PRECISAMOS DE ENFERMEIROS AO LEME
DAS DECISÕES ESTRATÉGICAS DA SAÚDE
Fonte da Imagem: Elaboração própria com ajuda IA
A saúde enfrenta desafios cada vez mais complexos. O envelhecimento da população, o aumento das doenças crónicas, a escassez de recursos, a crescente diversidade cultural decorrente dos fluxos migratórios e as expectativas cada vez mais elevadas dos cidadãos exigem novas formas de liderança. Continuar a tomar decisões estratégicas afastadas da realidade dos cuidados constitui um erro que os sistemas de saúde já não podem permitir-se.
Os Enfermeiros ocupam uma posição singular. Estão presentes ao longo de todo o ciclo de vida das pessoas, acompanham famílias, intervêm nas comunidades, conhecem os serviços e compreendem as dificuldades quotidianas dos profissionais e dos cidadãos. Poucos detêm uma visão tão abrangente do funcionamento do sistema de saúde. Quando as estratégias são concebidas longe do terreno, tendem a falhar na implementação, gerando desperdício de recursos, desmotivação das equipas e perda de valor para os cidadãos.
É precisamente por isso que a participação dos Enfermeiros nos processos de decisão estratégica deve ser entendida como uma necessidade e não como uma reivindicação corporativa. Trata-se de uma opção racional, sustentada pela evidência científica e pela experiência acumulada dos sistemas de saúde mais evoluídos. Integrar Enfermeiros na governação significa aproximar a estratégia da realidade, incorporar a dimensão comunitária nas políticas públicas, reforçar a ligação aos territórios e produzir melhores resultados em saúde.
A literatura internacional e organismos como a Organização Mundial da Saúde têm evidenciado que as organizações onde a liderança de Enfermagem participa activamente nos processos de governação tendem a apresentar melhores indicadores de segurança do doente, maior qualidade assistencial, equipas mais coesas e uma utilização mais eficiente dos recursos disponíveis. Não se trata apenas de gerir melhor. Trata-se de criar mais valor em saúde.
Num contexto em que a sustentabilidade do Serviço Nacional de Saúde depende cada vez mais da prevenção, da gestão da doença crónica, da integração de cuidados e da redução das desigualdades em saúde, torna-se evidente que o actual modelo de governação precisa de evoluir. Governar a saúde já não pode significar apenas administrar hospitais, unidades locais de saúde ou centros de saúde. Significa conhecer profundamente os territórios, compreender os determinantes sociais da saúde, mobilizar recursos locais e construir respostas integradas entre os serviços de saúde, as autarquias, a educação, a segurança social, as empresas, o movimento associativo e a sociedade civil.
O futuro do SNS poderá passar por um modelo que poderíamos designar por uma Governação Territorial da Saúde, onde as decisões estratégicas são construídas a partir das necessidades reais das populações e não exclusivamente da gestão das instituições. A qualidade da governação medir-se-á cada vez menos pela capacidade de administrar estruturas e cada vez mais pela capacidade de produzir ganhos efectivos em saúde, promover equidade, reforçar a prevenção e criar valor para os cidadãos.
É neste paradigma que os Enfermeiros assumem uma posição particularmente diferenciadora. A sua intervenção desenvolve-se exactamente onde a saúde é produzida, nas famílias, nas escolas, nas comunidades, nos locais de trabalho e nos cuidados de proximidade. A experiência acumulada nesta interface entre cidadãos, serviços e territórios confere-lhes uma visão sistémica rara, capaz de integrar conhecimento clínico, gestão organizacional, coordenação de equipas, intervenção comunitária e avaliação de resultados.
Distinguem-se igualmente pela capacidade de estabelecer uma ponte permanente entre o Serviço Nacional de Saúde e a comunidade, traduzindo conhecimento técnico em decisões compreensíveis, mobilizadoras e orientadas para a melhoria dos resultados. Num tempo em que a literacia em saúde constitui um dos principais determinantes da participação dos cidadãos, esta competência comunicacional representa um activo estratégico de enorme relevância.
Os ganhos são evidentes. Melhor prevenção da doença, maior adesão terapêutica, redução de internamentos evitáveis, menor pressão sobre os serviços de urgência, cidadãos mais autónomos, melhor utilização dos recursos públicos e melhores resultados em saúde. Simultaneamente, a presença de Enfermeiros nos centros de decisão enriquece o desenho das políticas públicas, reforça a avaliação dos programas de saúde e aproxima a governação das necessidades efectivas das populações.
Num sistema onde cada decisão influencia a vida das pessoas e a sustentabilidade das instituições, liderar exige conhecimento clínico, visão estratégica, capacidade de gestão e profundo entendimento das comunidades. Os Enfermeiros reúnem estas competências. Não são apenas gestores de cuidados, são profissionais preparados para liderar sistemas, integrar políticas públicas e contribuir para uma governação mais próxima dos cidadãos, mais eficiente e mais orientada para a criação de valor em saúde.
O futuro da saúde não dependerá apenas da capacidade de tratar mais doença, dependerá, sobretudo, da capacidade de produzir mais saúde. Essa transformação exige uma governação territorial, integrada e de parcerias, onde a prevenção, a proximidade e a articulação entre sectores assumem um papel central. Neste novo paradigma, os Enfermeiros não representam apenas uma profissão indispensável, mas um recurso estratégico para a governação da saúde.
Quem conhece o mar, o navio e as pessoas que nele viajam reúne condições ímpares para ajudar a escolher o rumo. É por isso que os Enfermeiros devem estar ao leme das decisões estratégicas da saúde.
Humberto Domingues
Enf. Espec. em Saúde Comunitária e Saúde Pública
Mestre em Sociologia da Saúde
2026.07.16
O Autor escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico.

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