segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

O QUE RESTA DEPOIS DA PRIMEIRA VOLTA DAS ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS 2026?

 O QUE RESTA DEPOIS DA PRIMEIRA VOLTA DAS ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS 2026?

Para além das urnas o que é feito do destino das emoções confiadas pelos Cidadãos?


Terminou a primeira volta das Eleições Presidenciais de 2026. Vieram as análises, os números, os vencedores e os vencidos. Para uns, surpresa. Para outros, confirmação. Mas há algo que não cabe nas estatísticas nem nos comentários televisivos: o peso emocional que estas eleições deixaram no país. Porque não foram apenas votos que os candidatos receberam. Receberam “emoções cruas”.


Receberam o cansaço de quem já esperou demais, a revolta contida de quem se sente esquecido, a esperança frágil de quem ainda acredita que a Presidência da República pode ser mais do que uma figura, pode ser presença, voz, consciência e acção.

Este caudal emocional não é um mero subproduto da política, é o sintoma de uma profunda anomia social. Há a vertente Sociológica da Fractura. E a “revolta” expressa nas urnas é a manifestação da crise de representação que corrói as democracias ocidentais. Os cidadãos não votaram apenas em programas, mas contra o sentimento de abandono estrutural. O voto tornou-se um grito catártico contra a percepção de que as instituições se tornaram distantes, herméticas e incapazes de responder à velocidade e à gravidade das suas necessidades quotidianas. A abstenção, por sua vez, não é apatia, mas sim a expressão máxima do cepticismo e da descrença na eficácia do sistema político como ferramenta de transformação social.

Durante a campanha, os cidadãos não falaram de abstracções. Falaram de vidas reais. De salários que não chegam, de pensões insuficientes, de saúde que falha, de solidão, de medo do futuro. Falaram com verdade. Choraram. Abraçaram. Pediram. E confiaram.

A questão que agora se impõe é política, mas também profundamente humana. O que acontece às emoções que os candidatos “receberam”? Onde ficam as promessas feitas àqueles que, com dignidade e desespero, expuseram as suas dificuldades? Souberam os candidatos sentir verdadeiramente o que lhes foi confiado? Souberam compreender que cada aperto de mão carregava uma história e que cada abraço era, muitas vezes, um pedido silencioso de não abandono? Ou estas emoções serão arquivadas, esquecidas, substituídas por novas estratégias e novos discursos, num ciclo vicioso de esperança e desilusão?

A Presidência da República, neste contexto de fractura social, transcende a sua função constitucional de árbitro. É-lhe exigida uma função simbólica e curativa. O Presidente eleito não herda apenas um mandato político, herda uma dívida emocional para com o eleitorado. Esta dívida é o reconhecimento de que a política não pode ser gerida apenas por algoritmos e orçamentos, mas deve integrar a dimensão do sofrimento e da esperança popular.

A polarização afectiva que marcou esta primeira volta não se deu apenas entre ideologias, mas entre o "país institucional" e o "país real", aquele que não aparece nas sondagens, mas que bate à porta, que espera na fila, que resiste todos os dias. Hoje, muitos cidadãos vivem um luto eleitoral. Não apenas pelo resultado, mas pela dúvida. Pela incerteza de saber se a esperança que depositaram será honrada ou se foi apenas mais um momento de proximidade temporária, válido apenas enquanto durou a campanha.

As eleições continuam. A segunda volta aproxima-se. Mas que ninguém se esqueça: as emoções recebidas criam responsabilidade política inadiável. E a memória das pessoas é mais longa do que muitos pensam. A democracia não termina no voto. Começa, precisamente, no que se faz depois dele, na forma como o poder honra a confiança e a vulnerabilidade que lhe foram entregues. O futuro da nossa coesão social depende dessa resposta.

Humberto Domingues
Enf. Espec. Saúde Comunitária
Mestre em Sociologia da Saúde
2025.01.19

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