uma questão adicional que merece reflexão. As sociedades contemporâneas parecem ter desenvolvido uma certa impaciência perante o tempo. Vivemos numa cultura da aceleração, onde a rapidez é frequentemente confundida com eficácia e onde os indicadores quantitativos tendem a adquirir uma relevância superior àquilo que efectivamente representam. Também as organizações de saúde não escapam a esta influência. Multiplicam-se métricas, objetivos, relatórios e sistemas de monitorização. Muitos deles são úteis e necessários. Contudo, quando a avaliação do desempenho se concentra excessivamente no que é facilmente mensurável, corre-se o risco de subvalorizar dimensões essenciais da prática profissional. Nem tudo o que conta pode ser contado.

A experiência de um profissional sénior raramente se expressa apenas em números. Manifesta-se na capacidade de antecipar complicações, de reconhecer sinais subtis de agravamento clínico, de gerir conflitos, de apoiar equipas em momentos críticos e de evitar erros que nunca chegarão a constar de qualquer estatística. Paradoxalmente, quanto mais experiente é um profissional, mais invisível tende a ser uma parte significativa do seu contributo. O erro evitado não entra nos indicadores. O conflito prevenido não aparece nos relatórios. A decisão prudente que impede uma complicação futura, dificilmente será contabilizada nos sistemas de avaliação. É por isso que a produtividade não pode ser analisada exclusivamente através da quantidade produzida.

A experiência não é uma mera acumulação cronológica de anos. É uma forma de conhecimento. Um conhecimento construído através da observação, da reflexão, do erro, da correção e da maturação profissional. É uma inteligência prudencial que permite distinguir o urgente do importante, o ruído do essencial, a moda passageira da verdadeira inovação.

As organizações mais maduras compreendem que a juventude e a experiência não competem. Complementam-se. Mas existe um terceiro elemento que raramente recebe a atenção que merece, a comunicação.

Na saúde, a comunicação não constitui uma competência acessória. É uma competência clínica, organizacional e estratégica. A comunicação é o mecanismo através do qual o conhecimento circula, as equipas cooperam, as lideranças mobilizam e os cidadãos confiam. Sem comunicação, a experiência dos senadores transforma-se em conhecimento perdido. Sem comunicação, o entusiasmo dos mais jovens converte-se em frustração. Sem comunicação, as hierarquias deixam de ser estruturas de coordenação para se tornarem meras estruturas de poder.

Uma organização verdadeiramente madura não mede apenas o que os seus profissionais produzem. Mede também os problemas que conseguem evitar, os conhecimentos que transmitem e a confiança que inspiram. Porque quando a sabedoria da experiência encontra a energia da juventude, mediadas por uma comunicação de qualidade e por lideranças legítimas, deixa de existir conflito entre passado e futuro. Passa a existir progresso!

Humberto Domingues
Enf. Espec. Saúde Comunitária
Mestre em Sociologia da Saúde
2026.06.19

O Autor escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico

terça-feira, 16 de junho de 2026

CUIDAR DE QUEM CUIDA: QUANDO A EXAUSTÃO DOS PROFISSIONAIS SE TORNA UM PROBLEMA DOS CIDADÃOS

CUIDAR DE QUEM CUIDA - QUANDO A EXAUSTÃO DOS PROFISSIONAIS 
SE TORNA UM PROBLEMA DOS CIDADÃOS

Fonte da Imagem: Ordem dos Enfermeiros

Há uma pergunta que o país continua a evitar: quem cuida dos profissionais que diariamente cuidam de todos nós?
Durante anos, a discussão sobre a saúde mental dos profissionais de saúde foi remetida para a esfera individual. Falou-se de resiliência, de adaptação, de capacidade de lidar com a pressão. Como se a exaustão fosse apenas uma fragilidade pessoal e não a consequência previsível de sistemas organizacionais submetidos a uma pressão permanente.

Mas a realidade é mais dura e mais incómoda. Os profissionais de saúde, particularmente os Enfermeiros, trabalham diariamente na fronteira entre a vida e a morte, entre a esperança e o sofrimento, entre a recuperação e a perda. São confrontados com a dor humana numa intensidade que poucos contextos profissionais conhecem.

Todavia, a exigência emocional inerente ao cuidar deixou de ser o único desafio. Hoje, muitos profissionais enfrentam equipas insuficientes, horários desajustados, sobrecarga assistencial, exigências burocráticas crescentes e uma escassez persistente de recursos humanos. Em muitos serviços, o esforço extraordinário transformou-se numa normalidade organizacional. Quando isto acontece, a exaustão deixa de ser uma possibilidade e transforma-se numa inevitabilidade. Importa dizê-lo com frontalidade, profissionais exaustos não constituem apenas um problema laboral, constituem um problema de saúde pública. E a escassez de recursos humanos não é apenas um problema de gestão, mas também um problema de justiça social. Quando um profissional dispõe de menos tempo para cuidar, o cidadão recebe menos atenção, menos relação terapêutica e, muitas vezes, menos dignidade no processo de cuidar.

A fadiga física e emocional diminui a capacidade de concentração, compromete a tomada de decisão, fragiliza a comunicação entre equipas e aumenta a probabilidade de falhas. Não porque os profissionais sejam menos competentes, mas porque nenhum ser humano consegue manter indefinidamente elevados níveis de desempenho sob condições de desgaste permanente. E quando falamos de falhas em saúde, falamos de pessoas. Falamos do cidadão que espera uma resposta atempada. Falamos do doente que necessita de vigilância permanente. Falamos da família que deposita confiança nos profissionais e nas instituições.

A qualidade dos cuidados não depende apenas da competência técnica. Depende também do tempo disponível para cuidar, da atenção dedicada ao doente, da capacidade de escutar, de observar, de comunicar e de decidir. Quando os recursos humanos são insuficientes, o primeiro impacto nem sempre é visível nas estatísticas. Surge silenciosamente na redução do tempo disponível para cada pessoa, na deterioração da relação terapêutica, no aumento da tensão das equipas e no desgaste emocional dos profissionais.

Mais cedo ou mais tarde, porém, o sistema acaba por “pagar essa factura”. Por isso, o burnout não pode continuar a ser interpretado como uma falha individual, trata-se de um indicador organizacional e político. É frequentemente o sintoma de estruturas incapazes de assegurar condições adequadas para o exercício profissional.

Da mesma forma que uma ponte degradada denuncia uma falha estrutural e falta de investimento público, uma equipa sistematicamente exausta denuncia insuficiências de planeamento, gestão e decisão política. Esta é uma matéria que exige coragem. Exige coragem das lideranças para reconhecer que a sustentabilidade das organizações depende das pessoas. Exige coragem dos gestores para colocar o capital humano no centro das decisões. E exige coragem dos decisores políticos para compreender que investir em profissionais não é uma despesa, é uma condição de segurança, qualidade e sustentabilidade do próprio sistema de saúde.

A evidência científica é clara, organizações com lideranças humanizadas, dotações seguras, ambientes psicologicamente protegidos e culturas de reconhecimento apresentam melhores resultados clínicos, maior segurança dos cuidados, menor rotatividade e maior satisfação dos cidadãos. Humanizar as organizações não é diminuir a exigência, é criar condições para que a excelência seja possível.

Talvez tenha chegado o momento de compreendermos que a saúde mental dos profissionais não é uma reivindicação corporativa. É uma questão ética, social e política, porque quando um profissional adoece, todos perdemos. Mas quando um sistema normaliza a exaustão daqueles que cuidam, coloca em risco algo ainda mais valioso que é a confiança dos cidadãos na capacidade de serem cuidados com segurança, dignidade e qualidade.

Cuidar de quem cuida não é um acto de benevolência institucional. É uma responsabilidade estratégica! É uma exigência moral! E é, acima de tudo, uma escolha civilizacional.

Humberto Domingues
Enf. Espec. Saúde Comunitária
Mestre em Sociologia da Saúde
Autor de reflexão crítica sobre políticas públicas, Saúde e Sociedade
2026.06.16

O Autor escreve de acordo com o antigo acordo ortográfico.

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