quarta-feira, 4 de março de 2026

LITERACIA EM SAÚDE: ESTAMOS A COMUNICAR OU APENAS A INFORMAR?

LITERACIA EM SAÚDE: ESTAMOS A COMUNICAR OU APENAS A INFORMAR?

Um desafio central da Enfermagem Comunitária


A Enfermagem Comunitária ocupa um lugar estratégico no Sistema de Saúde porque está próxima das pessoas, das Famílias e das Comunidades, conhece os seus contextos de vida, as suas vulnerabilidades e os seus recursos. Ainda assim, persiste uma questão incómoda que merece reflexão séria. Quando trabalhamos em “Educação Para a Saúde (EPS)”, estamos verdadeiramente a comunicar em saúde ou limitamo-nos a informar?

Num tempo marcado pela sobrecarga “informacional”, pela disseminação de fake news e pela influência crescente das redes sociais, a literacia em saúde tornou-se um determinante crítico dos ganhos em saúde. Contudo, continua a ser frequentemente abordada de forma redutora, como simples transmissão de conteúdos, esquecendo que informar não é, por si só, capacitar.

A Enfermagem Comunitária sempre teve na comunicação um dos seus pilares fundamentais. Educar para a saúde, promover estilos de vida saudáveis, prevenir a doença e fortalecer o autocuidado exigem muito mais do que folhetos, normas ou recomendações padronizadas. Exigem relação terapêutica, escuta activa, empatia e adaptação da mensagem ao contexto sociocultural da pessoa e da Comunidade, a quem nos dirigimos ou trabalhamos.

As fake news em saúde não ganham força apenas pela sua falsidade, mas porque conseguem comunicar onde o sistema falha: são simples, emotivas e próximas. Quando a comunicação institucional é excessivamente técnica, distante ou impositiva, cria-se um espaço de desconfiança que fragiliza a adesão às intervenções em saúde. Aqui, o “Enfermeiro da Comunidade” é decisivo, porque é, muitas vezes, o profissional em quem a Comunidade mais confia, está próximo e mais disponível.

As redes sociais, frequentemente vistas como ameaça, devem ser encaradas como território de intervenção. A Enfermagem Comunitária não pode permanecer ausente do espaço digital, sob pena de deixar a comunicação em saúde entregue a fontes pouco credíveis. Comunicar em saúde hoje, implica também literacia digital, capacidade crítica e presença profissional qualificada nos canais onde as pessoas efectivamente estão. Um espaço a conquistar e a ser potencializado com o auxílio da IA.

Um exemplo claro foi o debate em torno da vacinação que expôs, de forma clara, os limites de uma comunicação centrada apenas na evidência científica, desligada das emoções, crenças e experiências das pessoas. Este é um exemplo onde a Enfermagem Comunitária pode ter aqui e tem, um papel insubstituível, ao traduzir ciência em linguagem compreensível, dialogar sem julgamento, reconhecer medos e construir confiança. A literacia em saúde constrói-se com proximidade, não com imposição.

No domínio do autocuidado, o desafio é semelhante. Promover o autocuidado não é delegar responsabilidades sem empoderamento/capacitação. É desenvolver competências, fortalecer a autonomia e apoiar decisões informadas. Isso exige comunicação contínua, personalizada e culturalmente sensível. Estas parecem-nos competências nucleares da prática da Enfermagem.

Importa assumir uma reflexão crítica dentro da própria profissão e questionar, quantas vezes comunicamos para cumprir indicadores e não para transformar comportamentos? Quantas vezes falamos, mas não escutamos? Quantas vezes se confunde, educação para a saúde com mera entrega de informação?

A literacia em saúde é um instrumento de equidade, cidadania e sustentabilidade do Sistema de Saúde. Acreditamos que na Enfermagem Comunitária, é também uma expressão de compromisso ético e social. Comunicar bem não é opcional, é uma parte integrante do cuidar bem.

Estamos convictos que a nossa pergunta mantém-se pertinente e interpela directamente a prática profissional: enquanto Enfermagem Comunitária, estamos a comunicar para capacitar ou apenas a informar para cumprir? A resposta a esta questão define o impacto real da nossa intervenção nas Comunidades. Tenhamos nós a certeza que a Comunicação é uma ferramenta essencial e insubstituível da nossa intervenção e relação com a Comunidade.

Humberto Domingues
É Enfermeiro Especialista em Saúde Comunitária e escreve sobre saúde pública, literacia em saúde e políticas de saúde. É também Mestre em Sociologia da Saúde.
2026.03.04-13h40

LITERACIA EM SAÚDE: ESTAMOS A COMUNICAR OU APENAS A INFORMAR?

LITERACIA EM SAÚDE: ESTAMOS A COMUNICAR OU APENAS A INFORMAR? Um desafio central da Enfermagem Comunitária A Enfermagem Comunitária ocupa um...