quinta-feira, 28 de maio de 2026

PORQUÊ… PEDRO PASSOS COELHO, ESTE VERNÁCULO?

PORQUÊ… PEDRO PASSOS COELHO, ESTE VERNÁCULO?

Fonte da Foto: Expresso

A expressão utilizada por Pedro Passos Coelho, ao referir-se a “prostitutos sem carácter”, ultrapassa largamente a simples infelicidade verbal. O problema não reside apenas na rudeza da formulação, mas no que ela revela sobre o tom emocional e político do discurso.

Quando um antigo Primeiro-Ministro adopta linguagem de desqualificação moral, substitui o argumento pela humilhação simbólica. O adversário deixa de ser alguém com ideias diferentes e passa a ser tratado como eticamente inferior. Esta deriva é particularmente preocupante numa democracia, porque empobrece o espaço público e normaliza a agressividade verbal como instrumento político.

Há ainda um azedume perceptível nesta formulação. Não se escuta a serenidade de um estadista, mas a crispação de alguém que parece falar a partir do ressentimento ou da frustração. Em termos de psicologia política, é frequente que figuras outrora centrais reajam com maior dureza quando sentem erosão do seu capital simbólico ou perda de influência no debate público.

Além disso, o uso do termo “prostitutos” como insulto transporta um peso social e moral profundamente estigmatizante, incompatível com a elevação institucional que se espera de quem ocupou funções de soberania.

A política democrática exige firmeza, mas também contenção, cultura institucional e sentido de Estado. É possível ser contundente sem cair no vernáculo depreciativo. Quando a linguagem política desce à catarse emocional, perde densidade ética e autoridade moral.

Humberto Domingues
Enf. Espec. Saúde Comunitária
Mestre em Sociologia da Saúde
2026.05.28

O Autor escreve segundo o antigo acordo ortográfico

quarta-feira, 27 de maio de 2026

LIDERAR SEM PREPARAÇÃO - O DÉFICE HUMANO DA GESTÃO EM SAÚDE

LIDERAR SEM PREPARAÇÃO - O DÉFICE HUMANO DA GESTÃO EM SAÚDE

Fonte da imagem: Linkedln

A gestão em Saúde não é uma extensão espontânea da competência técnica. Um excelente enfermeiro, clínico ou técnico superior não se transforma automaticamente num bom dirigente apenas porque domina a dimensão assistencial. A crença contrária tem produzido, ao longo de décadas, um fenómeno silencioso mas corrosivo nas organizações de Saúde: a nomeação de chefias sem preparação em gestão, liderança, comportamento organizacional ou inteligência emocional. E os custos dessa realidade não são abstractos. Pagam-se em desmotivação, conflitos, sofrimento moral, decisões erráticas e degradação do ambiente humano dentro das instituições.

Existe uma ideia culturalmente instalada, sobretudo nas administrações públicas e em certos sectores da Saúde, de que a antiguidade, a proximidade hierárquica ou a reputação técnica legitimam, por si só, o exercício da liderança. Ora, liderar pessoas não é apenas distribuir horários, validar escalas ou fiscalizar indicadores. Liderar implica compreender sistemas humanos complexos, gerir tensões, interpretar emoções, reconhecer vulnerabilidades e decidir com racionalidade, mas também com prudência ética. 
Peter Drucker, um dos maiores teóricos da gestão contemporânea, afirmava que “management is about human beings”. A gestão existe para organizar pessoas em torno de um propósito comum, e não para reduzir profissionais a peças operacionais indiferenciadas. Quando um dirigente ignora esta premissa elementar, transforma a instituição numa máquina burocrática emocionalmente estéril, onde o medo substitui a confiança e onde a obediência vale mais do que a inteligência colectiva.

Na Saúde, esta realidade torna-se particularmente grave porque se trabalha sobre matéria humana em sofrimento. Não se gere uma fábrica de parafusos. Gere-se desgaste emocional, fadiga, burnout, morte, ansiedade, pressão assistencial e responsabilidade clínica permanente. Um dirigente sem formação adequada tende frequentemente a interpretar o colaborador apenas através do desempenho observável, esquecendo o contexto psicológico, familiar e emocional que influencia inevitavelmente o comportamento humano e a qualidade do trabalho.

Daniel Goleman demonstrou, de forma robusta, que a inteligência emocional constitui um dos factores mais determinantes na eficácia da liderança. A incapacidade de reconhecer emoções, interpretar sinais de exaustão ou comunicar com empatia produz ambientes organizacionais tóxicos. E a toxicidade organizacional tem consequências objectivas, como o aumento do absentismo, a rotatividade, o aparecimento de conflitos internos, as falhas de comunicação e a erosão da qualidade assistencial.

Há chefias que confundem frieza com competência. Outras confundem autoridade com distanciamento emocional. Mas a liderança verdadeiramente madura não é fria nem permissiva. É equilibrada, lúcida e humanamente inteligente. O problema emerge quando a ignorância emocional se associa ao poder hierárquico. Nesse momento, a avaliação torna-se humilhação, a decisão transforma-se em arbitrariedade e o colaborador deixa de ser visto como pessoa para passar a ser tratado como mero recurso produtivo.

A Sociologia das Organizações ensina-nos que as instituições não adoecem apenas por falta de recursos financeiros ou humanos. Adoecem também pela degradação das relações sociais internas. Christophe Dejours, referência incontornável na psicodinâmica do trabalho, demonstrou como o sofrimento laboral nasce frequentemente da ausência de reconhecimento, da injustiça organizacional e da violência simbólica exercida pelas hierarquias. Um profissional desrespeitado não perde apenas motivação, perde identidade, pertença e sentido.

Acresce ainda um problema estrutural, em que muitos dirigentes decidem sem formação em gestão estratégica, negociação, análise organizacional ou administração de conflitos. Isto conduz frequentemente a decisões impulsivas, emocionalmente imaturas ou excessivamente mecanicistas. A gestão baseada apenas na autoridade formal tende a produzir culturas de medo e silêncio organizacional. E onde existe medo, desaparece a inovação, a cooperação e a frontalidade ética.

A Saúde precisa urgentemente de uma cultura de liderança profissionalizada. Não basta nomear. É necessário preparar. A liderança em unidades funcionais, serviços hospitalares ou equipas comunitárias deveria exigir formação obrigatória em gestão, comportamento organizacional, ética da liderança e inteligência emocional. Porque decidir sobre pessoas sem compreender pessoas é uma forma sofisticada de incompetência institucional.

O mais paradoxal é que as organizações de Saúde defendem diariamente a humanização dos cuidados para os utentes, mas muitas vezes esquecem a humanização interna dirigida aos profissionais. Não pode existir verdadeira qualidade assistencial em ambientes organizacionais marcados pela desconsideração humana. O colaborador não é um número estatístico, nem um item funcional num mapa de pessoal. É um ser humano portador de dignidade, vulnerabilidade e consciência moral.

A autoridade administrativa pode impor silêncio, mas nunca produzirá respeito genuíno sem competência humana. E talvez esse seja hoje um dos maiores défices de algumas lideranças em Saúde: saber mandar sem nunca ter aprendido verdadeiramente a compreender pessoas.

Humberto Domingues
Enf. Espec. Saúde Comunitária
Mestre em Sociologia da Saúde
2026.05.27

O Autor escreve de acordo com o anterior Acordo Ortográfico

sábado, 16 de maio de 2026

VII CONGRESSO DOS ENFERMEIROS DA VISIBILIDADE À INFLUÊNCIA UM MOMENTO ESTRUTURANTE PARA A ENFERMAGEM

VII CONGRESSO DOS ENFERMEIROS DA VISIBILIDADE À INFLUÊNCIA
UM MOMENTO ESTRUTURANTE PARA A ENFERMAGEM


O VII Congresso dos Enfermeiros representou um momento de inequívoca afirmação política, institucional e pública da Enfermagem Portuguesa. A presença do Primeiro-Ministro, acompanhado pela Ministra da Saúde, bem como o encerramento pela Secretária de Estado da Saúde, conferiram ao Congresso uma centralidade política raramente alcançada pela Profissão. Atribuir a “Medalha de Ouro” da Ordem dos Enfermeiros ao Primeiro-Ministro é um acto de coragem, de uma fina e rara estratégia, ao alcance de poucos.

Importa igualmente sublinhar o compromisso público assumido por PSD, PS, CHEGA e IL relativamente a matérias estruturantes para o futuro da Enfermagem, nomeadamente a prescrição por Enfermeiros e a discussão em torno das Competências Avançadas. Estes sinais políticos não são acessórios, traduzem reconhecimento, maturidade institucional e a entrada definitiva da Enfermagem na agenda estratégica da Saúde em Portugal.

É de inteira justiça reconhecer o trabalho do Bastonário dos Enfermeiros, na sua magistratura de influência, firmeza, objectividade e capacidade de afirmação institucional, bem como o labor coeso e consequente do Conselho Directivo da Ordem dos Enfermeiros. Esta visibilidade pública e mediática deve agora ser inteligentemente capitalizada, tanto na afirmação externa da Profissão perante a Sociedade, como na reflexão interna sobre o posicionamento, responsabilidade e ambição colectiva da Enfermagem Portuguesa.

Nos momentos em que a Profissão conquista espaço político, mediático e institucional, importa discernimento estratégico e sentido de prioridade. O ruído desajustado de alguns não pode obscurecer a relevância histórica do caminho que está a ser consolidado.

Permanece agora a expectativa legítima de que os compromissos publicamente assumidos encontrem concretização política efectiva, com tradução legislativa, organizacional e funcional. A Enfermagem Portuguesa reclama, com inteira legitimidade, não apenas reconhecimento simbólico, mas participação consequente nos processos de decisão.

Pensar estrategicamente a Saúde em Portugal exige pensar a Enfermagem como parceiro político, técnico e institucional indispensável, com lugar próprio à mesa das decisões nacionais sobre o SNS, o Sector Privado e o Sector Social. A maturidade dos sistemas de saúde mede-se, também, pela capacidade de integrar os Enfermeiros na construção das respostas estruturais do País.

Um agradecimento final ao Presidente da Secção do Norte, onde este evento se realizou, pelo que, com certeza deu e o Conselho Directo proporcionou. A Todos os Orgãos Nacionais e Regionais o meu muito, muito obrigado!

Humberto Domingues
Enf. Espec. Saúde Comunitária
Mestre em Sociologia da Saúde
2026.05.16

segunda-feira, 11 de maio de 2026

12 DE MAIO DIA INTERNACIONAL DO ENFERMEIRO

 12 DE MAIO DIA INTERNACIONAL DO ENFERMEIRO

Fonte da Imagem: Ordem dos Enfermeiros

Há profissões que se exercem. E há profissões que se entranham na própria identidade humana. A Enfermagem pertence a essa rara estirpe de vocações que não vivem apenas da técnica, mas da coragem moral, da inteligência emocional e da extraordinária capacidade de permanecer firme diante da fragilidade humana. Ser Enfermeiro é caminhar diariamente entre a ciência e a bondade. Entre o conhecimento rigoroso e o gesto silencioso, entre a exaustão e a dignidade, entre a dor dos outros e a serenidade necessária para continuar a cuidar.


E por isso, a Enfermagem não se limita ao acto técnico nem se encerra na execução clínica. É uma disciplina científica, uma prática moral e uma presença social insubstituível. Habita simultaneamente o rigor da evidência científica e a subtileza do encontro humano. Entre a precisão do conhecimento e a escuta silenciosa, o Enfermeiro constrói quotidianamente pontes de confiança, dignidade e esperança.

A lamparina de Florence Nightingale continua acesa, não apenas como símbolo histórico, mas como metáfora viva da Enfermagem contemporânea, luz em cenários de incerteza, consciência ética em tempos difíceis e esperança quando o sofrimento obscurece horizontes. Há uma beleza particular na Enfermagem que o mundo nem sempre consegue traduzir.

Não é uma beleza superficial. É a beleza austera da presença, da vigilância permanente, do olhar atento que percebe antes da palavra, da mão que ampara sem humilhar e da competência que salva sem procurar aplauso.

Num mundo marcado por profundas transformações sociais, epidemiológicas e tecnológicas, a Enfermagem afirma-se como ciência do cuidar, mas também como liderança transformadora. Uma liderança discreta, porém decisiva. Uma liderança que organiza, protege, educa, coordena e transforma realidades. Uma liderança que sustenta equipas, fortalece comunidades e humaniza sistemas de saúde frequentemente pressionados pela velocidade, pela escassez e pela despersonalização. Liderar em Enfermagem é inspirar, coordenar, proteger, educar e promover justiça em saúde. É defender a dignidade humana nos contextos mais frágeis da existência.

O Enfermeiro conhece a anatomia da doença, mas compreende igualmente a sociologia do sofrimento, a psicologia do medo e o peso invisível da solidão humana. Por isso, cuidar é muito mais do que intervir. Cuidar é reconhecer a dignidade irrepetível de cada pessoa, mesmo nos momentos de maior vulnerabilidade.

Num tempo em que tantas instituições vacilam perante a complexidade social, os Enfermeiros permanecem junto da vida nascente, junto da doença, junto da recuperação, junto da perda e junto do fim. Essa permanência não é apenas profissional, é civilizacional.

Celebrar o Dia Internacional do Enfermeiro é reconhecer Homens e Mulheres de enorme densidade humana, científica e ética. Pessoas cuja tenacidade raramente é visível nas estatísticas, mas cuja presença sustenta silenciosamente a arquitectura moral dos cuidados de saúde.

Hoje homenageamos os que cuidam sem desistir, os que lideram sem vaidade, os que escutam sem pressa, os que estudam para servir melhor. Os que permanecem humanos, mesmo quando o mundo se torna excessivamente mecânico, porque a Enfermagem não é apenas uma profissão é ciência com consciência, é técnica com alma, é liderança com humanidade, e é, talvez, uma das mais belas expressões da dignidade humana.

Homenageamos os Enfermeiros pela sua competência científica, pela coragem silenciosa, pela resiliência ética e pela extraordinária capacidade de permanecer humanos perante a complexidade do sofrimento.


Humberto Domingues
Enf. Espec. Saúde Comunitária
Mestre em Sociologia da Saúde
2026.05.12

QUANDO A SAÚDE REFLECTE O PAÍS QUE ESTAMOS A CONSTRUIR

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