A SOLIDÃO JOVEM - A "EPIDEMIA" SILENCIOSA QUE ESTAMOS A IGNORAR
Fonte da Foto: Health News
Durante décadas, associámos a solidão à velhice. Imaginámo-la sentada em bancos de jardim ou em casas vazias após a reforma. No entanto, os dados mais recentes, em vários estudos, mostram uma realidade desconcertante: hoje, são os adultos jovens (entre os 18 e os 35 anos) quem mais relata sentimentos persistentes de solidão. Uma epidemia silenciosa, invisível nas estatísticas tradicionais, mas profundamente sentida no quotidiano. A OMS considera a “Solidão prolongada” como um problema de Saúde Pública.
A solidão não é apenas “estar sozinho”. “É um sentimento subjectivo e doloroso de desconexão, isolamento ou ausência de contacto social significativo”, onde a falta de pertença pode estar presente. É a discrepância dolorosa entre as relações que desejamos e aquelas que efetivamente temos. Pode existir mesmo, rodeados de pessoas, em cidades cheias, em redes sociais saturadas de contactos. E é precisamente neste paradoxo, hiperconectados/hiperligados, mas emocionalmente isolados, que muitos jovens vivem.
As causas são estruturais e não individuais. A instabilidade laboral, os contratos precários, a mobilidade constante, a dificuldade em criar raízes, a cultura do desempenho permanente e a pressão para “ter sucesso”, cedo corroem o tempo e a energia necessários para construir relações profundas. A competição desmedida e desregrada para o “ter material” fútil e volátil. A isto soma-se um uso intensivo das tecnologias digitais que, embora facilitem contactos, muitas vezes substituem, em vez de complementar, vínculos reais e significativos. O estigma faz criar o resto da dificuldade em admitir que solidão continua a ser visto como fracasso pessoal.
Ignorar esta realidade tem custos elevados. A solidão está associada a maior risco de depressão, ansiedade e pensamento suicida, mas também a problemas físicos, como doenças cardiovasculares e inflamação crónica, por disfunção do sistema imunitário. Afecta o sono, aumenta comportamentos de risco e compromete competências socioemocionais essenciais para a vida adulta. Não é apenas um problema emocional, é um determinante de saúde pública, a que hoje se deve dar muita atenção.
Perante este cenário, a pergunta impõe-se: quem pode, e deve, agir? A resposta passa, inevitavelmente, pelos Cuidados de Saúde Primários (CSP), mas com intervenção real na Comunidade. A Enfermagem Comunitária pode dar um contributo muito grande nesta matéria, pelo papel que desempenha, pela sua proximidade às pessoas, pelo foco na prevenção e pelo conhecimento do território. O “Pensar em Comunidade” pode ser uma estratégia e um posicionamento no possibilitar e despertar para este facto e pela forma como lidamos com a solidão jovem.
Tudo poderá começar por algo simples, mas que pode ser o “clique”: perguntar, dialogar, incorporar esta atitude no “rastreio da solidão” nas consultas de rotina, tal como fazemos com outros indicadores de saúde. Poderão existir, ou então construir-se, instrumentos curtos e validados que permitam identificar situações de risco e abrir espaço para uma conversa que muitos jovens nunca tiveram oportunidade de ter. A “Saúde Escolar” poderá ser uma ferramenta muito útil.
Mas identificar não basta. É preciso intervir. No território de cada Autarquia Municipal, em parceria muito estreita com a Saúde/Enfermagem Comunitária e Saúde Pública, podem ajudar a identificar, diagnosticar e facilitar intervenções. Por um lado sensibilizando para esta realidade, por outro, intervindo proactivamente em espaços comunitários e pontos de encontro. A tecnologia pode ser uma aliada, desde que usada de forma ética e com um objetivo claro, de facilitar encontros reais e não substituí-los.
Nada disto funcionará sem formação adequada dos profissionais e sem a participação ativa dos próprios jovens. As soluções não podem ser desenhadas “para” eles, mas “com” eles. Co-criar actividades, ouvir necessidades reais e respeitar a diversidade cultural e social é condição para o sucesso. Do mesmo modo, é essencial articular saúde, educação, emprego, cultura e autarquias numa resposta intersectorial sustentada.
Tratar a solidão como uma questão privada é um erro. Ela é um problema coletivo, com raízes sociais e económicas, que exige políticas públicas claras. Integrar a solidão como variável padrão nas avaliações de bem-estar, investir em projetos-piloto nos cuidados primários e financiar redes comunitárias de suporte não é um luxo, é prevenção em saúde apoiando-se também nas dimensões da “Saúde Mental”, olhando-se sempre para a “Literacia Social”. Se queremos adultos jovens mais saudáveis, resilientes e envolvidos na vida coletiva, precisamos de começar por reconhecer aquilo que muitos sentem, mas poucos dizem. A solidão não é uma falha individual. É um sinal de que algo, enquanto Sociedade, precisa de ser reparado. E quanto mais cedo o fizermos, maior será o impacto, não só na saúde dos jovens, mas no futuro comum que todos partilhamos. É um caminho, por certo, longo, mas que não pode ter interrupções. Até porque o impacto destas medidas apresentam resultados a médio e longo prazo e como “não dão votos” no imediato, não se implementam e não se realizam, daí uma das dificuldades. Mas a Sociedade do futuro e para ter futuro, não pode ser uma Sociedade doente nem construída na/de solidão!
Humberto Domingues
Enf. Espec. Saúde Comunitária
Mestre em Sociologia da Saúde
2026.01.04

Sem comentários:
Enviar um comentário