terça-feira, 15 de setembro de 2026

COMUNICAÇÃO LIVRE - II CONGRESSO INTERNACIONAL

 COMUNICAÇÃO LIVRE - II CONGRESSO INTERNACIONAL 

ENFERMAGEM COMUNITÁRIA

Chaves 11 e 12 de Setembro 2026

Fonte do cartaz: OE

No Congresso referido no título, promovido pelo Colégio de Enfermagem Comunitária, tive a oportunidade de fazer uma Comunicação Oral - no vasto programa de Comunicações Livres deste congresso que se realizou na Escola Superior de Saúde do Alto Tâmega - Chaves, que a seguir transcrevo:


"Capital Comunitário em Saúde
A vantagem estratégica da Enfermagem Comunitária
Na era da Inteligência Artificial

INTRODUÇÃO

Vivemos uma das maiores transformações da história contemporânea. A Inteligência Artificial está a alterar profundamente a forma como trabalhamos, comunicamos, aprendemos e tomamos decisões. Também a saúde entra nesta nova era, com sistemas mais inteligentes, maior capacidade de análise de dados e novas possibilidades de apoio à decisão clínica.

Perante esta realidade, surge uma questão incontornável: Qual será o lugar da Enfermagem Comunitária num mundo em que a tecnologia assume um papel cada vez mais relevante?

A minha convicção é clara. A Inteligência Artificial não diminui a importância da Enfermagem Comunitária. Pelo contrário, torna mais evidente aquilo que constitui a sua maior vantagem estratégica. Quanto mais evoluírem as tecnologias, maior será a necessidade de profissionais capazes de mobilizar pessoas, fortalecer comunidades, promover participação e transformar conhecimento em ganhos efectivos em saúde.

É nesta perspectiva que proponho uma reflexão assente em quatro fundamentos.

PRIMEIRO FUNDAMENTO
Uma mudança civilizacional, não apenas tecnológica

Costumamos falar da Inteligência Artificial como uma inovação tecnológica. Creio, porém, que esta visão é insuficiente. Estamos perante uma verdadeira mudança civilizacional, comparável a outras grandes transformações que alteraram profundamente a organização das sociedades.

Na saúde, esta mudança ocorre num contexto particularmente exigente. Vivemos mais anos, coexistimos com doenças crónicas, enfrentamos isolamento social, desigualdades crescentes e uma pressão cada vez maior sobre os sistemas de saúde.

Estes desafios não se resolvem apenas com mais tecnologia. Exigem proximidade, organização e participação das comunidades.

Como nos recorda Edgar Morin, a complexidade não pode ser compreendida através de respostas fragmentadas. E Michael Marmot demonstrou que a saúde depende, em larga medida, das condições em que as pessoas vivem, trabalham, aprendem e envelhecem.

A Inteligência Artificial poderá tornar os sistemas de saúde mais eficientes, disponibilizando melhores dados e apoiando decisões mais rápidas e precisas. Mas a tecnologia, por si só, não reduz desigualdades, não combate a solidão, não cria confiança entre instituições e cidadãos, nem fortalece a capacidade das comunidades para cuidar de si próprias. É precisamente aqui que emerge o espaço estratégico da Enfermagem Comunitária.

O seu valor não reside apenas na prestação de cuidados. Reside também na capacidade de conhecer os territórios, identificar necessidades, mobilizar recursos, estabelecer parcerias e construir respostas com as pessoas e para as pessoas.

SEGUNDO FUNDAMENTO
A Inteligência Artificial transforma o trabalho. Não substitui o cuidado.

A Inteligência Artificial veio para ficar. Os algoritmos apoiarão o diagnóstico, anteciparão riscos, analisarão grandes volumes de informação e tornarão muitos processos mais rápidos e seguros.

Esta transformação poderá libertar os profissionais de parte das tarefas administrativas e permitir maior disponibilidade para aquilo que nenhuma tecnologia consegue realizar da mesma forma: cuidar das pessoas.

Na Enfermagem Comunitária, esse cuidado ultrapassa o episódio individual. Implica compreender a realidade social das comunidades, estabelecer relações de confiança, promover a participação dos cidadãos e construir respostas ajustadas às necessidades de cada território.

A Inteligência Artificial pode apoiar decisões, disponibilizar informação e identificar padrões, mas não substitui a confiança, o compromisso colectivo nem a capacidade de mobilizar uma comunidade em torno da promoção da saúde. E quanto mais inteligentes forem os sistemas, mais importante será a capacidade dos Enfermeiros para transformar as Comunidades.

É aqui que a Enfermagem Comunitária reforça a sua relevância estratégica.

TERCEIRO FUNDAMENTO
O Capital Comunitário em Saúde: uma proposta para pensar o futuro

É neste contexto que proponho o conceito de Capital Comunitário em Saúde. Esta proposta conceptual inspira-se nos contributos de Robert Putnam, Michael Marmot, Aaron Antonovsky e da Carta de Ottawa para a Promoção da Saúde, articulando inovação tecnológica, determinantes sociais da saúde e intervenção comunitária. O conceito parte de uma ideia simples, mas com profundas implicações: a saúde não se produz apenas nos serviços de saúde, produz-se também na capacidade das comunidades para gerar confiança, promover participação, fortalecer redes de colaboração e mobilizar os recursos existentes nos territórios, transformando-os em capacidade colectiva para “produzir Saúde”.

Enquanto a tecnologia aumenta a eficiência e a capacidade dos sistemas, a Enfermagem Comunitária fortalece a capacidade das comunidades para além de produzir saúde, gerar coesão social e afectiva e assumir maior responsabilidade pelo seu desenvolvimento e bem-estar.

Este capital constrói-se através da confiança entre cidadãos e instituições, da participação das pessoas, da literacia em saúde, da cooperação entre organizações e da mobilização dos recursos existentes em cada território. Quanto mais desenvolvido for esse capital, maior será a capacidade da comunidade para prevenir a doença, reduzir desigualdades, enfrentar desafios colectivos e promover bem-estar. É precisamente aqui que, em meu entender, reside a maior vantagem estratégica da Enfermagem Comunitária.

O Enfermeiro Especialista em Enfermagem Comunitária não se limita a prestar cuidados. Mobiliza pessoas e instituições, desenvolve projectos e capacita as comunidades para assumirem um papel activo na promoção da sua própria saúde. Cada intervenção pode, assim, deixar um legado que ultrapassa o episódio de cuidados. Comunidades mais informadas, mais participativas, mais resilientes e mais corresponsáveis pela construção da sua saúde. É este legado que designo por Capital Comunitário em Saúde.

QUARTO FUNDAMENTO
Liderar o futuro da saúde começa nas comunidades

Durante muito tempo, a inovação foi entendida sobretudo como a introdução de novas tecnologias ou equipamentos. Hoje, precisamos de uma visão mais ampla.

A verdadeira inovação em saúde depende também da capacidade de mobilizar pessoas, criar redes de colaboração e desenvolver comunidades mais participativas e capazes de agir sobre os determinantes da sua própria saúde.

Ao fortalecer o Capital Comunitário em Saúde, a Enfermagem Comunitária não presta apenas cuidados, Gera valor. Gera valor para as pessoas, para as comunidades e para a sustentabilidade do próprio sistema de saúde. É aqui que a Enfermagem Comunitária poderá assumir um papel verdadeiramente estratégico ao transformar essa informação em conhecimento, o conhecimento em participação e a participação em ganhos efectivos em saúde.

EM CONCLUSÃO

A Inteligência Artificial transformará profundamente a forma como organizamos e prestamos cuidados de saúde.

Contudo, o futuro da saúde não será determinado apenas pela evolução tecnológica. Será determinado também pela nossa capacidade de fortalecer as comunidades onde as pessoas vivem.

Enquanto a tecnologia aumenta a inteligência dos sistemas, os Enfermeiros Especialistas em Enfermagem Comunitária fortalecem aquilo que constitui um dos verdadeiros alicerces da saúde: comunidades mais informadas, mais participativas, mais resilientes e mais capazes de cuidar de si próprias.

Se conseguirmos reforçar este capital, estaremos não apenas a responder melhor aos problemas de saúde. Estaremos a construir comunidades mais preparadas para os prevenir e enfrentar.

Permitam-me terminar com uma convicção que sintetiza toda esta reflexão:

No século XXI, a grande inovação em saúde não será apenas desenvolver sistemas de saúde mais inteligentes.

Será construir comunidades mais inteligentes na forma como produzem saúde.

E esse continuará a ser um dos maiores contributos estratégicos da Enfermagem Comunitária.

Humberto Domingues
Enf. Especialista Enfermagem Comunitária
Mestre em Sociologia da Saúde
Chaves, 2026.09.11 - 17H00"

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