A SAÚDE QUE NÃO CABE NUM ALGORITMO
Quando
a tecnologia se torna inteligente, precisamos de comunidades capazes de
produzir saúde
Fonte imagem: phoenixNAP
Vivemos uma transformação que ultrapassa largamente a dimensão tecnológica. A Inteligência Artificial está a alterar a forma como trabalhamos, aprendemos, comunicamos e tomamos decisões e, inevitavelmente, está a transformar também a Saúde. Algoritmos capazes de analisar milhões de dados, antecipar riscos e apoiar decisões prometem sistemas mais rápidos, eficientes e inteligentes.
Mas talvez a questão mais importante não seja saber até onde poderá chegar a inteligência das máquinas. Será saber o que acontecerá à inteligência colectiva das Sociedades e à sua capacidade para cuidar, participar e produzir saúde?
Esta interrogação ganha particular relevância num tempo marcado pelo aumento da longevidade, pela doença crónica, pelas desigualdades sociais, pelo isolamento e pela solidão. São fenómenos que não se resolvem apenas com tecnologia, porque a saúde não acontece exclusivamente dentro dos serviços de saúde. Produz-se nos lugares onde as pessoas vivem, trabalham, aprendem, envelhecem e estabelecem relações.
A evidência há muito demonstra que as condições sociais, económicas e relacionais influenciam profundamente a saúde. Edgar Morin recorda-nos que a complexidade exige uma visão capaz de ultrapassar respostas fragmentadas. Michael Marmot demonstrou a importância dos determinantes sociais da saúde. A Carta de Ottawa colocou a capacitação das pessoas e das comunidades no centro da promoção da saúde. E Robert Putnam evidenciou a importância das redes de confiança, reciprocidade e participação para a vitalidade das sociedades.
É neste cruzamento que proponho pensar o Capital Comunitário em Saúde. Entendo-o como o património colectivo que uma comunidade constrói através da confiança entre pessoas e instituições, da participação, da literacia em saúde, da cooperação e da capacidade de mobilizar os recursos existentes no território. Não é um recurso meramente económico, nem uma abstracção sociológica. É uma capacidade concreta de uma comunidade para compreender os seus problemas, organizar-se, cooperar e agir sobre os factores que condicionam a sua saúde.
Uma comunidade com elevado Capital Comunitário não é apenas uma comunidade onde existem serviços de saúde. É uma comunidade onde as pessoas confiam, participam, colaboram e reconhecem que também possuem capacidade para intervir na construção do seu próprio bem-estar. É aqui que a Enfermagem Comunitária adquire uma relevância que será, a meu ver, ainda maior no futuro.
A Inteligência Artificial poderá substituir ou simplificar inúmeras tarefas, aumentar a capacidade de análise e apoiar decisões. Poderá tornar os sistemas de saúde mais inteligentes. Mas não substitui a relação humana, a confiança, o vínculo, a reciprocidade ou a capacidade de reunir pessoas diferentes em torno de um propósito comum.
O Enfermeiro Especialista em Enfermagem Comunitária possui precisamente essa capacidade de aproximação entre o conhecimento e o território, entre os serviços e as pessoas, entre as instituições e a comunidade. Conhece as necessidades, identifica recursos, estabelece pontes, mobiliza parceiros e promove a participação. Mais do que responder a problemas, pode contribuir para deixar uma comunidade mais capaz depois de cada intervenção. É esta dimensão que importa reconhecer.
Num tempo em que se fala tanto de inovação, continuamos frequentemente a associá-la a equipamentos, plataformas, algoritmos e tecnologias. Contudo, existe uma outra forma de inovação, menos visível e talvez mais profunda. A capacidade de criar confiança onde existe distância, cooperação onde existe fragmentação, participação onde existe passividade e responsabilidade colectiva onde prevalece a ideia de que a saúde é apenas responsabilidade dos serviços.
Fortalecer o Capital Comunitário em Saúde significa, por isso, investir numa forma diferente de produzir valor. Valor para as pessoas, porque aumenta a sua capacidade de compreender e agir. Valor para as comunidades, porque reforça a coesão social e afectiva. E valor para o próprio sistema de saúde, porque comunidades mais informadas, participativas e resilientes estão melhor preparadas para prevenir problemas, enfrentar adversidades e utilizar de forma mais adequada os recursos disponíveis.
A questão não é escolher entre tecnologia e comunidade. Essa seria uma falsa dicotomia. A questão é saber colocar a tecnologia ao serviço das pessoas e utilizar a sua capacidade para libertar tempo, melhorar decisões e ampliar possibilidades, sem perder aquilo que torna a Saúde profundamente humana.
Quanto mais inteligentes forem os sistemas, maior será a necessidade de profissionais capazes de transformar informação em conhecimento, conhecimento em participação e participação em acção colectiva. Talvez seja esse um dos grandes desafios da Saúde no século XXI. Não construir apenas sistemas de saúde mais inteligentes, mas comunidades mais capazes de produzir saúde.
Porque o futuro não será feito apenas por aquilo que a tecnologia conseguir fazer por nós. Será também determinado por aquilo que continuarmos a conseguir fazer uns pelos outros.
Humberto Domingues
Enf. Espec. Enfermagem Comunitária e Saúde Pública
Mestre em Sociologia da Saúde
2026.09.15
Texto com base na Comunicação Livre feita no Congresso Internacional de Enfermagem Comunitária em Chaves
O Autor escreve de conforme o antigo acordo ortográfico
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