QUANDO A NATUREZA FALA MAIS ALTO, É PORQUE “NÃO QUISEMOS” OUVIR?
Perante tão avassaladora onda de destruição, de devastação e de prejuízos, quisemos reflectir perante estes fenómenos e a intervenção do Homem. Será que a “Sociedade Moderna” está preparada para estes drásticos acontecimentos?
Fonte da Foto: Notícias de Coimbra
Sempre que um temporal atinge o território com violência, instala-se um sentimento coletivo de impotência e populações em sobressalto. E, invariavelmente, repete-se também o discurso da surpresa. Como se a força da natureza fosse um fenómeno novo, imprevisível ou impossível de antecipar. Não é! A natureza tem a sua própria linguagem e os temporais, as cheias e os deslizamentos são apenas a forma mais dura de nos lembrar disso. E estes fenómenos naturais que não controlamos têm uma intensidade crescente, agravada pelas alterações climáticas, que ultrapassa muitas vezes a capacidade de resposta imediata.
A chuva que não dá tréguas, o vento que tudo varre, a água que cresce em minutos e arrasta consigo estradas, bens e memórias. Há momentos em que a natureza se impõe com uma força tão avassaladora que nenhuma infraestrutura, por mais robusta que seja, parece resistir. E perante essa fúria, há populações inteiras que ficam indefesas, expostas, reféns de uma realidade que não controlam. É triste, é comovente, é arrasador ver pessoas indefesas depois de “açoitadas” por tão agressiva natureza, algumas delas ficando sem mesa para comer, ou cama para dormir!
É essencial reconhecê-lo que, existem fenómenos naturais cuja intensidade e rapidez ultrapassam qualquer capacidade humana de resposta imediata. A natureza não negoceia, não espera e não distingue. Age com uma força primária, imparável, lembrando-nos da nossa fragilidade enquanto sociedade e enquanto indivíduos. Quando a chuva cai com intensidade, a água segue o seu caminho natural, e fá-lo com força, mas não é a água que invade, somos nós que ocupámos o espaço que nunca deixou de lhe pertencer e ignoraram-se as linhas naturais de escoamento desta água.
Mas é precisamente por essa força ser conhecida, e cada vez mais frequente, que a imprudência humana se torna ainda mais grave. O que transforma um fenómeno natural extremo numa tragédia humana não é apenas a chuva que cai, mas a forma como escolhemos viver com ela. A falta de planificação, o mau ordenamento do território que foi sendo feito ao sabor da conveniência imediata e o abandono sistemático da gestão florestal criam cenários onde qualquer excesso se torna devastador. As linhas de água, açudes e aquedutos, esquecidos e obstruídos, deixam de cumprir a sua função reguladora e encaminhar os excessos. As florestas, sem limpeza nem gestão, perdem a capacidade de absorção e proteção do solo, tornaram-se obstáculo no inverno e combustível no verão. Constrói-se onde não se devia, ignora-se o histórico-natural do território e transfere-se para as populações o peso de decisões que nunca tomaram.
Quando a água avança, não há escolha. Casas são invadidas, acessos cortados, serviços essenciais interrompidos. Famílias veem-se obrigadas a abandonar tudo, muitas vezes sem tempo para salvar o essencial. Nestes momentos, a vulnerabilidade das populações é total, e é injusto continuar a tratá-las como meras estatísticas de um mau dia de meteorologia. A Política e as boas decisões políticas deveriam pensar o futuro com planeamento e visão, e não o imediato, para o mediatismo ou o “ganhar eleições”. É necessário planear a longo prazo, usar tecnologia para monitorização e previsão, investir em redes elétricas mais resistentes, em sistemas de drenagem modernos, em gestão florestal inteligente e em políticas públicas que pensem o território como um todo e não como parcelas isoladas.
Reconhecer a força incontrolável da natureza não significa resignação. Significa humildade e responsabilidade. Prevenção, planeamento, recursos adequados e uso inteligente de novas tecnologias, da monitorização ambiental às redes elétricas resilientes, são hoje uma necessidade, não um luxo. Não para controlar a natureza, mas para reduzir o impacto da sua fúria sobre quem menos pode defender-se.
Fonte da Foto: Jornal de Leiria
A natureza continuará a fazer o seu caminho. Cabe ao Homem decidir se quer continuar a ser surpreendido… ou finalmente preparado. Continuar a tratar cada temporal ou fenómeno deste tipo, como um acontecimento excepcional é insistir no erro. A natureza não é negligente, não improvisa e não esquece. O Homem, sim! E enquanto não assumirmos essa responsabilidade, continuaremos a confundir tragédia anunciada com fatalidade.
Humberto Domingues
Enf. Espec. Saúde Comunitária
Mestre em Sociologia da Saúde
2026.01.30
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