quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

PORQUE NÃO VOTO DR. MARQUES MENDES PARA A PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA

PORQUE NÃO VOTO DR. MARQUES MENDES 

PARA A PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA

Fonte da fotografia: RDP Internacional


A rejeição ao Dr. Luís Marques Mendes numa eleição presidencial não resulta de um episódio isolado, de um reflexo emocional, de um estado d’alma, ou de um capricho eleitoral. É o resultado de uma avaliação política, atenta e amadurecida ao longo do tempo, sustentada num percurso público que acumulou sinais claros de parcialidade, complacência com o poder e falta de firmeza política, características incompatíveis no nosso ponto de vista, com a independência, a autoridade moral e a clareza exigidas ao Presidente da República.

Durante anos, Marques Mendes ocupou um espaço privilegiado como comentador político. Longe de se afirmar como uma voz isenta, equidistante e moderadora, consolidou antes a perceção de um discurso seletivo, marcado por leituras táticas, alinhamentos evidentes e juízos orientados. O comentário político transformou-se, demasiadas vezes, em intervenção e julgamento político, minando qualquer pretensão de neutralidade que hoje procura reivindicar, mas que, objectivamente, não tem/teve.


Um dos aspetos mais criticáveis do seu percurso foi a forma reiterada como desvalorizou e condenou as lutas e reivindicações dos Enfermeiros. Em momentos de legítima exigência por melhores condições de trabalho, dignidade profissional e defesa do Serviço Nacional de Saúde, Marques Mendes optou sistematicamente por um discurso que ecoou o incómodo do poder político e defesa deste. Essa postura revelou pouca empatia por uma classe essencial ao funcionamento do Serviço Nacional de Saúde e uma visão redutora dos direitos laborais, tratados como ruído mediático ou problema de agenda, sacrificando a defesa do equilíbrio social num claro discurso mais próximo da lógica da conveniência governativa. Um Presidente da República não pode olhar para o conflito social desta forma, ainda mais quando tal discurso levanta legítimas suspeitas de alinhamento com interesses que não são os dos cidadãos.

Também a sua postura face ao PSD e aos governos do PS liderados por António Costa levanta sérias e consistentes interrogações. Enquanto foi particularmente severo, por vezes quase obsessivo, na crítica ao seu próprio partido, contribuindo para o seu desgaste público, adoptou simultaneamente um tom notoriamente mais brando, quando não justificativo, em relação às opções, falhas e condicionamentos dos sucessivos governos Socialistas. Esta assimetria não foi episódica, foi persistente e politicamente reveladora, fragilizando qualquer pretensão de equidistância e comprometendo a função arbitral que se exige a um Chefe de Estado. E voltou a mudar o discurso quando percebeu que o consolado PS e António Costa estavam em degradação e perda, começando a alinhar-se com a Direita. Oportunismo político puro! Como afirmou Miguel Sousa Tavares, “Marques Mendes um conspirador profissional já há muitos anos, disfarçado de comentador”.

A estas reservas soma-se a percepção de uma figura profundamente integrada nos circuitos de influência, onde política, negócios e bastidores do poder se cruzam. Mesmo na ausência de acusações formais, a imagem de um facilitador de interesses, confortável nos equilíbrios do sistema, é suficiente para gerar desconfiança num eleitorado cada vez mais atento às exigências de ética, transparência e independência. A Presidência da República exige autonomia face ao poder, não proximidade conveniente.

Por fim, importa sublinhar a falta de firmeza e clareza em momentos decisivos, já em pré-campanha. Quando se exigia coragem política, Marques Mendes optou frequentemente por posições titubeantes, por um discurso dúbio ou pelo silêncio estratégico. No seu discurso, não assume o apoio e construção de reformas estruturais necessárias para o País. Um Presidente não pode ser refém de equilíbrios nem gestor de ambiguidades. Deve ser um garante inequívoco da Constituição, do regular funcionamento das instituições e do interesse nacional.

A recusa em votar Luís Marques Mendes é, por isso, profundamente política, e apenas política. Não se trata de negar o seu percurso ou a sua experiência, mas de reconhecer que o seu posicionamento público, ao longo de anos, o afastou das qualidades de independência, isenção, firmeza e autoridade moral que muitos portugueses continuam a exigir de um Presidente da República e que Portugal precisa.

Por todas estas razões, para nós, plausíveis, não voto Dr. Marques Mendes para a Presidência da República.

Humberto Domingues
Enf. Espec. Saúde Comunitária
Mestre em Sociologia da Saúde
2026.01.07

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