segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

COMUNICAÇÃO ASSERTIVA EM MOMENTOS DE CATÁSTROFE

 COMUNICAÇÃO ASSERTIVA EM MOMENTOS DE CATÁSTROFE

A Comunicação é uma ferramenta importantíssima nas diferentes dimensões e relações da Sociedade. Desde os tempos ancestrais que o Homem tem necessidade de Comunicar, seja através do fumo ou do rufar dos tambores, à era dos faxes ou do correio electrónico e SMS.

Em momentos de catástrofe e calamidade, quando o imprevisível se impõe e o tempo deixa de ser um recurso abundante, a comunicação deixa de ser um simples instrumento de gestão para se tornar numa ferramenta de sobrevivência coletiva. Uma comunicação eficaz precisa de ser rápida, coerente e inteligível para todos os “públicos alvo”, desde os decisores políticos até às equipas operacionais e à população em geral. A assertividade não se resume a falar com firmeza. Trata-se de comunicar com clareza, objetividade, empatia e responsabilidade. Em crises, palavras ambíguas geram pânico, silêncios prolongados alimentam rumores e mensagens contraditórias desorganizam operações. É nesses cenários de incerteza, medo e urgência que a comunicação assertiva revela o seu valor mais crítico e útil: salvar vidas, reduzir danos e preservar a confiança social.

No plano político, a comunicação assume uma função estratégica de liderança. Os responsáveis políticos tornam-se a “voz de comando” simbólica e institucional. A população procura neles orientação, serenidade e segurança. Um discurso claro e transparente ajuda a conter a ansiedade coletiva, legitima decisões difíceis e reforça a perceção de controlo sobre a situação. Pelo contrário, hesitações públicas, informações desencontradas ou tentativas de minimizar a gravidade dos factos corroem rapidamente a credibilidade das instituições.

É precisamente aqui que emerge uma dimensão incontornável, a responsabilidade política. Em contextos de crise, comunicar não é apenas um acto técnico, é um acto de governação. A forma como os líderes informam, esclarecem e orientam a sociedade tem impacto direto na eficácia das medidas adoptadas e na protecção dos cidadãos. Uma comunicação falhada não é apenas um erro operacional, pode constituir uma falha política com consequências humanas, sociais e económicas profundas.

Quando autoridades transmitem mensagens contraditórias, subestimam riscos, atrasam alertas ou adotam discursos vagos, o efeito é devastador. A população perde referências, instala-se a desconfiança e multiplicam-se comportamentos descoordenados. A ausência de clareza pode levar ao incumprimento de recomendações de segurança, à resistência às medidas de emergência ou à disseminação de pânico coletivo. Nestes casos, a falha comunicacional transforma-se numa falha de liderança.

Mas a liderança comunicacional não se esgota no plano discursivo. Ela precisa de estar alinhada com a operacionalização das intervenções. Equipas de emergência, forças de segurança, profissionais de saúde e estruturas logísticas dependem de fluxos de informação precisos e contínuos. Ordens mal transmitidas, protocolos pouco claros ou falhas na circulação de dados podem comprometer resgates, atrasar evacuações e gerar riscos adicionais. Sistemas de informação eficientes, canais bem definidos e mensagens sem ruído são essenciais para evitar desperdícios, duplicações ou lacunas críticas. A fluidez comunicacional é, aqui, sinónimo de eficiência e eficácia. Em crises, comunicar mal é agir mal.

Contudo, é na comunicação com a População que se joga uma das dimensões mais sensíveis da gestão da crise. Informar não é apenas transmitir dados, é orientar comportamentos, instruções claras sobre segurança, deslocações, cuidados de saúde ou acesso a serviços podem fazer a diferença entre o caos e a organização social. A linguagem deve ser acessível, inclusiva e adaptada à diversidade de públicos. O tom precisa de equilíbrio entre firmeza e empatia, autoridade e proximidade.

Além disso, a transparência torna-se um imperativo ético e político. Em tempos de calamidade, esconder incertezas ou atrasar informações relevantes pode até parecer uma estratégia de controlo, mas geralmente produz o efeito inverso: desconfiança, especulação e perda de adesão às medidas propostas. A confiança pública constrói-se com verdade, consistência e presença comunicacional constante.

No mundo digital, importa ainda reconhecer o seu papel. Redes sociais e plataformas on-line amplificam mensagens oficiais, mas também propagam desinformação a uma velocidade inédita. Daí a necessidade de estratégias comunicacionais proactivas, monitorização contínua e respostas rápidas. Em ambiente digital, o vazio informativo é rapidamente ocupado por versões alternativas dos factos, muitas vezes alarmistas ou falsas.

Assim, a comunicação assertiva em contextos de catástrofe não é um detalhe técnico nem um adereço institucional. É uma infraestrutura crítica da resposta à crise. Ela articula liderança política, acção operacional, coordenação logística e cria confiança nos cidadãos. Quando bem conduzida, organiza o caos, orienta decisões e protege comunidades. Quando negligenciada, amplia danos, compromete respostas e expõe fragilidades de governação.

Num mundo cada vez mais exposto a emergências, sejam elas naturais, sanitárias ou tecnológicas, investir em literacia, competências e sistemas de comunicação de crise não é um luxo, é uma necessidade estratégica e um dever político. Porque, em tempos de calamidade, comunicar bem é mais do que informar: é exercer liderança, assumir responsabilidade e cuidar da vida coletiva.

Humberto Domingues
Enf. Espec. Saúde Comunitária
Mestre em Sociologia da Saúde
2026.02.16

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